PUBLICIDADE

Topo

Nuno Cobra Jr

O conceito atual de alimentação saudável não é saudável

PeopleImages/iStock
Imagem: PeopleImages/iStock
Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do UOL

21/01/2021 04h00

Como costumo dizer, tire o glúteo e você fica sem nádegas (risos).

O glúteo em questão é um trocadilho com a palavra glúten, e diz respeito à parte posterior do seu corpo, aquela que amortece o impacto no caso de uma queda, a grande obsessão nacional masculina, como também é conhecida.

Misteriosamente, a indústria bilionária do "sem glúten" tenta te convencer que o glúten faz mal. Apenas 2% da população tem intolerância ao glúten.

Para o restante, sugiro testar na prática se essa intolerância procede.

Quando o saudável vira obsessão torna-se uma doença. Comece a reduzir a variedade de alimentos em sua vida e, quando perceber, você pode estar com quase "nádegas" (me desculpe o trocadilho).

Uma alimentação saudável não deveria se basear na restrição e na proibição e, sim, na variedade e na abundância.

Queria discutir, nesse artigo, as distorções causadas por modismos e interpretações errôneas que acabaram colocando o glúten, o leite e outros alimentos no papel de vilões da alimentação saudável. Elevar algo tão básico e tão essencial, como o comer com equilíbrio, ao patamar de uma tarefa cada vez mais inatingível e complicada, acabou dando um nó na cabeça das pessoas, nó este que precisará ser desfeito nos próximos anos.

Pois é, esse é o perigo das fake news, assim como dos modismos alimentares, alguém lança um conceito inflexível, sem profundidade e equivocado, e isso se fixa no inconsciente coletivo, feito uma cola, depois podemos demorar décadas para, enfim, corrigi-lo.

Hoje, mesmo que os maiores especialistas em nutrição do mundo digam e expliquem, em detalhes, que apenas os celíacos deveriam evitar o glúten, isso já não serve mais de nada. Afinal, a indústria do sem glúten já se estabeleceu faturando bilhões de dólares anualmente, lançando livros que se tornaram best-sellers e gerando dezenas de pesquisas que apoiam esse conceito.

Continuando o raciocínio, gostaria de citar o caso de uma amiga minha que reúne milhões de seguidoras nas redes sociais, tendo o costume de se expor com muita coragem e sinceridade. No passado, ela já usou desse poder de influenciadora de uma forma não muito positiva, propagando mensagens de corpolatria e perfeição, ao exibir o seu corpo extremamente magro e musculoso, seguindo os padrões de beleza fitness.

No entanto, rapidamente ela se tocou dos riscos que essa influência acarretava e, dando uma guinada de 180 graus, tornou-se uma defensora do "body positive", estimulando as mulheres a aceitarem o seu próprio corpo e evitarem a ditadura cruel do corpo perfeito, algo que gera uma grande angústia, alimenta os transtornos alimentares, o consumo de anabolizantes e os transtornos dismórficos corporais, entre outros, prejudicando imensamente a saúde e a qualidade de vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Voltando ao assunto, em um post recente ela relatava que já estava "chutando o balde" na alimentação desde o Natal, e que agora estava tentando voltar à sua rotina alimentar, porém sem sucesso. O culpado seria o seu marido que, como comprovava a foto do post, havia lhe oferecido um copo de cerveja, ou, ocasionalmente, a estimulava a não cometer exageros na dieta, como almoçar apenas uma salada.

Me desculpe, querida amiga, mas o seu marido está certo, comer saudável não tem nada a ver com comer só salada ou não comer doce, pão, leite e outras coisas que foram vilanizadas recentemente em nossa alimentação.

Comer saudável não deveria ser um desafio radical.

Coma o seu queijo amarelo com lactose, o seu pão com glúten, seu sorvete com lactose, sua pizza com glúten e lactose. Tome a sua cervejinha, com muita moderação, pode até uma fritura, ocasionalmente, se não lhe cair mal, mas, principalmente, resgate o prazer de comer.

Afinal, no fim, o que faz mal é não viver. Priorize uma alimentação mais saudável, mas não viva uma vida de culpa e privação, uma vida triste, desnutrida e sem sabor.

Para pessoas que carregam o perfil psicológico de serem perfeccionistas ou obsessivos em tudo o que fazem, a alimentação pode se tornar algo extremamente exigente, se assemelhando ao rigor de um sacerdócio.

Se você se adapta bem a uma alimentação estritamente vegetariana e natural, ótimo, que bom. Contanto que isso não afete negativamente a sua saúde e qualidade de vida, no médio e longo prazo, isso pode ser favorável, de fato.

No entanto, não deveríamos estimular que outras pessoas sigam esse mesmo caminho da "perfeição alimentar". E por que isso? Qual o lado negativo dessa "boa influência"?

Não preciso ir muito longe para explicar esse risco, a ortorexia, a anorexia e a bulimia cresceram vertiginosamente nos últimos anos e, ao mesmo tempo, nunca se propagou tanto os benefícios da "alimentação perfeitamente saudável", assim como a ditadura das dietas restritivas tornou-se uma exigência normativa.

Ou seja, assim como ocorre com a indústria do treinamento, estimular a perfeição, um ideal inatingível, tem gerado um grave efeito colateral, levando a maioria de nós a atingir o oposto daquilo que é almejado, estimulando o 8 ou 80, o radicalismo, o desequilíbrio e a inadequação.

Então, ser saudável ao extremo faz mal? Não, depende para quem e quais os seus objetivos e escolhas. Para um iogue ou alguém em busca da iluminação espiritual pode ser uma boa opção essa proposta, por exemplo.

Porém, é bom alertar que o "saudável radical" se tornou mais um modismo, gerando centenas de produtos, como as superfoods, suplementações, workshops e cursos, entre outros, inventando uma necessidade onde ela não existe, de fato uma especialidade do mercado de consumo atual.

Detalhe: uma alimentação saudável não se faz pela via da suplementação, o máximo que você vai conseguir é sobrecarregar o funcionamento dos rins.

"Não é você que falha com a dieta, é a dieta que falha com você" (Paola Altheia).

Vamos descomplicar o processo? Que tal libertar milhões de pessoas que sofrem, diariamente, seja devido ao fato de seguirem dietas radicais ou não conseguirem se adequar a padrões de beleza insanos?

Detalhe: hoje sabemos que a dieta não é a solução do excesso de peso, mas, sim, um dos principais fatores a impulsionar esse cenário.

Que tal encontrar o caminho do meio?

O equilíbrio está no meio, não nos extremos. Hoje, a imensa maioria das pessoas vive de um extremo ao outro, constantemente. Ou seja, o exagero se manifesta como uma reação natural a privação prolongada.

Experimente apertar com força aquela balança clássica, símbolo da justiça, com dois lados, para ver o que acontece logo em seguida. Isso irá causar uma reação proporcional do outro lado.

Comer doce faz mal? Não, não existe veneno sem uma dosagem. O nosso corpo é capaz de absorver, tranquilamente, uma dose pequena de açúcar, sem prejuízo à nossa saúde. Ou seja, um docinho de vez em quando, em pequena quantidade, não tem a capacidade de fazer mal ao seu corpo e isso serve para outros alimentos.

Devo evitar os industrializados? Com certeza, assim como outros preceitos que já estamos "carecas de saber". Porém, isso não deveria me impedir de comer um pedaço de panetone no Natal ou um delicioso pão italiano, você não acha? A vida é muito curta para justificar o radicalismo alimentar.

O desejo é como uma represa, caso não exista uma vazão mínima, o dique pode estourar. E então, você detona uma caixa de bis de forma descontrolada, uma reação natural ao desejo represado.

Aliás, se pudéssemos eleger um grande vilão da alimentação atual, o radicalismo seria o grande eleito, com certeza. No "século da mentira", como define Pondé, o extremismo se espalha feito capim, por via do território sem lei das redes sociais.

Assim, a mentira torna-se verdade e a verdade torna-se mentira. A ciência e a imprensa profissional perderam o protagonismo, sendo substituídas pela opinião de um bando de saqueadores anônimos ou influenciadores profissionais famosos.

Dessa forma, a verdade, algo que já era difícil de ser encontrada, agora se perdeu de vez numa cacofonia ensurdecedora e caótica.

O que provoca o descontrole alimentar?

No início do século passado, graças ao rigor extremo da igreja católica e dos costumes, tabus ligados ao sexo podiam causar um efeito colateral adverso: provocar a libido de uma forma extrema, despertando um prazer fora do controle, proibido e altamente estimulante.

Hoje, esse mesmo rigor extremo e desejo de controle foi deslocado para a alimentação, podendo disparar a mesma atração pelo proibido. Quando você diz a si mesma que não pode comer porque vai engordar, pode iniciar um processo perverso, no qual tudo aquilo que é proibido passa a exercer uma atração irresistível à sua psique. Óbvio, quanto mais foco você coloca na negação, mais esse assunto vai crescendo e tomando espaço em sua mente.

A culpa não é apenas a melhor companheira da compulsão e do excesso de peso, ela é o motor por trás desse processo. Dessa forma, sem perceber, os "sacerdotes do perfeccionismo alimentar" estimulam a rigidez e o desejo de controle, o que, para muitas pessoas, serve como estímulo para aumentar e hiperdimensionar, ainda mais, a obsessão com a alimentação.

Quanto mais rigor na contenção, maior o desejo pelo proibido.

Questões ligadas ao comer ocupam muito espaço em sua vida? Isso é motivo de angústias, conflitos e insatisfações? Isso é um sinal claro de que chegou a hora de mudar a sua relação com a alimentação.