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Nuno Cobra Jr

Nos esquecemos daquilo que é mais importante para atingir uma ótima saúde

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Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

07/01/2021 04h01

O ser humano é seduzido por alimentos energéticos e revigorantes que prometem aumentar a nossa energia e vitalidade. As pessoas também se interessam obsessivamente por formas artificiais de retardarem o processo de envelhecimento. De certa forma, isso se torna engraçado, porque todas as formas de se obter vitalidade, saúde e beleza já inventadas pelo homem não passam de uma "gota no oceano" perto do poder da combinação equilibrada entre sono, alimentação e movimento.

Por que a indústria do consumo seduz e ilude com formas menos eficientes e com paliativos que prometem toda sorte de milagres artificiais? Porque essas formas artificiais podem ser empacotadas e vendidas mais facilmente e com uma margem de lucro maior.

O consumo vive de uma ilusão, o que se vende é uma promessa. É sempre a próxima novidade que vai dar resultado e fazer as pessoas mais felizes. Esses produtos exploram a passividade da sociedade de consumo diante da vida e do próprio corpo. Por isso, as fórmulas que prometem resultado no curto prazo são tão populares e comerciais.

As pessoas não estão interessadas em resolver realmente os seus problemas, elas querem que alguém os resolva por elas. Com essa deixa, entra o mercado de consumo e inventa uma pílula ou um produto para solucionar essa questão. Então, eles contratam uma excelente agência de marketing, uma equipe de gestão incrível, criam um roteiro convincente, empacotam este produto, financiam pesquisas para comprovar sua eficácia e o colocam no mercado. Pronto, está em curso uma máquina feroz de se fazer dinheiro, em cima da passividade, pressa e ignorância da população.

Ou seja, quando alguma nova moda de verão chega ao grande público, prometendo resultados rápidos e milagrosos, ou quando algumas pesquisas que "discretamente" ou "descaradamente" apoiam estas fórmulas, ganhando destaque na mídia, isso não é apenas uma feliz coincidência.

A saúde perfeita não pode ser comprada

Os princípios básicos que regem nossa saúde foram moldados por milhões de anos de evolução. Seriam necessários alguns séculos para alterar sutilmente alguns desses princípios.

Isso me permite formular uma regra geral que defina o estado ótimo da saúde humana: aquilo que seria necessário para se ter saúde, há dois mil anos, ainda vale para se alcançar a saúde perfeita hoje.

No entanto, nos últimos 100 anos, a nossa espécie tomou um atalho perigoso, artificializando os processos naturais da nossa existência. Para facilitar a vida nós complicamos tudo, criando milhões de produtos supérfluos e desnecessários.

Com a saúde não poderia ser diferente, se por um lado a medicina trouxe avanços incríveis, prolongando a vida, por outro lado, o estilo de vida imposto (pelo mercado de consumo) causou um rombo sem precedentes na saúde pública

Abrangendo os aspectos fisiológicos, o mindset atual nos leva a esquecer e abandonar aquilo que é mais importante: dormir com qualidade, comer com qualidade e se movimentar regularmente, de forma saudável e equilibrada

Um exemplo dessa distorção: atualmente a imensa maioria das pessoas não faz atividade física ou, quando se exercita, faz isso de forma exagerada, sem uma preocupação real com a longevidade e a saúde, mesmo que em teoria isso seja vendido como algo importante. A estética corporal tomou todo o espaço reservado à saúde física e dominou o inconsciente coletivo, distorcendo os princípios essenciais do treinamento.

Detalhe: estávamos fisicamente mais ativos em 1920, quando a maioria das pessoas caminhava, em média de 7 km a 8 km por dia, uma vez que não havia carros e outras facilidades, preservando naturalmente esse pilar essencial da saúde.

Dessa forma, ao abandonar a base fundamental da vida, como chamo, e substitui-la pelas facilidades e os milagres prometidos pelo mercado de consumo em massa, todas as doenças modernas aumentaram de forma vertiginosa nas últimas décadas.

Em 2004, iniciei uma pesquisa trazendo à tona essas questões e levantando a bola. Algo está muito errado e precisamos falar sobre isso, urgentemente.

Não se trata de negar a vida moderna ou pregar uma volta ao passado, mas de corrigir o rumo e usar a tecnologia e o desenvolvimento a favor da saúde, revertendo o cenário atual. Isso implica também em regular e corrigir os desvios do livre mercado que impôs o domínio totalitarista de indústrias bilionárias agressivas e oportunistas que ao invés de ajudar, agem decisivamente no agravamento da questão, como no caso da indústria das dietas.

Para que simplificar se podemos complicar?

Complicar parece ser uma tendência do mercado e confere certo poder aos especialistas, afinal, eles estudaram muitos anos para dominar tais assuntos. Complicar cria uma dependência do aluno em relação ao profissional em questão e uma fidelização desejável. Isso permite a criação incessante e periódica de novos métodos e produtos e fomenta o crescimento de indústrias bilionárias, como o fitness, as dietas, as cirurgias estéticas e as suplementações.

Eu conheço pessoas que percorrem caminhos elaboradíssimos de cuidados com o corpo e a saúde. O mais engraçado é perceber que todo esse investimento complexo, caro e sofisticado tem um resultado muito abaixo, "anos luz" de distância de um caminho simples e natural. É uma tal artificialização do processo que chega a ser assustadora.

Por exemplo, tenho uma amiga que lança mão de diversos artifícios para parecer mais bela. Vamos conferir passo a passo o que ela faz e, em seguida, observar, entre parênteses, minhas observações sobre as estratégias usadas:

1. Todos os anos, ela viaja até a França para se tratar com o maior especialista em ortomolecular do mundo e volta com vitaminas e suplementos caríssimos. (Alimentar-se com mais qualidade seria muito mais eficiente do que se entupir de suplementos sobrecarregando os rins.)

2. Ela vai na "melhor" esteticista e na "melhor" dermatologista do mercado e volta com cremes caríssimos para a pele. (Caso se hidratasse mais, parasse de fumar e dormisse melhor, teria resultados brutalmente melhores.)

3. Ela tem uma academia caríssima em casa e um personal que lhe custa uma fortuna. Esse profissional impõe a ela um imenso sofrimento e, volta e meia, minha amiga dá um jeito de driblar e fugir desta obrigação. Ela mesma confessa que não faz nem 30% das aulas. (Nesse caso, se ela fizesse algo mais divertido e prazeroso, como dançar, jogar tênis ou apenas o básico, como caminhar, regularmente, seria bem mais eficiente.)

4. Ela faz cirurgias plásticas e lipoaspirações com certa frequência. (Caso fizesse mudanças de hábitos alimentares, tivesse uma relação de prazer com a atividade física e praticasse meditação para controlar a ansiedade, seria infinitamente mais produtivo.)

5. Frequenta spas caríssimos e faz consultas com as "melhores" nutricionistas do mercado. (Mas, nada disso adianta, já que ela não quer mudar os seus hábitos e insiste em fazer dietas restritivas.)

Ou seja, ela se utiliza de mil recursos para remendar, contornar e artificializar a sua aparência e, assim, continuar mantendo os mesmos hábitos que a envelhecem precocemente e fazem mal à sua saúde. Lançando mão de soluções desesperadas, ela já fez quatro lipoaspirações. Uma média de uma a cada dois anos, desde que a conheço. Mas, em pouco tempo, tudo volta a ser como era antes e ela engorda.

Minha amiga está frequentemente acima do peso, já que é ansiosa, dorme mal, come em excesso e com péssima qualidade. Afinal, ela tem "muito" dinheiro e, de que serve ter sucesso e dinheiro, se você não pode cometer pequenos excessos frequentemente, não é mesmo? Esse é o risco inerente a uma vida material muito abonada.

Bom, o que eu sei é que o resultado final deste cuidado caríssimo feito por ela deixa muito a desejar. Apesar disso tudo, a aparência dela é triste e desvitalizada. Mesmo com as vitaminas, os suplementos, treinamentos exóticos, dezenas de especialistas, plásticas, cremes e maquiagem que ela usa, minha amiga está completamente sem vitalidade e saúde. É fácil observar isso pelos olhos. Os seus olhos são opacos e cansados, com olheiras profundas, sem vida. Ainda não inventaram uma maquiagem para se passar dentro dos olhos, que disfarce a perda de vitalidade.

Mesmo que ela se esforce ao máximo em parecer mais nova, a sua aparência é bastante envelhecida. Aos 62 anos, já se move com certa dificuldade, tem perdas ósseas graves na bacia, limitações nos joelhos devido aos excessos no treinamento e perdeu toda a naturalidade e beleza em seu corpo, músculos e pele.

Ela se esforça ao máximo para investir em sua saúde, mas está claramente vivendo um processo de adoecimento e envelhecimento acelerado (já que não cuida do que realmente é essencial).

Como você já deve ter notado, existe um mercado crescente de livros, sites, revistas e toda forma de métodos que prometem incrementar a beleza e a saúde.

O homem, em sua onipotência, quer igualar e simular o que a natureza já faz por si mesma. Já existe uma fórmula da saúde e, consequentemente, da beleza, inigualável, e o melhor é que não precisamos gastar quase nada por isso

Posso ser extremamente sincero e transparente com você? A saúde é o óbvio ululante. As armas mais poderosas na manutenção da nossa beleza e saúde são de graça, como dormir, caminhar, meditar e amar, entre outras. Pode ter certeza, muitas coisas que estão disfarçadas de "novidade" já foram escritas por algum autor grego há mais de dois mil anos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.