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Precisamos qualificar a atividade física

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Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

17/09/2020 04h00

Coma qualquer coisa e faça atividade física com equilíbrio e moderação. Se você fosse um estudioso da nutrição, o que você pensaria ao ler essa frase?

É isso que eu sinto ao ler a sugestão de praxe dos profissionais da saúde ao recomentar a atividade física para as pessoas. Caso alguém indique a você essa receita de saúde, saiba que ela é um equívoco. Não é qualquer forma de atividade corporal que vai colaborar com sua saúde.

Precisamos urgentemente qualificar a atividade física, aplicando a ela a lei universal do equilíbrio e da moderação, um princípio que rege todos os pilares fundamentais da nossa saúde.

Mexa-se. Vemos essa afirmação por todos os lados. E cada vez que leio isso, me pergunto: faz sentido uma recomendação tão generalizada?

Toda vez que deparo com coisas assim fico incomodado, como ao ler recentemente o título: "Dormir bem, comer melhor e mexer o corpo". Essa frase estava na capa da Scientific American, uma renomada revista de psicologia e neurociência. Aposto que, ao ler esse título, você deve ter achado que ele pode fazer sentido, não é?

Veja mais um exemplo: "Penso que o corpo tem seu próprio tripé de sustentação —alimentação balanceada, prática de exercícios e descanso adequado. " (Robert Wong). Você reparou que, em todas as recomendações apresentadas nessas frases, o movimento (ou exercício) não está associado a nenhuma qualidade específica?

Quando falamos do sono, sabemos que existem conceitos associados a ele e certos estudos que defendem um ideal de quantidade e qualidade. Dormir pouco faz mal, da mesma forma que dormir muito também faz mal. O mesmo ocorre com relação à alimentação. Quando pensamos em um cardápio ideal, ele sempre está associado a dois adjetivos: moderação e qualidade. É o que nos dizem os nutricionistas, não é?

O movimento, por mais incrível que pareça, acabou se tornando o primo pobre dessa equação. Quando propomos um modelo de treinamento natural e integral, não é apenas uma feliz coincidência perceber que essas qualidades também estejam profundamente associadas a uma boa alimentação. Pois bem, posso ser categórico em afirmar que o tripé essencial que sustenta nossa saúde segue um mesmo princípio. Como tudo o que é vivo, esse princípio é baseado na própria natureza: uma busca constante pelo equilíbrio e pela homeostase. O equilíbrio está no meio, não está nos extremos. Sem dúvida, quando falamos em saúde no treinamento, a recomendação, assim como na alimentação, deveria ser a seguinte: faça atividade física com moderação e qualidade.

O SEU CORPO NÃO GOSTA DE SOFRER

"Caramba!", você deve estar pensando, "de que planeta esse treinador veio?"

Calma, venho de uma linhagem ligada à consciência corporal e ao treinamento na medida exata, aplicada aos atletas de alta performance, um modelo que prega princípios antagônicos ao treinamento com o foco na estética e no resultado, como no caso do mercado fitness, por isso o estranhamento.

Convido você, então, a avaliar com mais cuidado se o seu treinamento está trazendo saúde ou está acelerando o processo de envelhecimento e consumindo a sua saúde, no médio e longo prazo, algo extremamente complexo, mais que pode ser resumido em algumas questões que vou levantar aqui.

Entenda que o mais importante não é aquilo que você faz e, sim, como você faz. Sendo assim, você pode estar seguindo um modelo de treinamento estético ou as últimas modas do treinamento e, caso o seu treinador seja mais consciente, ele pode estar dosando a intensidade do treinamento com mais parcimônia e cuidado, de olho na preservação da sua saúde.

É possível trabalhar no meio termo, unindo o ganho de performance e resultados, ao mesmo tempo que existe um cuidado extremo com a saúde —e, aqui, surge de novo as duas palavras mágicas: equilíbrio e moderação. Ou seja, formas de treinamento exaustivas, cargas extremas, provas contra o relógio, provas de aventura, endurance de longas distâncias, esportes de alto impacto articular e outras estratégias radicais irão acelerar o envelhecimento, elevando negativamente o número de radicais livres e a acidez sanguínea, além de maltratar o seu coração e consumir aceleradamente estruturas nobres, como as articulações e as cartilagens.

Então, qual o segredo para evitar isso?

Abandonar o foco no resultado e equilibrar a balança, trazendo consciência e moderação a tudo o que você faz. Por exemplo, uma coisa é você realizar uma meia maratona sem estar bem adaptado a esse esforço e acelerando os batimentos cardíacos, outra coisa é fazer essa prova em equilíbrio de oxigênio, em conforto respiratório, o que é muito mais saudável.

Como regra geral, fique atento a esse princípio fundamental: tudo em excesso irá ter um custo futuro, assim como uma poupança negativa que você acumula. E, pode ter certeza, quando essa conta chegar ela pode ser muito cara e cruel.

Para tirar a dúvida, pergunte a um ortopedista ou a um fisioterapeuta como a maioria dos atletas, principalmente em esportes de alto impacto, lutas, provas de endurence ou mesmo os fisiculturistas obsessivos com o crescimento muscular irão chegar aos 50 anos.

A corrida é como o vinho: se você consumir em excesso, ela se torna prejudicial" Paulo Vitiritti, profissional de educação física

Hoje, sabemos que provas extremas, como uma maratona, podem trazer danos irreversíveis ao coração. "Provas extenuantes provocam uma depressão do sistema imunológico. Os maratonistas ficam vulneráveis a várias infecções após a prova. Uma delas, a mais grave, inflama o músculo cardíaco e pode provocar fibroses", afirma o Dr. Nabil Ghorayeb, um dos maiores especialistas em cardiologia ligada ao esporte, que está entre os diversos mentores que lancei mão para ampliar a minha visão do treinamento físico e colaborar em meu livro.

Pesquisas recentes mostram que não fazer nada ou treinar de forma exagerada pode ser igualmente prejudicial ao nosso coração e à nossa saúde, de forma geral.

É a ciência chegando ao óbvio ululante (aquilo que está gritando, mas a maioria não consegue enxergar): os extremos são nocivos à saúde. Ou seja, as pessoas só estão vendo o lado positivo do treinamento de alta intensidade e do desafio extremo. Por um lado, enfrentar desafios é realmente uma prova de superação que pode trazer ganhos mentais e emocionais, mas, por outro, representa ignorar os princípios mais básicos da saúde e do corpo. Muitas marcas esportivas investem em slogans que estimulam os consumidores a maltratarem e consumirem o seu corpo, realizando treinamentos ou desafios extremos, que podem ter como resultado, em médio e longo prazo, a destruição do seu aparelho locomotor. Caso isso definitivamente ocorra, você sofrerá com dores crônicas para o resto da sua vida.

Vale realmente a pena apoiar e sustentar esse modelo de treinamento? O marketing já usou a frase "supere seus limites" à exaustão. Ninguém aguenta mais ser obrigado a superar seus limites, constantemente, impondo ao corpo um sofrimento desumano.

Precisamos fazer o caminho de volta, resgatar à sanidade corporal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.