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A espécie humana "evoluiu" para a estagnação física e mental

Consumo excessivo de guloseimas, muitas horas no celular e pouca atividade física são hábitos comuns da vida moderna - iStock
Consumo excessivo de guloseimas, muitas horas no celular e pouca atividade física são hábitos comuns da vida moderna Imagem: iStock
Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

24/06/2020 04h00

O Homo shopping é a variação mais comum da nossa espécie atualmente.

Vivemos sobre as leis do consumo inconsciente e da artificialização da vida. O Homo shopping já não dorme mais e, para sanar esse "probleminha", basta comprar um remédio e tomar antes de ir para a cama. Infelizmente, já está provado que esse medicamento não induz a um sono profundo e tem um impacto extremamente maléfico em médio e longo prazo. Sem problema! Quem está com pressa não busca soluções definitivas.

A vida e o trabalho do Homo shopping não geram sentido, a felicidade só será possível no futuro, quando conquistar mais sucesso e tiver mais dinheiro, por isso ele trabalha de forma insana, sem parar. Sua mente é totalmente dominada pelos valores do "fast-consumo" (consumo em escala, massificado e globalizado)

Como trabalha em excesso, ele chega em casa completamente extenuado e, assim, antes de dormir, consome um seriado ou algo que possa distraí-lo, para, enfim, conseguir relaxar. Quando isso torna-se um hábito, acaba de ser fidelizado por mais uma droga poderosa e altamente estimulante, cuidadosamente pensada para mantê-lo preso ao sofá.

Obviamente, no dia seguinte, ele tem dificuldade para acordar, por isso ingere cafeína, em doses cavalares, ou toma mais um "remedinho", dessa vez buscando efeito contrário ao do que tomou à noite. O objetivo agora é aumentar a atenção e a produtividade. Sem perceber, essa combinação entre falta de sono de qualidade e estimulantes vai conduzi-lo a um rápido processo de degradação celular e adoecimento.

Pronto, agora, esse círculo vicioso está cuidadosamente programado para se repetir todos os dias e, após certo tempo, tende a se tornar um hábito sólido e bem estabelecido.

O CORREDOR DA MORTE

Mas esse mecanismo perverso não acaba aqui. Como o Homo shopping não tem qualidade no sono, seu corpo busca compensar essa falta de energia implorando por alimentos calóricos, açucarados e gordurosos. Sem problema! Por todo o lado há milhares de produtos desse tipo, seduzindo-o a todo instante.

Quando vai ao supermercado ou à padaria, ele é obrigado a passar pelo "corredor da morte", um corredor estrategicamente montado para capturar o seu desejo por doces, salgadinhos e toda sorte de produtos irresistíveis, especialmente planejados e desenvolvidos pelos maiores mestres da "engenharia de alimentos criminosos", contendo uma enorme variedade de conservantes, aromatizantes, estabilizantes, emulsificantes e produtos potencialmente cancerígenos, entre outros.

Junte-se a isso o aumento do uso de agrotóxicos nas plantações e o cenário se complica. Acrescente a essa fórmula alguns fatores citados anteriormente, como a perda de qualidade de vida e o aumento do estresse, e você terá uma explosão nos casos de câncer no mundo. Sem problema, uma outra indústria bilionária irá se favorecer desse cenário.

Afinal, o ser humano é uma espécie que se especializou em enriquecer em cima da desgraça do seu próprio semelhante, vendendo soluções para problemas criados e alimentados pelo próprio mercado. Um bom exemplo do oportunismo mercadológico são os banqueiros, criando grandes instituições financeiras que exploram a fragilidade de seus clientes.

A INDÚSTRIA DO CORPO PERFEITO

A atividade física não faz sentido, é apenas mais um sofrimento que o Homo shopping se obriga a suportar para obter resultados estéticos ou cuidar da saúde. Obviamente, ele foge dessa obrigação como "o diabo da cruz" e, assim, a combinação perniciosa, entre falta de movimento e péssima alimentação, vai, obviamente, conduzi-lo ao sobrepeso e à obesidade. Sem problema!

Agora, chegou a hora de consumir milhares de soluções instantâneas e milagrosas para perder peso, oferecidas pelo mercado do fast-consumo. Afinal, todos esses lobbies bilionários se especializaram em oferecer-lhe produtos altamente sedutores, comerciais e apelativos.

Como essas fórmulas de curto prazo dificilmente irão funcionar, já que perder peso com rapidez leva a um reganho de peso na imensa maioria dos casos, o Homo shopping ficará fidelizado a esse sistema para o resto da vida. Para a maioria, essa contribuição pode ser vitalícia, a vida triste, sem sabor e restritiva das "dietas que duram a vida inteira" já é uma realidade, fazendo com que seus fiéis seguidores estimulem e perpetuem o efeito sanfona, oscilando de um extremo ao outro, regularmente, sem que possam obter sucesso em seu objetivo, afinal o equilíbrio está no meio, não nos extremos.

Quando a sua autoestima está baixa, ele faz uma lipoaspiração ou centenas de outros procedimentos cirúrgicos oferecidos pelo mercado do fast-consumo, sem problema!

O Homo shopping já não come, ele apenas engole os alimentos com pressa, afinal, tempo é dinheiro e isso, por si só, é um dos principais fatores a sustentar e perpetuar sua obesidade. Sem perceber a própria condição, é assim que ele se arrasta pela vida, sem tempo para viver, doando seu corpo em vida, para o "mercado do consumo inconsciente" poder seguir em movimento.

A INDÚSTRIA DA REMEDIAÇÃO

Como o buraco em sua alma é grande, a compulsão alimentar torna-se cada vez mais necessária e incontrolável.

Com o tempo, trabalhar de forma insana, ir contra a sua própria natureza e ignorar as bases fundamentais da vida: sono, movimento e alimentação, de forma equilibrada, leva-o a uma depressão fisiológica, atingindo em cheio a sua mente e a sua vontade de viver. Pronto, agora é hora de financiar um outro mercado, o universo dos antidepressivos, ansiolíticos, psiquiatras, hospitais e similares.

Nesse exato momento, essa espécie pode ser vista andando pela rua, atordoada, ausente, dependente e anestesiada pelo excesso de estímulos via celular, e pelo excesso de informações. Quem diria, o celular é a arma mais letal já inventada pela humanidade, como diria Adoniram Barbosa: "Mata mais que atropelamento de automóvel, mata mais do que bala de revólver".

O Homo shopping já não lê livros, todo o seu conhecimento vem das redes sociais em seu "smartphone", que ele manipula de forma compulsiva. Muitas vezes, as suas verdades são construídas a partir de fake news e "manipulações noticiosas", dominadas e controladas por interesses particulares ou pelo mercado, que o condiciona a acreditar em seus valores e verdades absolutas.

Aliás, as verdades absolutas são essenciais para reduzir as chances de pensar com mais profundidade, filosofar ou relativizar o que aprendeu.

Como ele é uma vítima do consumo, a sua vida pode ser entendida como uma grande manipulação, uma doce ilusão estimulada pelo marketing subliminar para levá-lo à insatisfação e, assim, fazer girar essa roda cruel, fomentando e alimentando o fast-consumo. Ele raramente consome coisas que realmente colaboram em sua saúde, já que é um fiel seguidor das modas e das novas tendências, fórmulas instantâneas e milagrosas, dominantes e, estrategicamente, bem posicionadas no mercado.

O Homo shopping não tem tempo para ficar triste, quando sente esse desconforto, basta pedir rapidamente, pela internet, algo saboroso, extremamente calórico e processado, beber compulsivamente, consumir outras drogas ou fazer compras. Porém, como evoluiu, ele não precisa mais caminhar para ir comprar o seu "tapa buraco emocional". O motoboy leva tudo até ele, sem problema! A única desvantagem é que, devido aos seus hábitos, o Homo shopping caminha para a extinção.

EXISTE UM MUNDO QUE MELHORA

Como você pode notar, sou uma pessoa extremamente sincera e transparente, a vida é assim, a nossa maior qualidade é, também, ao mesmo tempo, o nosso maior defeito. Porém, antes que você fique atordoado e deprimido ao tomar conhecimento da nossa realidade profunda, devo explicar que essa realidade é recente e, como tudo em nossa história, ela é apenas uma experiência transitória da nossa humanidade —assim espero!

O mercado do fast-consumo se iniciou na década de 1950, nos EUA, vindo desaguar em um monstruoso mercado de produtos descartáveis, em escala, massificados e globalizados. É assim que funciona a evolução humana, estamos tateando nosso futuro por meio de tombos, erros e acertos.

De qualquer forma, agora o 'buraco" ficou enorme, o rumo que tomamos nas últimas décadas nos coloca em um grande risco, nunca antes vivenciado por nossa espécie. Resumindo uma longa história: inventamos um sistema que sacrifica e adoece a todos. Talvez, tenha chegado a hora de repensar a nossa vida e os nossos valores.

Um capitalismo inconsciente e desumano se alimenta de uma mentalidade que já caducou.

Quando chegamos ao esgotamento de um sistema, inventamos outras soluções para sanar esses problemas. Lembre-se que o ser humano é uma espécie extremamente criativa e adaptativa.

Existe um mundo que melhora a passos largos e, ao mesmo tempo, existe um mundo que piora. Eles coexistem dentro da mesma realidade, sempre foi assim, basta ter olhos para percebê-los e mãos para colaborar nessa evolução. Tente observar, houve enormes evoluções nas últimas décadas, conquistamos avanços significativos em departamentos como a expansão da consciência, a queda de dogmas e as liberdades individuais.

Por fim, proponho que você faça uma autocrítica extremamente incômoda e sincera, me diga lá, afinal, o seu trabalho tem um impacto positivo ou negativo no mundo à sua volta? Ou seja, você faz parte do problema ou da solução?

O mundo não é uma entidade abstrata, descolada das suas ações e da sua participação, ele é feito de você, de mim e de todos nós.

Não adianta reclamar e continuar de braços cruzados, esperando que essa solução caia do céu.

Todo dia, ajudo diretamente algumas pessoas a melhorarem a sua saúde e qualidade de vida e atuo, indiretamente, criando textos, livros, vídeos ou conteúdos que buscam expandir a nossa consciência —inclusive, esse texto que você leu agora é um capítulo inédito do meu próximo livro (ainda sem nome).

Colaborar com a evolução do mundo depende de ações práticas, diárias. Tudo começa com o autocuidado, alimentando, com muita consciência e carinho, o seu próprio equilíbrio interno.

Sem essa consciência e equilíbrio, não podemos ser uma influência positiva ao mundo e as pessoas que estão a nossa volta.