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Nuno Cobra Jr

Você conhece o conceito de insanidade corporal?

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Nuno Cobra Jr

Nuno Cobra Júnior é um generalista do conhecimento corporal e acompanhou o treinamento físico e mental de alguns dos maiores esportistas brasileiros nos últimos 35 anos, entre medalhistas olímpicos e diversos campeões mundiais, como Ayrton Senna e o surfista profissional Ítalo Ferreira. Profissional de educação física, palestrante, consultor em qualidade de vida e treinamento integral, tem ajudado a conceitualizar e fomentar uma nova visão do treinamento físico, longe dos modismos e dos modelos hegemônicos de treinamento. O autor do livro ?O Músculo da Alma, a Chave para a Sabedoria Corporal? defende a inovação e a renovação do treinamento físico. É fundador de uma nova abordagem metodológica que une a filosofia, a psicologia e diversas áreas do conhecimento corporal, aplicados ao treinamento físico. Veja mais em www.treinamentoconsciente.com.br

Colunista do VivaBem

10/06/2020 04h00

Como perder peso de forma definitiva e duradoura adotando sempre a mesma estratégia?

O treinamento físico é o mercado do desespero. Abra uma revista de treinamento e você verá sempre a mesma estratégia: seduzi-lo por meio do oportunismo mercadológico, oferecendo fórmulas instantâneas e milagrosas de estética corporal. Toda vez que você adota esses métodos, você está adiando a solução definitiva do problema e se desviando do caminho da saúde.

O seu corpo não existe apenas para desfilar na praia e ser torturado e maltratado durante o "projeto verão". Imagine só o que significa para o seu corpo ser abandonado durante 10 meses e, em seguida, ser submetido a rituais insanos de dieta e treinamento físico durante 2 meses, ano após ano.

Essa é a fórmula mais eficiente para aumentar os riscos de lesões, envelhecer precocemente, detonar todas as suas estruturas físicas e orgânicas e ganhar ainda mais peso, já que para a imensa maioria das pessoas, perda de peso rápida significa reganho de peso no médio e longo prazo. Fora aqueles que irão ficar pelo caminho ao tentar se adequar a essa proposta.

Bem-vindo à sociedade da pressa e da inconsciência corporal!

Afinal, por que ninguém fala a verdade para você? Ao contrário daquilo que é propagado, para ter saúde e bons resultados no treinamento a melhor estratégia seria evoluir de forma lenta e gradativa, com o foco no médio e longo prazo. Mas será que essa fórmula é vendável? Mais à frente vou explicar em que parte começa esse mal-entendido e como a sua mente é capturada pela promessa de finalmente alcançar o sonho de ter um corpo perfeito.

Na verdade, provavelmente você já tem um corpo perfeito e não sabe, afinal, a perfeição não existe, todo organismo vivo é imperfeitamente perfeito e extremamente diverso e variado, ou seja, o padrão correto seria não ter padrões.

Se seu seu corpo é capaz de realizar necessidades funcionais básicas com vitalidade, você já tem um corpo funcional que expressa uma das maiores maravilhas do universo: um ser vivo

Ok, ele pode não estar de acordo com aquilo que nos vendem como um ideal de corpo perfeito. O consolo que lhe ofereço é dizer que este ideal é uma invenção mercadológica, um modelo insano, uma estratégia para lhe deixar insatisfeito e passar a consumir tudo aquilo que está à venda nesse mercado do "corpo perfeito."

Isso ajuda?

Um pouco, pode ser libertador o início de uma tomada de consciência, mas o caminho é longo e desafiador, tudo ao seu redor vai insistir em lhe mostrar que o seu corpo é imperfeito.

Isso deve impedi-lo de amar e ser feliz?

De forma alguma, ter um corpo comum, inadequado, é uma grande vantagem no mercado da sedução, afinal, basta pensar que menos de 1% da população mundial se adequa a esse modelo extremo de beleza corporal, tendo um corpo ultra definido e ultra musculoso, ou seja, os outros 99% também estão fora dos padrões.

Bem-vindo ao mundo real!

O que acontece no mundo real? Em um mundo onde o consumo é cada vez mais instantâneo e descartável, as relações tornaram-se também instantâneas e descartáveis. No "conto de fadas fitness", a Barbie fica com o Ken, e você fica com quem está à procura de algo mais além do que um corpo "perfeito". Na verdade, o que se passa aqui no mundo real?

A anorexia atinge 1% da população mundial e a bulimia chega a 5%. Segue o depoimento de uma aluna minha que preferiu não se identificar, um drama vivido por milhões de pessoas em todo o mundo, nesse exato momento:

"Quanto mais eu me obcecava, mais o meu corpo secava, e ele foi secando até o ponto em que a vida não cabia mais dentro de mim, até o ponto em que viver não tinha mais sustentação e sentido. Pela internet, por meio das minhas amigas, enfim, em todo lugar, as informações que me chegavam me convenciam que eu só seria feliz, plena e amada quando tivesse um corpo magro e perfeito. E eu passei grande parte da minha vida refém dessa obsessão, adotando estratégias extremas para "chegar lá". E, então, quando finalmente cheguei lá, um dia, percebi que minha vida estava por um fio, de tão magra que eu estava. Aí, eu percebi que a minha felicidade nunca esteve tão longe..."

Infelizmente, esse é o resultado de se propagar modelos cada vez mais insanos de perfeição corporal. Pessoas superficiais e sem empatia irão dizer que é apenas "mi-mi-mi", até o dia em que a sua filha estiver nessa condição, se negando a comer, insistentemente, por mais que familiares, nutricionistas, psiquiatras e psicólogos tentem a convencer do contrário.

Ela, então, irá definhar, lentamente, bem diante dos seus olhos, como já ocorreu a milhões de mães e pais, sem que eles pudessem mudar esse cenário cruel. Espero, sinceramente, que isso nunca aconteça com você. A intenção aqui é apenas colocá-lo na pele de quem vive esse drama. Só assim você poderá entender, de fato, a profundidade dessa questão.

A pressa é inimiga daquilo que é bem feito.

Na realidade, toda promessa de acelerar os resultados é também uma promessa de acelerar o desgaste corporal e pular etapas essenciais do treinamento.

As estratégias do mercado de consumo não ajudam, em absoluto, o aluno. Ao contrário: elas o forçam a ultrapassar o seu limite. E esse é o motor por trás do crescente número de desistências no treinamento. Você já percebeu que a maioria das pessoas começa e para o treinamento a todo o momento?

Isso se deve a alguns fatores: expectativa alta, pressa de resultados (a nossa cabeça já foi formatada na lógica deste mercado), não respeitar a graduação e adotar formas de treinamento radicais, exaustivas e expulsivas. O que ocorre, basicamente, é que a maioria das pessoas começa a todo vapor, com grande ânimo e com altas expectativas, estimuladas por uma venda que promete resultados milagrosos e se espelha no modelo de beleza do mercado do fitness.

Em geral, o processo de desistência do treinamento acontece da seguinte forma: as pessoas se encontram em um nível iniciante, que podemos chamar de nível 1 ou 2, porém, de forma apressada, colocam o seu foco e objetivo no nível 9 ou 10, vivendo uma relação idealizada com a atividade corporal. Isso produz uma intensa insatisfação e ansiedade em relação ao treinamento, ou seja, se o resultado não aparecer com rapidez, a chances de desistir aumentam exponencialmente.

A internet é rápida, o consumo é rápido, o trânsito é rápido, os prazeres são rápidos e fugazes. O mundo tem pressa. Por que, afinal, o meu corpo não pode acompanhar essa realidade?

Afinal, onde se inicia esse mecanismo perverso? Para entender esse processo, basta ler as pesquisas e relatórios divulgados, anualmente, pela associação que reúne as academias em todo o mundo, a IHRSA. Um item específico é bastante esclarecedor: sabe qual é a principal queixa reportadas pelos alunos nestas pesquisas? Falta de resultados rápidos.

Bingo! Aí está a explicação para as modas do treinamento criadas pelo mercado fitness. Ou seja, baseada no resultado das pesquisas, o marketing se desdobra para pensar em estratégias que atendam a essa demanda.

O que a indústria do fitness não entendeu é que ela está correndo atrás do próprio rabo. Como funciona isso? Como o departamento de marketing entende que atender bem ao cliente é dar aquilo ele pede, investe-se em fórmulas radicais de treinamento que aceleram ainda mais os resultados.

Essa é uma forma pouco inteligente de se abordar esta questão. Deixar o treinamento ainda mais radical vai provocar o efeito oposto ao desejado. Afinal, se ele já provoca dor e exaustão, afugentando o aluno, ao se adotar a nova medida, o processo tende a piorar ainda mais. Mas, como o aluno não tem consciência disso, essas informações não aparecem nas estatísticas.

Outra questão, ainda mais importante, é que um bom consultor não deve entregar ao cliente o que ele pede e, sim, o que é melhor para ele. A indústria fitness martela na cabeça das pessoas, há muitas décadas, conceitos que estimulam a busca de resultados rápidos. Agora, ela está provando do seu próprio veneno. As pessoas estão doutrinadas no conceito de treinamento estético e instantâneo. A questão é que, tudo o que ela estimulou e seduziu, por meio do seu marketing, na realidade não existe, não é possível entregar, não para a imensa maioria dos alunos. O que isso produz? Frustração e desistência. No entanto, o que essa indústria faz? Continua investindo na mesma estratégia. Isso é inteligente? Na verdade, ela está cavando a sua própria cova.

O mercado precisa acordar! O modelo do "sem dor, sem ganho" não é recomendado para mais de 90% da população, somando os sedentários, obesos, alunos com sobrepeso, idosos, alunos sem regularidade e alunos sem adaptação a formas de treinamento intensas e radicais.

Para os alunos indicados anteriormente, a combinação de pouca massa muscular e falta de adaptação articular ao exercício resulta em um extremo risco de lesão, diante de atividades de alto impacto. Me diga como você irá aumentar o número de clientes se eles desistem rapidamente ou se machucam? Segundo a IHRSA, 50% dos alunos desistem da academia após três meses. Ou seja, uma fatia gigantesca do mercado de consumo está esperando por soluções mais inteligentes e equilibradas para o sedentarismo e a obesidade. Quem vai ser o primeiro empresário a sair dessa mesmice?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.