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Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Hepatite misteriosa: o que já sabemos? Veja sintomas e possíveis causas

A hepatite fulminante não tem nenhuma relação com a vacina contra a covid-19, conforme especulou-se - iStock
A hepatite fulminante não tem nenhuma relação com a vacina contra a covid-19, conforme especulou-se Imagem: iStock
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Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista de VivaBem

25/05/2022 04h00

Depois de mais de dois anos vivendo a pandemia de covid-19, é natural que fiquemos no mínimo apreensivos diante de uma doença nova, da qual ainda não conhecemos a causa. Ainda mais se essa doença atingir crianças e adolescentes de forma potencialmente grave.

Portanto, quando surgiram casos de hepatite fulminante em crianças saudáveis que precisaram de transplante de fígado poucos dias após o início dos sintomas, o mundo ficou em alerta. A notícia da morte de algumas crianças assustou pais e responsáveis.

O que estaria causando as centenas de casos de "hepatite misteriosa" descritos no mundo? Por que os médicos ainda não sabem o que está provocando a doença? O que a ciência já conhece e o que ainda não sabemos?

O que sabemos

Até 23 de maio, já foram descritos 600 casos de hepatite no mundo, com 14 mortes. No Brasil, há 64 casos suspeitos e dois transplantes de fígado causados pela doença no Rio de Janeiro e em Pernambuco.

Primeiramente, a hepatite não tem nenhuma relação com a vacina contra a covid-19, conforme especulou-se. Boa parte dos casos aconteceu em crianças não vacinadas contra o Sars-CoV-2.

Embora tenha sido identificada este ano no Reino Unido, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) afirma já ter registrado cinco casos da doença no país norte-americano em outubro de 2021.

A doença atinge especialmente crianças com menos de 5 anos, mas há registros em crianças mais velhas e adolescentes. O quadro se assemelha ao de qualquer hepatite viral, com sintomas como mal-estar, fadiga, náuseas e vômitos e nos casos mais graves, dor abdominal, diarreia, pele amarelada (icterícia) e urina escura (colúria). "Por analogia às outras hepatites, entendemos que para cada caso de hepatite grave devam existir um grande número de casos de hepatite leve que sequer é diagnosticado", afirma o dr. Raymundo Paraná, hepatologista e professor titular do Departamento de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Médicos investigaram outros tipos de hepatite viral, como a A, B, C, D e E, nas crianças acometidas pela hepatite de causa desconhecida, mas não foram encontradas evidências de nenhuma dessas infecções nos pacientes.

Outro fato que despertou o interesse dos médicos é que 70% dos pacientes acometidos pela hepatite de causa desconhecida apresentaram testes positivos para adenovírus do tipo 41, que costuma provocar gastroenterite em crianças. Embora haja o registro de crianças imunossuprimidas com hepatite causada por adenovírus, de acordo com o CDC esse vírus não provoca a doença em indivíduos saudáveis.

"Até o momento, a medicina baseada em evidência científica ainda não foi capaz de estabelecer uma relação causal entre a hepatite e esse vírus [adenovírus]", explica o dr. Paraná.

A causa da doença ainda não foi determinada, mas há algumas hipóteses sendo investigadas por médicos e pesquisadores do mundo todo:

  1. O isolamento social teria feito com que as crianças se expusessem menos a infecções, e com isso seu sistema imunológico não teria sido estimulado suficientemente, tornando-se despreparado para enfrentar novas infecções pelo adenovírus. Contra essa hipótese há o fato de que o mesmo fenômeno não tem sido observado com outras viroses.
  2. O adenovírus, que causa infecções intestinais e respiratórias comuns em crianças, pode ter sofrido mutações no seu código genético e se tornado mais virulento. Até o momento, no entanto, nenhuma mutação foi detectada, o que torna essa hipótese pouco provável.
  3. A exposição das crianças à covid-19 teria estimulado seu sistema imunológico, que acabou reagindo com hiperatividade a infecções causadas por outros vírus, incluindo o adenovírus. Nesse caso, o adenovírus não seria o responsável pela hepatite, mas sim a resposta imunológica que, ao combater o vírus, acabaria agredindo o tecido hepático. Contudo, não há evidências de que as crianças com hepatite tenham sido expostas prévia ou concomitantemente ao Sars-CoV-2.
  4. A doença seria provocada por outro vírus desconhecido, ainda não identificado.

Embora os casos requeiram atenção, não há motivo para alarde. De acordo com o dr. Paraná, "boa parte desses casos de hepatite deve ser leve e sequer chega ao diagnóstico".

Segundo o CDC, os pais devem ficar atentos a sinais como:

  • Febre;
  • Fadiga;
  • Perda de apetite;
  • Náusea;
  • Vômitos;
  • Dor abdominal;
  • Urina escura;
  • Fezes esbranquiçadas;
  • Dor nas articulações;
  • Icterícia (pele amarelada).

Ainda de acordo com o órgão, os pais devem manter atualizada a caderneta de vacinação dos filhos, fazê-los lavar as mãos com frequência e cobrir a boca e o nariz ao espirrar ou tossir e ensiná-los a evitar tocar os olhos, nariz e boca.