PUBLICIDADE

Topo

Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A volta do sarampo: considerada doença comum da infância, ela pode matar

MilosBataveljic/iStock
Imagem: MilosBataveljic/iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista de VivaBem

04/05/2022 04h00

O sarampo é uma doença infectocontagiosa provocada por um RNA vírus da família paramyxorividae, transmissível por secreções das vias respiratórias, como gotículas eliminadas pela tosse, espirro ou fala. Tem uma taxa de transmissão superior à da covid-19: estima-se que cada indivíduo com o vírus contamine de 12 a 18 pessoas.

Embora muitos a considerem uma doença comum da infância, o sarampo pode matar, principalmente as crianças com menos de 1 ano de idade. Quem viveu antes da existência das campanhas de vacinação em massa, nas décadas de 1970 e 1980, deve se lembrar de que a doença foi, durante muito tempo, uma das principais causas de mortalidade e morbidade na infância.

Em 2016, o Brasil recebeu o certificado de eliminação do sarampo da Organização Mundial da Saúde (OMS), como resultado do esforço nacional para acabar com a doença.

No entanto, em 2018, o vírus voltou a circular no país, embora a vacina tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, faça parte do Calendário Nacional de Vacinação e seja oferecida gratuitamente pelo SUS. Nesse ano, o Brasil registrou 9.325 casos da doença.

De lá para cá, a situação só piorou: entre 2018 e 2021, houve quase 40 mil casos de sarampo no país, com 40 óbitos. É sempre muito triste que ainda haja crianças morrendo de uma doença evitável por meio de uma vacina cuja taxa de eficácia contra a infecção seja de 97%. O dado, contudo, revela outro aspecto: desde 2015, o Brasil apresenta queda da cobertura vacinal de todas as vacinas.

Os motivos para a diminuição, de acordo com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), são a falta de informação dos profissionais de saúde acerca do calendário vacinal; falta de informação da população; falta de confiança nos governantes, instituições e profissionais de saúde; horário limitado de funcionamento dos postos de saúde; desinformação; comunicação falha; e crescimento do movimento antivacinista.

Pesquisa da própria SBIm em parceria com a Avaaz mostrou que 7 em 10 brasileiros acreditam em no mínimo uma informação imprecisa sobre as vacinas. O dado mais alarmante, no entanto, revela que 13% das pessoas deixaram de vacinar, ao menos uma vez, uma criança sob seus cuidados, o que totaliza cerca de 21 milhões de pessoas com 16 anos ou menos sem cobertura vacinal adequada.

A hesitação vacinal, que não pode ser encarada como movimento antivacinista, em que seus membros são contrários à vacinação, tem papel fundamental na queda da cobertura vacinal do sarampo. Em 2015, 96,1% do público-alvo havia tomada a primeira dose da tríplice viral e 71,5%, a segunda dose (é comum haver queda de adesão em vacinas que exigem mais de uma dose). Já em 2021, a cobertura nacional da primeira dose da vacina foi de 71%; a da segunda, de 50%.

Isso significa que começamos o ano de 2022 com metade do público-alvo sem proteção adequada, em um momento em que há crescimento dos casos de sarampo no mundo todo. Entre janeiro e fevereiro de 2022, houve um aumento de 79% na taxa de ocorrência da doença, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), em comparação com o mesmo período de 2021: já são mais de 17 mil novos casos nos primeiros dois meses deste ano.

No Brasil, apenas no primeiro trimestre de 2022, segundo o Ministério da Saúde, já foram diagnosticados 14 casos da doença: 12 no Amapá e 2 em São Paulo. No entanto, o número deve ser bem maior, visto que há 98 casos suspeitos em investigação em todo o país.

Assim, em 27/4/2022, a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) fizeram um alerta a respeito do risco de vivermos uma epidemia da doença em locais onde a cobertura vacinal está baixa, como no Brasil.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) instituiu, em 1990, a obrigatoriedade da vacinação das crianças nos casos recomendados pelas autoridades sanitárias. A vacina contra o sarampo se enquadra nesse quesito, mas o Brasil é a única nação das Américas a manter transmissão sustentada do vírus do sarampo.

É essencial que aumentos a cobertura vacinal, pois embora a vacina seja altamente eficiente na prevenção da infecção, para que todas as pessoas vulneráveis estejam protegidas é necessária uma cobertura vacinal superior a 90%.

Não podemos permitir que crianças ainda morram de doenças para as quais exista uma vacina segura, eficaz e disponível gratuitamente. Se você ainda não vacinou seus filhos, vá até a UBS mais próxima e regularize a carteira vacinal das crianças.

Lembro, também, que já começou a Campanha Nacional de Vacinação contra Gripe e Sarampo para crianças menores de 5 anos. Até o dia 3/6/22, crianças de 6 meses a 5 anos incompletos devem se vacinar contra o sarampo. Já contra a gripe, a lista do público-alvo é maior, mas as crianças dessa faixa etária também devem receber a vacina contra a influenza.

Não deixe de proteger sua família e toda a comunidade.