PUBLICIDADE

Topo

Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Crianças e adolescentes estão mais expostos a telas na pandemia

iStock
Imagem: iStock
Conteúdo exclusivo para assinantes
Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista do UOL

16/12/2021 04h00

Antes da pandemia de covid-19, era raro encontrar uma mãe ou um pai com condição financeira para comprar um celular para o filho e que não estivesse preocupado com o número de horas que crianças e adolescentes passavam diante das telas. Hoje, isso é praticamente impossível.

Os dispositivos digitais foram a única maneira que crianças tiveram para não perderem as aulas e manterem o mínimo de contato social durante a pandemia.

Os próprios adultos passaram a utilizar mais esses aparelhos, em especial para trabalhar à distância: de acordo com o relatório Digital in 2020, divulgado pelo We Are Social e Hootsuite, o tempo online dos brasileiros no primeiro ano da pandemia foi de 9h17min, muito acima da média global de 6h43min.

Embora experimentem sentimentos de culpa por permitirem que seus filhos passem boa parte do dia trancados no quarto, envolvidos em jogos e conversas em redes sociais, os adultos não parecem saber resolver o problema. É compreensível. Como controlar o uso desses aparelhos em uma sociedade cada vez mais online? Qual o limite de exposição às telas para que não haja danos à saúde?

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) recomenda que crianças com menos de 10 anos não se exponham às telas por mais de duas horas diárias. No entanto, segundo a pesquisa Panorama Mobile Time/Opinion Box - Crianças e smartphones no Brasil, realizada em outubro de 2020, 43% das crianças de 7 a 9 anos ficavam três horas ou mais por dia no smartphone à época. Outro dado alarmante é que 58% dos pesquisados entre 10 e 12 anos passavam mais de três horas diárias em frente a um smartphone.

A Sociedade Americana de Psicologia (APA, em inglês) afirma que cada vez mais especialistas têm estudado os potenciais benefícios e malefícios dos dispositivos eletrônicos para crianças e adolescentes. Crianças pequenas parecem não se beneficiar do uso de telas para o aprendizado. Já crianças mais velhas podem obter informações relevantes dos dispositivos digitais, mas isso cria outro problema: o excesso de uso, que leva ao sedentarismo, a comportamentos compulsivos e à substituição de interações sociais presenciais.

Contudo, ainda faltam estudos estabelecendo relação causal. É importante lembrar que estamos falando de um fenômeno relativamente novo. O primeiro iPhone, aparelho que revolucionou os smartphones, foi lançado apenas em 2007. Além disso, não é fácil isolar os efeitos das telas de outras experiências a que crianças estão sujeitas. Muitos estudos também não diferenciam as atividades nesses aparelhos. Por exemplo, assistir a um filme no computador é uma atividade completamente diferente de passar 2 horas em uma rede social, mas a maioria das pesquisas não estabelece essa diferença.

O que se sabe com certeza é que estamos passando cada vez mais tempo em frente às telas. Isso certamente terá um impacto na vida dos jovens, já que ainda há pouca regulamentação a respeito do conteúdo disponível e os dados recentes acerca do impacto do excesso de uso desses aparelhos na saúde física e mental não são nada animadores.

Uma revisão sistemática mostrou que há evidência considerável quanto à relação entre o excesso de tempo em frente às telas e problemas de saúde como obesidade e sintomas de depressão em crianças e jovens.

Há cada vez mais dados revelando que o excesso de uso de telas à noite está associado a distúrbios do sono. Esses aparelhos interferem na bioquímica do cérebro de forma semelhante às drogas psicoativas, alertam especialistas.

De acordo com a SBP, os transtornos de sono são cada vez mais frequentes e associados aos transtornos mentais precoces em crianças e adolescentes. O brilho das telas contribui para o bloqueio da melatonina e para a prevalência cada vez maior das dificuldades de dormir e manter uma boa qualidade de sono à noite na fase de sono profundo, com aumento de pesadelos e terrores noturnos.

A falta de sono adequado causa sonolência diurna, problemas de memória e dificuldade de concentração que resultam em diminuição do rendimento escolar e estão associadas a sintomas dos transtornos do déficit de atenção e hiperatividade.

O excesso de estímulo também sobrecarrega o cérebro e compromete a memória. O córtex pré-frontal, área do cérebro responsável pelas funções cognitivas e executivas do controle dos impulsos, julgamento, resolução de problemas, atenção, inibição, memória e tomada de decisões não está totalmente desenvolvido até a terceira década de vida. Isso justifica o comportamento impulsivo que marca a adolescência e o início da vida adulta e do qual as redes sociais e jogos eletrônicos, com seus sistemas de recompensa, se beneficiam.

Entre os principais problemas para a saúde física e mental relacionados ao uso excessivo de telas e identificados pela SBP estão transtorno do sono, dependência digital, transtornos de déficit de atenção e hiperatividade, sedentarismo, ansiedade, depressão, transtornos posturais e músculo-esqueléticos, transtornos de imagem corporal e autoestima, problemas visuais, como miopia e síndrome visual do computador.

Assim, é importante criar hábitos mais saudáveis, que incluam o controle do uso desses aparelhos de acordo com a faixa etária e privilegiem interações sociais presenciais e atividades físicas, de preferência ao ar livre.

Com crianças mais velhas e adolescentes, é possível estabelecer acordos, mas com os mais novos é preciso impor limites.

Veja algumas dicas da SBP:

  • Crianças com menos de 2 anos: não devem ser expostas às telas;
  • Crianças entre 2 e 5 anos: devem limitar-se a 1 hora diária de exposição às telas, sempre com a supervisão de adultos;
  • Crianças entre 6 e 10 anos: limitar o tempo ao máximo de 1 ou 2 horas por dia, sempre com supervisão;
  • Adolescentes entre 11 e 18 anos: limitar o tempo de telas e videogames a no máximo 2 ou 3 horas diárias. Não permitir que adolescentes "virem a noite" jogando;
  • Para todas as idades: nunca permitir o uso durante as refeições e sempre desligar as telas 1 ou 2 horas antes de dormir;
  • Oferecer atividades ao ar livre que privilegiem exercícios físicos e contato com a natureza;
  • Criar regras saudáveis para o uso de equipamentos e aplicativos digitais, além de senhas e filtros de acordo com a idade;
  • Incluir na rotina momentos de desconexão e interação familiar que sejam respeitados por todos os membros da família;
  • Não permitir que as crianças e adolescentes fiquem isolados nos quartos com televisão, computador, tablet, celular, smartphones ou com uso de webcam; estimular o uso nos locais comuns da casa;
  • Encontros com estranhos devem ser sempre evitados, sejam online ou off-line. Pais e cuidadores devem saber com quem as crianças e jovens estão jogando ou interagindo;
  • Conteúdos com teor de violência, pornografia, abusos, exploração sexual, nudez devem ser denunciados.

Assim como a SBP, a OMS não recomenda que crianças com menos de 2 anos usem aparelhos eletrônicos e digitais.

Se é verdade que os tempos atuais exigem habilidades para o uso de tecnologias, também é fato que estamos apenas começando a observar os problemas que o excesso desses aparelhos e da própria internet pode trazer para crianças e jovens.

Tirar os jovens das telas não é fácil, mas os dados deixam cada vez menos dúvidas de que é tarefa essencial. Criar regras e condições para isso deve ser função dos adultos.