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Mariana Varella

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Pandemia: a hora do otimismo cauteloso

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Imagem: Getty Images
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Mariana Varella

Mariana Varella é cientista social e jornalista de saúde. Editora-chefe do Portal Drauzio Varella e pós-graduanda da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo).

Colunista do VivaBem

20/10/2021 04h00

Nós jornalistas, divulgadores científicos e profissionais de saúde, entre outros envolvidos na comunicação da pandemia, chegamos a um momento difícil: se alardeamos algum risco relacionado ao coronavírus, somos pessimistas demais; se, por outro lado, falarmos que podemos aproveitar pequenas liberdades, estamos relativizando a gravidade da situação, quase como fazem os negacionistas. De fato, as pessoas têm razão em se sentirem confusas. A situação é delicada. Se podemos e devemos reconhecer avanços no controle da pandemia, ainda não podemos considerar que ela acabou.

Temos os menores números de internações e óbitos do ano, mas a taxa de novos casos ainda preocupa. A vacinação avança consideravelmente, mas muitas pessoas receberam apenas uma dose da vacina. Crianças também não foram vacinadas até o momento, e existem idosos que ainda não tomaram a terceira dose recomendada.

Assim, como proceder? O que é considerado seguro e o que é perigoso?

A OMS (Organização Mundial da Saúde) ressalta, em seus manuais e diretrizes, a importância de uma boa comunicação em situações de emergências sanitárias. Para a entidade, é essencial que as pessoas estejam bem informadas em momentos de surtos ou epidemias, para que possam fazer boas escolhas com autonomia. Isso inclui comunicar incertezas e riscos.

O argumento defendido por muita gente de que as pessoas não têm condições de discernir graus de perigo e, com isso, fazerem sua gestão individual de riscos de acordo com sua realidade é paternalista e pouco embasada em experiências factuais.

Obviamente, em determinados momentos, não há muito espaço para as escolhas individuais. Pandemia, por exemplo, é algo que deve ser enfrentado coletivamente, por meio de ações que envolvam toda a sociedade. No caso da covid-19, doença causada por um vírus respiratório altamente contagioso, foi necessário adotar rigorosas restrições à circulação de pessoas para garantir a saúde pública.

No início do ano passado, quando o vírus se espalhava de forma arrasadora pelo mundo, não tínhamos vacinas disponíveis. Tampouco havíamos preparado nossos sistemas de saúde para atendermos tantos pacientes graves ao mesmo tempo. Centenas de milhares de pessoas morreram desassistidas. Era urgente frear a disseminação do vírus.

Naquele contexto, foi importante comunicar a gravidade da situação, que requereu um esforço coletivo como poucas vezes nos fora exigido. Muitos daqueles que esbravejaram para justificar o desrespeito às regras sanitárias essenciais, distorcendo o conceito de liberdade individual, pagaram com a própria vida.

Hoje a situação é diferente. Estamos em um momento em que é possível uma visão mais otimista da pandemia, embora com cautela. Há formas diferentes de encarar a conjuntura.

Podemos ressaltar que temos mais de 45% da população totalmente vacinada, índice superior ao de muitos países. Pela primeira vez desde o fim do ano passado, registramos menos de 500 mortes e cerca de 10 mil casos novos diários, sete vezes menos do que o observado em junho deste ano.

Todavia, também podemos afirmar que há apenas pouco mais de 45% da população totalmente vacinada, número muito inferior ao considerado necessário para adquirirmos imunidade comunitária. Ainda temos cerca de 500 pessoas morrendo por dia de uma doença evitável. Cerca de 10 mil pessoas contraem o vírus todos os dias, e esse número certamente é subnotificado.

Não há uma forma correta e outra errada de analisarmos a situação. As duas utilizam dados oficiais e informações embasadas.
A verdade é que o momento é animador, mas ainda exige cuidados, sob o risco de vermos todo o nosso avanço ir por água abaixo, como aconteceu em outros países.

Para que isso não ocorra, precisamos comunicar riscos. Dizer às pessoas, por exemplo, que elas devem dar preferência a ambientes abertos para realizar encontros sociais. Que uma pessoa totalmente vacinada, embora ainda possa transmitir o vírus e, por isso, deva usar máscara, corre menos risco de contrai-lo e, consequentemente, de contaminar outras pessoas.

Devemos dizer que é arriscado frequentar locais fechados sem máscara de boa qualidade, como as PFF2. Que é preciso evitar aglomerações e manter os ambientes bem ventilados. Restaurantes, academias de ginástica, transporte público e salões de beleza são lugares em que ainda não é seguro permanecer sem máscara.

Embora as pessoas queiram respostas definitivas, ainda há incertezas que também devem ser comunicadas. Não, não podemos prever como a situação estará no Carnaval. Não sabemos se precisaremos nos vacinar todos os anos, nem quando poderemos abandonar o uso de máscaras em locais fechados.

O momento é de otimismo, mas um otimismo cauteloso, que inclua políticas públicas eficientes e uma boa gestão individual de riscos. Na falta das primeiras, os efeitos das escolhas pessoais são ainda mais determinantes para, por fim, podermos dizer: "Acabou!".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL