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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Tomar anti-inflamatórios comuns e outros hábitos que agridem seus rins

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

21/07/2022 04h00

O tom apaixonado da médica Maristela Carvalho da Costa era o de quem não admitiria quem pensasse diferente: "Os rins são os órgãos mais importantes do corpo humano, os colegas que me perdoem", foi logo me dizendo. E ponto.

Disse também, aí já com um tom beirando à revolta: "Não me conformo ao ver como as pessoas saem tomando anti-inflamatórios para aliviar febre, por qualquer dorzinha ou pelo mal-estar de uma virose banal. O absurdo é que são remédios de livre acesso e com direito até a anúncio na tevê!", continuou, referindo-se a anti-inflamatórios não esteroides, ou seja, àqueles bem comuns mesmo, como a nimesulida e o ibuprofeno.

Apesar da imagem que guardamos de gotinhas pingadas em bocas de crianças, de "fraquinhos"— entre aspas mesmo! — esses remédios não têm nada. Ao menos, no que toca aos rins. "São tremendamente tóxicos, isso sim", reforça.

Além de intensivista, doutora Maristela é uma tremenda nefrologista, isto é, especialista em rins. Coordena essa área no InCor (Instituto do Coração) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e no Hospital Santa Catarina. Se fosse cardiologista, puxaria a sardinha para o coração. Se fosse neurologista, juraria que o cérebro é o grande manda-chuva do corpo e que o resto seria segundo escalão.

Mas, apesar do exagero de cada doutor em relação aos órgãos sob os seus cuidados, vamos dar aqui só um pequeno desconto: os rins podem não estar sozinhos no topo do ranking, mas são realmente vitais, fazendo muito mais por nós do que nós nos lembramos deles.

Ouvi a doutora Maristela contar, em sua apresentação no EndoDEBATE 2022, evento sobre diabetes que aconteceu na semana passada, que uma boa parcela dos brasileiros descobre que tem insuficiência renal quando metade do tecido dos rins já foi para o beleléu.

Dia após dia, com comportamentos que não parecem oferecer grande perigo , vamos castigando esse par de órgãos, um em cada lado da coluna vertebral e sob a última das costelas, lembrando feijões achatados de uns 11, 12 centímetros.

Em relação aos anti-inflamatórios, porém, não motivo para dar desconto à fala. Ao contrário. "Se é um jovem sem problemas de saúde que sofreu um trauma jogando bola e resolveu tomar um desses remédios, a chance de problema é menor", diz a nefrologista. "No entanto, esses medicamentos deveriam ser evitados por qualquer pessoa acima de 40 anos ou por quem, independentemente da idade, tem diabetes ou hipertensão."

Mais do que filtros

Qualquer estrago nos rins repercute à distância. Que eles agem como filtros, aposto que isso é a primeira coisa que passa por sua cabeça. O sangue entra pela artéria renal, a qual se ramifica em vasos cada vez mais finos até que uma arteríola de nadica se enrola feito um novelo, formando o glomérulo."É ali que ocorre a filtragem", descreve a doutora.

São cerca de 1 milhão de glomérulos em cada rim. Os vasinhos que formam esses emaranhados são tão delicados que chegam a ser porosos, de modo que o sangue passa e as impurezas ficam retidas, sendo escoadas com a urina.

"Os rins fazem mais: são responsáveis pelo equilíbrio entre sais e água no corpo", conta a nefrologista. "E ainda produzem a renina, enzima que participa do controle da pressão arterial, sem deixar ela cair de repente, fazendo com que aumente quando necessário."

Também secretam um hormônio chamado eritropoetina, essencial para o amadurecimento dos glóbulos vermelhos. Por isso, problemas renais deixam a pessoa pálida: ela fica anêmica. Por fim, os rins ativam a vitamina D que a gente produz ao tomar sol, de maneira que, se eles padecem, o esqueleto fica em frangalhos junto.

A cilada é que o corpo até vai se adaptando, quando uma insuficiência renal avança. Daí que, por um longo período, a pessoa não sente nada. Enquanto isso... "O excesso de líquido, se os rins já não estão uma maravilha, se acumula nos mais diversos órgãos. Nos pulmões, isso dificulta a respiração. O coração, por sua vez, é mais exigido para bombear o sangue. Aliás, a pressão aumenta também, causando ou piorando quadros de hipertensão", explica Maristela.

Cuidar dos rins é cuidar do coração

E vice-versa. A relação é tão íntima que os médicos falam em síndrome cardiorrenal. Se a pressão sobe e dá canseira no coração por causa do excesso de líquidos e até de renina — o hormônio pode ser secretado além da conta quando os rins sofrem —, de seu lado a hipertensão também lesiona os glomérulos. Ou seja, uma coisa piora a outra.

"A pressão alta machuca esses vasinhos, o que desencadeia uma inflamação. E, com o tempo, essa inflamação provoca o surgimento de pontos de fibrose", diz a médica. Então, é como se, no lugar do glomérulo, ficasse uma minúscula cicatriz.

De glomérulo em glomérulo perdido, a capacidade de filtragem dos rins diminui. E o que sobra pode não trabalhar como antes. "Imagine que essas unidades filtrantes têm uma trama bem fechada, como um coador de papel. Mas a pressão as deixa esgarçadas, com poros grandes, que já não retêm tudo o que seria preciso." Seria como passar o café na peneira.

O diabetes, idem — ele danifica os vasos, gera um processo inflamatório e ainda sobrecarrega os rins que tentam tirar o excesso de açúcar da circulação.

O maior problema é que, assim como os rins sofrem calados, estamos falando de dois males silenciosos, que muita gente ignora quando tem. Controlar a glicemia e a pressão seriam medidas fundamentais para evitar a doença renal crônica.

E os anti-inflamatórios?

Esses remédios impedem a produção de moléculas — as prostaglandinas — que até são inflamatórias, mas que fazem parte de um mecanismo de proteção renal. Quando não está chegando muito sangue aos glomérulos — por causa de um problema no coração, vamos supor —, as prostaglandinas são acionadas como uma medida emergencial, dilatando esses vasos para aumentar o aporte sanguíneo.

Sem essa saída, os glomérulos trabalham no sufoco, o que é desgastante, especialmente se os rins já enfrentam as dificuldades impostas pela idade, pela hipertensão e pelo diabetes,

"Mesmo sem nenhum desses problemas, ninguém deveria se automedicar tomando anti-inflamatório por vários dias ou semana", opina a doutora Maristela. "O tempo prolongado de uso é outro fator considerável."

Comportamentos arriscados

Suplementos proteicos — atenção, proteicos pra valer e não, anabolizantes disfarçados de suplementação — não prejudicam quem não tem outros problemas de saúde. "Mas, de novo, quem é portador de diabetes ou é hipertenso deve procurar orientação médica antes."

Por falar em exercício físico, ele só faz bem na medida certa. Segundo a nefrologista, estudos mostram que treinos intensos de modalidades de altíssimo impacto, como o crossfit, são capazes de provocar alterações em marcadores da saúde renal, mesmo entre praticantes jovens e saudáveis. Portanto, pelo bem dos rins, a ordem é nunca exagerar. Ou eles é que pagam o pato dos músculos extenuados.

Vale repetir o velho conselho de diminuir ao máximo as pitadas de sal na preparação dos alimentos, tirando o saleiro da mesa. "E nada de confiar em sal light", alerta a médica.

Finalmente, nossos rins gostam de líquido, precisam dele para funcionar — mas não de qualquer líquido. Para eles, hidratar-se com refrigerantes carregados de açúcar e de sódio — que as versões diet têm aos montes — ou com qualquer outra bebida adoçada é como dar um passo à frente, fornecendo-lhes água, e dois atrás.

Valorize o exame de urina

Você deve ficar ainda mais de olho se reparar que a quantidade de urina diminuiu, mesmo continuando a beber líquido normalmente. Inchaço persistente nas pernas e nos pés são mais uma pista, bem como sinais de sangue no xixi ou espuma — "a espuma entrega que há muita proteína ali, o que não era para acontecer", justifica a nefrologista.

Mesmo sem nada disso, o exame de urina anual é fundamental para qualquer um. "Muitos só pensam nele se suspeitam de uma infecção urinária. Mas, se a gente lembrar que a urina é o resultado da filtração do sangue, a coisa muda de figura", diz.

O excesso de proteína, por exemplo — mais especificamente de albumina — pode indicar a inflamação dos glomérulos, que estão sendo atravessados por essas moléculas grandalhonas. Sinal de que já não filtram bem.

"Também é importante dosar a creatinina no sangue ou na própria urina", avisa a médica. Essa molécula, resultado da degradação dos músculos, deveria ser filtrada pelos rins. Se está dando sopa na circulação, isso também sugere que eles não estão trabalhando direito. Os médicos usam fórmulas matemáticas que, relacionando o valor da albumina com o da creatinina, apontam quanto tecido renal já foi prejudicado.

O ultrassom complementa esses exames, mostrando eventuais alterações de tamanho ou de formato nos rins. "Se é flagrada uma insuficiência, mas a pessoa corrige o que for preciso — reduzindo a pressão, por exemplo — os estragos não avançam."

E é bom mesmo. Não queremos estar vivos com 90, 100 anos, mas doentes — do coração, dos pulmões, do fígado... E tudo por causa de rins que não foram poupados desde cedo, somando perdas pelo caminho.