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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Gordura no fígado: por que você deve levar toda esteatose hepática a sério

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

28/06/2022 04h00

Ao ouvir que um em cada três brasileiros tem o problema, percebi de cara o desafio: como tocar no assunto se, para começo de conversa, cada doutor fala dele de um jeito?

Doença hepática gordurosa não alcoólica, dizem uns. Mas seria melhor chamar de doença hepática gordurosa metabólica, rebatem outros, alegando que, embora esse mal possa surgir em quem não coloca uma única gota de bebida na boca, o termo ''não alcoólico" tiraria do páreo gente com o hábito de beber e que pode tê-lo também.

Esteato-hepatite, preferem ainda alguns médicos, enquanto parte de seus colegas acha mais fácil e mais sonora a sigla NASH (do inglês, non-alcoholic steatohepatitis). Eu vou optar por esteatose hepática — que, ao pé da letra, seria um estágio antes de surgir a inflamação, o "ite" da hepatite. Ou, em bom português, vou escrever simplesmente gordura no fígado.

Complicado mesmo é minimizar o problemaço de um fígado com mais de 5% de gordura — limite que, se ultrapassado, acenderia o alerta. Queremos acreditar que aquela imagem do exame de rotina apontaria apenas uma "esteatosezinha", como se, pelo azar de ser comum, a coisa fosse bobagem. E não é.

Nunca diminua uma ameaça que, só nos Estados Unidos, já é a segunda maior causa de transplante de fígado, perdendo apenas para a hepatite C. E que, lá e cá, promete ocupar o primeiro lugar nesse ranking se nada for feito — por nós, bem entendido.

Mas nem é preciso chegar a esse ponto tão drástico para a saúde ir degringolando. Para entender o porquê, você precisaria dar ao fígado o seu devido valor.

Ora, todos têm na ponta da língua as bravuras do coração que bate sem parar e a complexidade do cérebro que governa cada piscar de olhos e brinda as mentes com mais ou menos inteligência. Sabem que, sem pulmões, termina o jogo da vida. E o fígado?

Tão vital ou quanto, pesando de 1,5% a 2% do que apontam os ponteiros quando você sobe na balança, ele faz bem mais do que processar a cerveja da happy-hour.

Os vários papéis

"O fígado possui inúmeras funções", ensina a hepatologista Bianca Della Guardia, do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. "Ele sintetiza os famosos fatores de coagulação do sangue", começa a enumerar. "E tem enorme implicação na nossa imunidade, recebendo a circulação que vem do intestino, carregada de antígenos, que é tudo aquilo que precisa ser apresentado para as nossas defesas, fazendo assim uma espécie de primeira depuração."

A médica lembra que o órgão participa do metabolismo de medicamentos — e, claro, do álcool também. Faz mais, muito mais. Produz proteínas, como a albumina, a mais abundante em nosso organismo.

Secreta a bile, suco digestivo que quebra a gordura dos alimentos. Sintetiza as partículas de LDL e HDL que transportam o colesterol. Armazena vitaminas e minerais, como o ferro e o cobre, para suprir eventuais demandas.

Aliás, é o principal reservatório de glicose, nossa grande fonte de energia, a qual também vai sendo liberada na medida da necessidade. Destrói, de quebra, as células vermelhas do sangue que já se encontram envelhecidas. Ufa!

"Fácil, então, a gente deduzir que, se o fígado deixa de funcionar direito, surge toda sorte de problema", diz a médica. E é o que a gordura acumulada em seu tecido acaba desencadeando, culminando no desastre total de uma cirrose ou de um câncer hepático em alguns casos. "Isso ocorre em 25% das pessoas que têm esteatose", informa a doutora Bianca. Só que toda essa confusão evolui em silêncio

O que leva à esteatose

Excesso de peso, sedentarismo e refeições repletas de bebidas e alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras e carboidratos simples — esse combo eleva a quantidade de glicose no sangue vertiginosamente.

O pâncreas faz o que pode para tirar tanto açúcar da circulação, produzindo mais e mais insulina, hormônio que seria capaz de empurrar o nutriente para dentro das células. Mas o exagero constante faz com que elas fiquem resistentes. Daí, a sobrecarga de glicose vai parar no fígado.

"Suas células, os hepatócitos, transformam esse excedente em triglicérides, como se fossem bolinhas de gordura que ficam por ali", explica a doutora Bianca.

Com o tempo, porém, as células gorduchas, cheias do tais triglicérides, perdem eficiência. Isso gera um estresse danado no atarefadíssimo fígado e o organismo reage na forma de uma inflamação. É a esteato-hepatite.

O problema da fibrose

O fígado suporta bem os socos e os pontapés da inflamação. Pode tolerá-la por décadas: os hepatócitos morrem por causa dela e imediatamente aquele pedaço é regenerado. Mas, claro, chega um momento em que, de tanto isso se repetir, já não se troca o hepatócito perdido por outro novo em folha e perfeito. "E, assim, vai surgindo um tecido fibroso, como se fosse uma cicatriz de pele", descreve a hepatologista.

Quando um fígado convive há anos com o acúmulo de gordura, o risco de fibroses é maior, lógico — lembrando que hoje, no rastro da obesidade infantil, já encontramos crianças com início de esteatose.

"A própria idade, se é mais avançada, é outro gatilho", conta a médica. Faz sentido, aí nada mais se regenera como na juventude. "E, por fim, existem fatores genéticos. Descendentes de povos hispânicos evoluem para fibrose com maior facilidade", exemplifica.

Da gordura à cirrose ou ao câncer

Com o tempo, as fibroses espalhadas por todo o fígado podem dar origem a uma cirrose, uma cicatriz exagerada, por assim dizer. Ela seria a fase final — aliás, não só da esteatose, mas de várias doenças hepáticas.

O órgão, então, vai deixando de trabalhar. Por exemplo, não faz seu serviço de limpeza a contento e, entre outras consequências, sobram moléculas de amônia na circulação que, ao alcançarem o cérebro, provocam confusão mental.

"A cirrose, para completar, deixa o fígado todo distorcido", nota o hepatologista Márcio Dias de Almeida, também do Einstein. "Com a deformação, fica difícil para a circulação sanguínea passar. Daí que a pressão aumenta em sua principal veia, a porta. O sangue que , nesse sufoco, não consegue entrar é represado para outros cantos, como o baço. Podem surgir até mesmo varizes pelo abdômen e, com elas, hemorragias."

O câncer de fígado também nasce a partir da fibrose: "Nas tentativas incessantes e caóticas de regeneração, às vezes surge uma célula defeituosa, maligna, que escapa do controle de qualidade do organismo", diz o médico.

E pense: lá atrás, tudo teve início com a gordura se acumulando. "Por isso, se alguém diz que um paciente está com uma esteatose pequena ou leve e deixa por isso mesmo, está olhando apenas para o retrato do momento, sem enxergar o filme inteiro", afirma Márcio de Almeida. Filme que pode terminar mal, se nada é feito para mudar o seu enredo.

O que fazer

Os hepatologistas contam, claro, com exames de imagem como o ultrassom, acusando a presença da gordura. E podem lançar mão da elastografia, que usa ondas sonoras para medir a elasticidade do fígado — quanto mais rígido, mais fibroses. Só que esse é um exame que exige um investimento maior.

Os médicos também pedem dosagens sanguíneas de certas enzimas, as transaminases. Quando elas vão às alturas, indicam que o fígado não está bem. "Isso porque são liberadas quando as células hepáticas estouram", explica o doutor Márcio de Almeida.

Bianca Della Guardia complementa: "Hoje, porém, a gente sabe que há pacientes com a hepatite provocada por gordura e que têm essas enzimas normais." Ou seja, confiar nelas não é tudo.

Tão importante quanto fazer exames é reparar no perfil de cada indivíduo para avaliar a ameaça de o fígado com gordura inflamar pra valer. Há, aliás, quem preconize que existiriam subtipos de esteatose. Alguns quadros resultariam do diabetes tipo 2, quando há uma altíssima resistência à insulina — e, então, deve-se focar no controle da glicemia para aliviar a barra para o fígado.

Outro grupo é o das pessoas com sobrepeso e obesidade. Embora possam ser diabéticas também, para elas o tratamento passa por emagrecer 5% ou 10% do peso inicial.

E, finalmente, existem os magros, que acumulam gordura no fígado por qualquer bobagem e inflamam com facilidade em função de fatores genéticos. "Estes, claro, são os mais difíceis de tratar", comenta Márcio de Almeida. Os remédios para a esteatose hepática, que talvez ajudem em casos assim, ainda estão em estudo.

Para todos, porém, além da dieta equilibrada e baseada em comida caseira, a atividade física é sempre fundamental. E isso não deverá mudar.

O exercício, afinal, faz mais do que retirar boa parte do excesso de glicose no sangue. Pesquisas provam que ele é capaz de alterar o metabolismo do fígado, diminuindo sua produção de triglicérides.

Às vezes, o paciente não precisa nem sequer perder peso. Porque, só de praticar atividade física, já notamos uma boa melhora", revela a doutora Bianca. De uns quinze anos para cá, os médicos reconhecem até mesmo a possibilidade de reversão das fibroses, o que é fantástico.

Mas a gente precisa mudar hábitos e literalmente se mexer para isso acontecer, sem adiar essa atitude. Nesse ponto, todos os especialistas falam a mesma língua.