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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Ômicron: o que pode mudar com a chegada de suas subvariantes BA.4 e BA.5

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

01/06/2022 10h05

Quando ômicron nasceu em novembro do ano passado na África do Sul, ela já era muito diferente de tudo o que os cientistas tinham visto até então, em quase dois anos de pandemia. E não apenas pelos motivos que, provavelmente, você já ouviu.

Na época se alardeou que essa variante do coronavírus apresentava nada menos do que 32 mutações na tal da proteína S que ele usa para infectar as nossas células, enquanto suas antecessoras não tinham mais do que cinco ou seis alterações nesse pedaço.

De saída, ela mostrou que sua capacidade de transmissão era incomparável e isso, também, todo mundo não tardou a comentar. Assim como todos ficaram sabendo depressa que ômicron era capaz de escapar não só das vacinas, mas da imunidade natural adquirida quando alguém já tinha se infectado por variantes anteriores.

Enfim, tudo isso foi muito falado. Mas um detalhe no nascimento de ômicron não fez tanto barulho na ocasião e hoje sabemos que valeria um estardalhaço: de cara, quando foi descoberta, ômicron já tinha três subvariantes, que eram BA.1, BA.2 e BA.3. Três de uma vez!

"Por tudo isso, parecia quase um outro vírus, uma espécie de 'Sars-CoV-3'", diz o virologista José Eduardo Levi, que lidera a área de desenvolvimento e pesquisa da Dasa. Claro que ele, aqui, usa uma figura de expressão para sublinhar o espanto dos cientistas. Ômicron continua sendo um tipinho de Sars-CoV-2, só que com um comportamento bastante peculiar. E com potencial para causar reviravoltas.

Por isso é tão importante entender o que acontece com suas subvariantes e imaginar seu possível impacto entre nós. Afinal, BA.4 e BA.5 também podem estar por trás da explosão de diagnósticos positivos que vemos pelo Brasil. Ainda ninguém tem certeza. Mas é uma boa suspeita.

As subvariantes de ômicron

Poucas semanas após ter sido flagrada em Pretória, a capital sul-africana, BA.1 ganhou o mundo. "E, então, as outras duas subvariantes ficaram praticamente esquecidas", relembra Levi.

Mas, quando a onda da BA.1 foi baixando no início deste ano, a subvariante BA.2, que tinha ficado na surdina, tirou as mangas de fora e fincou sua bandeira por todos os cantos. O primeiro deles foi a Dinamarca e, dali, para dominar outros países do norte europeu e a Alemanha foi apenas um pulinho.

"Nesses lugares, a surpresa foi a seguinte: mal uma onda de covid-19 caiu e outra começou a subir, em um intervalo espantosamente curto", conta Levi. Qual a lição tirada desse desenho de montanha-russa? "Além de, com isso, termos a certeza de que ômicron escapava das vacinas, notamos que quem teve BA.1 não estava protegido contra BA.2. Caso contrário, não veríamos uma subida na sequência de outra", explica o virologista.

Ora, o esperado era quase uma imunidade coletiva por onde a primeira subvariante de ômicron fez seu arrastão. E que nada! Agora, tudo indica que, mesmo depois BA.1 e BA.2, nosso sistema imunológico não está pronto para barrar BA.4 e BA.5.

E de onde surgiram essas duas aí? "De BA.2", responde Levi, engrossando a sopa de letras e números. Note que, antes de BA.4 e BA.5, em geral só assistíamos a uma onda importante de covid-19 quando aparecia uma variante diferente do Sars-CoV-2, uma outra letra grega nos noticiários sobre a pandemia. Não deixa de ser uma grande novidade ver derivadas de uma mesmíssima variante do vírus —no caso, ômicron— ameaçando criar as tais ondas de covid-19. E não só isso...

Quanto mais casos, maior o risco de novas variantes?

A gente sempre repassou a história de que, se o vírus é transmitido para um grande número de pessoas, ele ganha uma chance maior de criar mutações e, dessa forma, surgiriam novíssimas variantes para nos atormentar.

Só que, embora esse seja um raciocínio lógico, no final não foi o que vimos nesta pandemia. Ao menos, até a chegada de ômicron.

"Até ômicron, nenhuma onda de casos de covid-19 foi provocada por uma variante que fosse descendente do vírus responsável pela onda anterior", explica Levi. Ou seja, a variante alfa não sofreu mutações e gerou beta. Nem beta gerou gama, que despontou aqui, em Manaus. Delta, a quarta variante de preocupação do Sars-CoV-2, tampouco descende de uma dessas três, muito menos ômicron vem delas. Ninguém sabe ao certo como elas apareceram, mas não parece ter sido porque uma delas foi transmitida para muita gente.

Já com ômicron? Bem, com ela, agora sim, esse papo faz todo o sentido. "Isso porque temos certeza que BA.4 e BA.5 vieram de BA.2", retoma Levi. "Assim como a BA.2.12, que surgiu nos Estados Unidos e que está se espalhando com força por lá."

Qual ômicron está entre nós?

A OMS (Organizacão Mundial da Saúde) já pediu para a gente observar de perto cada uma das subvariantes de ômicron, sem dar sorte ao azar. Há cerca de uma semana, a BA.2.12 foi identificada em duas pessoas em Minas Gerais. Ambas tinham voltado do Rio de Janeiro.

No Rio, também, Levi e seus colegas da Dasa identificaram outros quatro casos de covid-19 provocados por essa subvariante."Ela deve ter aterrissado no país com alguém vindo dos Estados Unidos", imagina.

Enquanto isso, as curvas de transmissão do coronavírus parecem se elevar por todo o Brasil. Coincidência ou não — aposto que não —, até duas semanas atrás BA.2 respondia por nove em cada dez casos de covid-19 em São Paulo e no Rio de Janeiro.

De lá para cá, porém, aumenta cada vez mais a proporção de testes de PCR com uma característica que poderia ser da BA.1. Será, então, que ela estaria voltando? Nessa subvariante, ômicron simplesmente jogou foram dois trios de letras de seu código genético. E esse espaço em branco virou uma marca típica visualizada no teste, que daria a impressão de um PCR anômalo, como dizem os cientistas. A subvariante BA.2 não tem essa deleção.

Mas, cá entre nós, José Eduardo Levi, não acredita no retorno de BA.1. "Os testes que acusam essa característica podem estar nos mostrando o avanço da BA.4 ou da BA.5 no Brasil", acredita. Se for isso mesmo, algo que ainda precisa ser confirmado, elas já fazem a festa entre nós.

E o que esperar de BA.4 ou BA.5?

Como a imunidade conquistada com as duas primeiras subvariantes de ômicron não deverá ter muita serventia, os diagnósticos de covid-19 tendem a continuar em alta entre os brasileiros com a eventual chegada da dupla.

Portugal, por exemplo — que, tirando a África do Sul, é o país onde BA.4 e BA.5 mais estão bombando —, está observando a onda de covid-19 subir com determinação, ficando hoje em 70% do que foi o seu pico de casos provocados por ômicron em janeiro deste ano.

"No Brasil, porém, a curva pode subir ainda mais, porque liberamos o uso da máscara em lugares fechados", lembra Levi. Ou seja, facilitamos a transmissão dessas duas subvariantes.

São mesmo mais perigosas?

Por partes. Quem diz que BA.4 ou BA.5 provocam um pouco mais de inflamação está chutando. Até agora, só existem estudos em tubos de ensaio e, no nosso organismo, tudo pode ser diferente.

"Aliás, nunca dá para dizer que qualquer variante do Sars-CoV-2 causa mais sintomas ou doença grave do que outra. Isso porque elas não circulam ao mesmo tempo", ensina Levi.

Nesse raciocínio, ômicron pode causar menos problemas não por pegar leve, mas por ter chegado em um momento em que havia mais pessoas vacinadas ou que tiveram covid antes, por exemplo.

A volta das máscaras

"Na situação atual, seria no mínimo responsável se a gente, no Brasil, voltasse a usar máscaras em lugares fechados, além de evitar aglomerações. Aliás, alguns locais deveriam diminuir sua capacidade de lotação justamente para os frequentadores manterem certo distanciamento entre si", opina Levi.

Ninguém está falando em lockdown, mas em alguns meses a mais de prudência. No ano que vem, provavelmente já teremos vacinas pan-coronavírus, isto é, capazes de oferecer proteção contra todos os tipinhos malditos do Sars-CoV-2.

O liberou-geral parte da premissa de que poucos indivíduos terão doença grave em função das vacinas disponíveis até agora. Isso vem sendo verdade. "Mas essas subvariantes derivadas de BA.2 são muito diferentes e ainda não sabemos se escapam da imunização", diz Levi, de olho no cenário de Portugal que logo, logo nos contará o quanto BA.4 e BA.5 podem causar de encrenca.

Até lá, é cedo demais para dizer que não vai acontecer nada e simplesmente pagar para ver.