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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Microbiota intestinal em equilíbrio pode ajudar no tratamento do câncer

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

12/05/2022 04h00

Até que ponto bactérias que vivem em nosso intestino dão uma força ou, ao contrário, atrapalham o tratamento para vencer um câncer? E, depois, até que ponto esses seres microscópicos, que enxergamos em verde e azul na imagem da parede intestinal que ilustra a coluna, ajudariam a evitar a volta do tumor?

Há duas semanas, um estudo publicado na revista científica Jama Oncology chamou a minha atenção. Realizado por pesquisadores do Brigham and Women's Hospital, em Boston, nos Estados Unidos, ele aponta uma conexão entre a microbiota intestinal e a resposta do organismo à imunoterapia, à quimioterapia e até mesmo às cirurgias para extrair tumores malignos.

O trabalho conclui que uma microbiota saudável — leia, com o número de seus diversos integrantes em equilíbrio — favoreceria o sucesso das mais diversas estratégias terapêuticas. Em compensação, os cientistas com frequência encontraram uma disbiose, isto é, um desequilíbrio nas populações de microorganismos, justamente naqueles pacientes com piores desfechos na guerra contra o câncer.

Por coincidência, na mesma semana um passarinho já tinha me soprado que esse assunto estaria no centro de alguns bons debates durante o encontro deste ano da ASCO (sigla em inglês para Associação Americana de Oncologia Clínica). Isso porque lhe pedi um palpite sobre os temas em que eu deveria ficar de olho quando o evento começar logo no início do próximo mês.

Dou até o nome do "passarinho": minha conversa foi com o médico Gustavo dos Santos Fernandes, que acaba de assumir a área de oncologia da Dasa, rede de saúde integrada responsável por alguns centros de tratamento do câncer no país, como o do Hospital Santa Paula, na capital paulista.

Mais do que indicar as discussões sobre microbiota, ele sugeriu que eu conversasse com seu colega Celso Arrais, também da Dasa, médico do Hospital 9 de Julho e professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

Cá entre nós, cheguei a estranhar. Afinal, o doutor Gustavo Fernandes é um tremendo especialista em tumores gastrointestinais e, na minha cabeça, por razões um tanto simples, a microbiota mais a ver com eles.

Já o professor Arrais é da área de hematologia, ou seja, seu foco é no sangue, sendo um dos principais nomes brasileiros quando alguém pensa em transplante de medula óssea. Mas então descobri que as tais bactérias têm sua influência reconhecida na terapia contra vários tipos de câncer. As leucemias, entre eles. Daí que resolvi não esperar o evento da ASCO, Quis logo bater um papo para adiantar o assunto.

A ameaça do excesso de antibióticos

"Especialmente na área da hematologia e, ainda, no câncer de mama, há evidências de que o tratamento é mais bem-sucedido se você tem uma microbiota saudável", garante o professor Arrais, desfazendo o meu equívoco. "Essas bactérias se comunicam o tempo inteiro com o sistema imunológico. Talvez ele, aí, funcione melhor. E a gente sabe da importância das células de defesa para destruir as células malignas."

Segundo o médico, há teorias de que, pelo mesmo motivo, a disbiose abriria brechas para o surgimento de um tumor ao levar o sistema de defesa a marcar bobeira, transformando-se assim em uma causa indireta do adoecimento. Isso, porém, ainda é bastante controverso. Bem mais clara é a relação entre a microbiota saudável e as chances de o tratamento oncológico dar certo quando a doença já existe.

Essa clareza, por sua vez, leva a uma bela preocupação: "Em pacientes com câncer, com frequência há um uso bastante exagerado de antibióticos", observa Celso Arrais. "Esse é o maior alerta que devemos tirar dos estudos sobre microbiota."

O hematologista relembra um período nem tão distante em que a Medicina olhava para o paciente oncológico raciocinando que, por ele estar imunossuprimido, com as defesas em baixa até em função do tratamento, era necessário ser muito agressivo no uso desses medicamentos para espantar a ameaça de infecções. "Hoje, isso precisa ser revisto", opina.

Ao lado de colegas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, ele próprio participou da elaboração de diretrizes que propõem aos médicos que cuidam de pacientes com algum câncer no sangue, incluindo os transplantados de medula, que peguem mais leve nos antibióticos.

"Às vezes, a pessoa chega com uma coriza e já sai com a prescrição de um deles porque o médico fica ansioso e prefere receitá-lo de uma vez, sem checar se não seria um rinovírus por trás do nariz escorrendo", nota o professor. Lembrando: antibióticos não causam nem sequer um arranhão a vírus. São remédios feitos para arrasar bactérias apenas. Aliás, um lado disso é que é o problema.

"Estou longe de dizer para não receitá-los quando são necessários. Mesmo assim, só porque a pessoa tem um câncer não justifica dar de cara um antibiótico fortíssimo, como a vancomicina que é de uso hospitalar", acredita o professor.

Quando médico e paciente jogam uma carta na manga antes da hora — talvez esse indivíduo precisará da vancomicina adiante e daí ela já não agirá tão bem quanto na primeira vez —, há a explosão da população de bactérias mais resistentes no intestino. Pronto, surge o tal do desequilíbrio.

"Sem contar a interferência nas defesas, o aumento exagerado de algumas dessas bactérias, como a Clostridium, causa diarreias que debilitam ainda mais o organismo", diz o hematologista. Também há trabalhos demonstrando que certos integrantes da microbiota, quando crescem explosivamente, degradam parte dos quimioterápicos, diminuindo seu efeito.

Por fim, a microbiota desbalanceada provoca uma quebra de barreira. Pena. Normalmente, aquelas bactérias que nós, leigos, rotulamos como "do bem" impedem que micróbios nocivos caiam na circulação. Isso porque elas literalmente não dão espaço e, daí, eles não conseguem atravessar a parede do intestino e ganhar o nosso corpo — o que costuma ser desastroso quando alguém está no meio de um tratamento oncológico.

Transplante fecal levanta questão na linha ovo-ou-galinha

Celso Arrais diz que alguns pesquisadores já testaram o transplante fecal em pacientes que, por exemplo, tiveram a microbiota destruída pela quimioterapia que os preparou para um transplante de medula.

A ideia é de que as fezes de outra pessoa — que tenha uma microbiota saudável e equilibrada, claro —, injetada com cuidado pelo ânus até a região correta do intestino, provoquem o seu repovoamento.

"Só que, na oncologia, essa estratégia parece não funcionar tão bem", lamenta o professor Arrais. Pergunto se seria por questões de segurança. "Nada disso. O transplante fecal em centros que sabem fazê-lo — e, no Brasil, ainda são poucos — é seguro para quem tem câncer. Mas funciona apenas como um paliativo, porque essa pessoa logo fica com disbiose outra vez", ele conta.

Uma das causas — voltamos ao ponto — é o uso de antibióticos além da conta. "Não adianta o médico prescrever o transplante fecal e o excesso desses remédios acabar com as bactérias transplantadas", explica. Mas fica a pulga atrás da orelha se seria só isso mesmo.

"Sabemos que a disbiose costuma aparecer um pouco antes de um tumor voltar", exemplifica o médico. "Então, será que podemos afirmar que o desequilíbrio da microbiota seria a causa da recaída ou será que seria a consequência de um organismo debilitado por diversos motivos, sendo uma espécie de ponta do iceberg revelando a nós, médicos, que existe alguma coisa oculta naquele organismo deixando a pessoa mais frágil e, portanto, com maior risco de o câncer voltar? Queremos respostas."

Na segunda opção, a disbiose seria o que a Medicina chama de marcador, um sinal capaz de dedurar o perigo.

O que mais pode ser feito?

Se nem o transplante fecal resolve de vez, outras medidas isoladamente tampouco. No entanto, sempre ajudam. Cuidar da alimentação é uma delas — com as fibras de grãos integrais, legumes, frutas, verduras, enfim, com tudo o que ajuda a alimentar as bactérias intestinais para mantê-las firmes e fortes.

"O conceito de uma dieta cheia de restrições para quem tem câncer está caindo em desuso", informa Celso Arrais. "Lembro que, quando fazia transplantes de medula na França, a comida dos pacientes era esterilizada em um forno. Claro, comida contaminada por micróbios nocivos não faz bem a ninguém. Mas as bactérias que normalmente estão nos alimentos contribuem para a microbiota. Portanto, a orientação atual é prepará-los com os cuidados normais de higiene, nada além disso", diz ele.

Anote: microbiota saudável gosta de exercício, noites bem dormidas e de habitar o intestino de pessoas que não saem ansiosas tomando remédio sem prescrição ou pedindo receita de antibiótico ao primeiro espirro. Isso vale para os anos após o tratamento do câncer também. As bactérias do intestino são, ao que tudo indica, nossas aliadas para essa doença nunca mais voltar ou ficar sob controle. E sempre é bom manter aliados por perto.