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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Cérebro: será que somos menos criativos quando nos comunicamos por telas?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

05/05/2022 04h00

Clico no link, do mesmo jeito como já fiz tantas outras vezes nesta semana e como venho fazendo principalmente da pandemia para cá. Aguardo uns segundos e entro na sala — que não é sala, é tela. Estava ali para fazer a entrevista para esta coluna.

Parece que não terá volta: mesmo que as pessoas possam se juntar em torno de uma mesa, seja de trabalho ou de bar, daqui em diante muitas reuniões continuarão sendo virtuais.

Se existem vantagens óbvias nisso — como evitar o desperdício de tempo e os gastos com deslocamentos —, há também perdas. E não me refiro à falta de abraços e apertos de mão.

Segundo um estudo recém-publicado na revista Nature, conduzido por pesquisadores da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, somos bem menos inventivos quando conversamos por meio de telas. Não geramos tantas ideias surpreendentes ou novas soluções quanto seríamos capazes em encontros presenciais. As videoconferências, de alguma maneira, inibiriam a nossa criatividade.

Queria entender se algo na intimidade dos neurônios daria o porquê dessa conclusão. Por isso, procurei o neurologista Diogo Haddad Santos, que é coordenador do Núcleo de Memória do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, na capital paulista, além de professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Ele já estava na sala — aquela que não é sala, mas tela.

Ao seu lado — na realidade, talvez a quilômetros de distância do médico —, vejo a assessora de imprensa do hospital, que logo desliga a câmera. Mas algo me incomoda naquele quadrado vazio ocupando metade do espaço do nosso encontro. Peço, então, para que ela deixe a sua imagem aparecendo.

"Esse desconforto tem tudo a ver com a forma como o seu cérebro processa a linguagem, que é uma de suas principais funções", observa o doutor Diogo Haddad, ao ouvir o meu pedido.

E então me explica: "O cérebro faz isso de uma maneira, ativando alguns circuitos neuronais, se estamos lado a lado e de um outro jeito, se estamos batendo um papo por vídeo. E de outro modo, ainda, se nem sequer enxergamos o rosto do interlocutor. São justamente essas diferenças que estão por trás dos resultados desse estudo sobre o qual vamos conversar." Uma conversa, então, fadada a ser menos criativa. Será?

Quando o olhar se limita à tela

Em uma das etapas do estudo realizado pelos americanos de Columbia, foram recrutados 602 participantes que, em um sorteio, formaram duplas de trabalho com a missão de pensarem em novos usos para um determinado produto, por exemplo.

Metade das duplas discutiu soluções para esse desafio frente à frente em uma mesa instalada dentro de um laboratório. Os outros pares fizeram a mesma coisa, só que seus integrantes acabaram separados em dois ambientes e, daí, a conversa foi toda pelo computador.

Os cientistas até cuidaram de certos detalhes. A tela desse equipamento, por exemplo, oferecia uma excelente nitidez para que a qualidade da imagem não servisse de desculpa para qualquer prejuízo no desempenho. O sinal de internet era turbinado para nada congelar. Até a decoração ao redor da mesa de trabalho era a mesmíssima dos encontros presenciais. Ainda assim...

Ainda assim, as duplas de trabalho que fizeram videoconferência apresentaram um número menor de sugestões no final do tempo estipulado para a reunião.

Os pesquisadores também usaram questionários consagrados na área de marketing para avaliar se uma ideia seria mais ou se seria menos inovadora. Não deu outra: a turma do virtual não foi tão imaginativa quanto a que se encontrou ao vivo.

No laboratório, também foram registrados os movimentos dos olhos de todos os participantes. Assim, notou-se que o olhar daqueles que participaram de videoconferências raramente se desviou do computador. Para os autores, há uma relação entre esse foco limitado à área da tela e pensamentos igualmente mais estreitos.

Em contrapartida, nas reuniões presenciais, o que se viu foi uma tendência de as pessoas olharem para algum ponto do ambiente, ainda que por um breve instante, imediatamente antes de terem uma boa sacada.

Linguagem espalhada pelo cérebro

Para o doutor Haddad, tudo isso faz sentido. "É preciso lembrar que, antes, acreditava-se que o cérebro teria partes funcionando quase isoladas: determinada região teria a ver com a fala; outra, com a visão e assim por diante", diz ele. "Hoje o conceito é o de rede neurais interligando essas áreas, que não só trabalham em conjunto como dependem umas das outras."

Essa dependência não deixaria de ser uma forma de proteção. A linguagem é uma função tão importante para o homem que a responsabilidade por ela acabou sendo compartilhada entre diversas regiões de seu cérebro.

Se uma delas sofre um dano repentino, como em um AVC, os neurônios de outras que também estão envolvidas com a capacidade de comunicação criam depressa novas conexões, tentando compensar. Daí que a recuperação de sequelas de linguagem, em tese, pode ser mais rápida.

"Na evolução, a linguagem se mostrou mais essencial para espécie humana sobreviver do que a parte motora", exemplifica o médico. "Se estou em grupo e vejo um incêndio, posso me queimar se não conseguir me mexer para escapar. Mas, se não consigo gritar 'fogo' avisando os outros, é até pior do ponto de vista evolutivo, porque aí todo o grupo fica ameaçado pelas chamas", exemplifica.

Tudo em ação

Todas as áreas com algum envolvimento com a linguagem, por sua vez, podem ser acionadas quando a gente se comunica. Só que, em um bate-papo ao vivo, isso é mais intenso: "O cérebro capta diversas informações do outro e do ambiente e, sem que você tenha a menor consciência, ajusta a cada instante a sua maneira de falar, o conteúdo exato do discurso, os gestos que acompanham as palavras, tudo de acordo com os sinais que vai percebendo diante de si e ao seu redor", explica Diogo Haddad.

Então, começa por aí: com o olhar fixado na tela, o "ao redor" se perde bastante. Às vezes, ainda existem fones de ouvido para completar. Como consequência, algumas áreas envolvidas com a linguagem podem ser deixadas mais de escanteio. Portanto, recebemos menos insights vindos a partir do estímulo delas, cuja sinergia contribuiria para aquilo que chamamos de criatividade.

O que o olho tem a ver com interrupções?

Tem mais. De acordo com o estudo, nas reuniões por videoconferência a tão bem-vinda troca de ideias ficou prejudicada por falta de contato olho no olho. Quando um integrante da dupla olhava para a câmera, ele deixava de encarar o parceiro de trabalho na tela. E, se olhava para o sujeito, aí era a câmera que perdia o posicionamento capaz de dar aquela impressão mirar bem nos olhos da outra pessoa.

Esse tipo de contato visual, dizem os autores, é fundamental para o que chamam de coordenação da fala. Sem ela, as pessoas costumam iniciar frases ao mesmo tempo e se interrompem a todo momento. Não à toa, isso foi bem mais frequente entre os pares que fizeram videochamada do que entre aqueles que se viram pessoalmente.

"Reconhecer as informações de um rosto é outro aspecto. Na parte frontal do cérebro, isto é, na altura da testa, há uma subárea que é especializada só nisso", conta o neurologista. "Esse pedaço pequenino é ativado sempre que alguém observa uma expressão facial. E, então, o cérebro faz alguns ajustes no discurso que, de novo, não passam pela consciência, se por acaso percebe no interlocutor mínimos sinais de insegurança, desagrado ou, ao contrário, de interesse pela conversa."

Na tela, essa tarefa fica um pouco mais difícil para o cérebro de qualquer um. E não só por causa da briga entre olhar para a câmera, olhar para a outra pessoa ou para si próprio — ora, quem nunca foi um narcisista de reunião virtual?

Acontece que algumas expressões faciais não ficam tão evidentes no vídeo — e ainda tem quem desliga a câmera, certo? Sem contar que a tela só exibe a gente do pescoço para cima e a linguagem corporal — mãos se contorcendo de nervoso, pés batendo de impaciência, aquele corpo inclinado à frente de quem resolveu prestar mais atenção, bem, isso o Zoom não mostra.

É possível que esse feedback incompleto atrapalhe áreas semelhantes àquela que faz o reconhecimento de um rosto. Elas seriam responsáveis pelo que os especialistas em cérebro chamam de cognição social, função que nos possibilita conviver com inteligência ao lado dos outros para, quem sabe, criar coisas incríveis.