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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Covid longa nos músculos: por que o corpo pode ficar moído de dor e fadiga

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

28/04/2022 04h00

Para algumas pessoas, a covid-19 passa, mas o corpo permanece um caco. Aliás, muitas vezes a sensação de ele estar todo quebrado, doendo aqui e ali, com fraqueza na hora de realizar até mesmo tarefas simples, aparece pra valer só depois de a infecção ter ido embora há semanas, feito uma má surpresa.

A fadiga é um dos sintomas mais associados à covid longa. Entre 53% e 94,9% das pessoas que se queixam dela citam essa falta de força e disposição física que, na maioria das vezes, é acompanhada de mialgia, a popular dor muscular. Os músculos estão envolvidos até a última fibra nessa história. Mas muita gente nem desconfia.

"E é natural que não desconfie", compreende o professor Fábio Falcão, da UEPA (Universidade do Estado do Pará), que é fisioterapeuta, dedicado a estudar o impacto de infecções, com mestrado em doenças tropicais e doutorado em virologia. "Se nós, profissionais da área da saúde, ainda mal conhecemos as manifestações e o que está por trás da covid longa, imagine então o paciente! Ele se vê confuso, sem saber direito se o que sente teria a ver com o vírus que pegou tempos atrás."

A lógica diz que os sintomas capazes de levantar a suspeita de danos musculares são mais frequentes em quem, por conta do Sars-CoV-2, ficou hospitalizado. E não só porque a covid-19 em si foi mais grave, sublinhando seus prejuízos ao organismo. Devemos lembrar que uma eventual temporada na UTI enfraquece a musculatura por fatores diversos, que vão da imobilidade no leito aos efeitos adversos de drogas indispensáveis ao tratamento.

Mas a fadiga e o corpo dolorido também aparecem em quem mal sentiu qualquer coisa na fase aguda da doença e que convalesceu em casa, o que gera mais confusão.

"Se a pessoa não teve um quadro grave, nem os exames mostram uma lesão pulmonar para justificar o cansaço, ela então escuta que não é nada, quase como se tudo fosse imaginação", nota o professor em sua rotina, ouvindo gente com covid longa e vivências como essa praticamente todos os dias.

Ele e um grupo colegas da UEPA criaram um dos primeiros projetos do mundo para investigar as manifestações persistentes ou tardias da covid-19. "Isso foi ainda em julho de 2020, quando não havia nem seis meses que o coronavírus tinha chegado ao Brasil e a maioria dos pesquisadores estava focada em como lidar com os pacientes internados e o que estaria por trás da mortalidade estarrecedora", relembra.

Fazia sentido. Mas, de seu lado, o grupo paraense tinha uma experiência vasta em doenças infecciosas que convivem na região amazônica. "Aqui, infelizmente, temos malária, dengue, febre amarela, doença de Chagas, chikungunya... Portanto, sabíamos que, em infecções assim, o surgimento de sequelas é comum. E intuíamos que a covid-19 teria sequelas também", conta. Acertaram.

Hoje já são mais de 5 mil indivíduos com covid longa registrados no projeto, que agora envolve também instituições parceiras, como a UFPA (Universidade Federal do Pará) que, em um dos braços da investigação, busca entender nos genes quem tem maior propensão a essa ou a aquela manifestação meses depois.

Moléculas que deduram o sofrimento muscular

Muitas vezes, quando alguém reclama de fadiga, a suspeita é logo direcionada aos pulmões que, se saíram lesionados, deixam de oferecer o mesmo fôlego de antes. Fato. Mas a causa pode estar — ou também estar — nos músculos. Aliás, é bem provável.

Os cientistas da UEPA acabam de publicar na Reviews in Medical Virology um minucioso apanhado de tudo o que a ciência já sabe sobre esse elo. Segundo o artigo, uma série de biomarcadores encontrados no sangue de quem reclama do corpo moído entrega que os músculos foram mesmo castigados.

"A CK, ou creatina quinase, molécula normalmente envolvida na geração de energia para a contração, costuma aparecer alterada, o que indica uma possível perda de massa muscular", conta Fábio Falcão. "Já a PCR elevada está associada à fraqueza. E a LDH, outra molécula, acusa que o músculo está usando mecanismos menos eficientes para obter energia, o que se traduz em mais fadiga", diz, dando outros exemplos de biomarcadores.

A questão é descobrir por que, na intimidade da fibra muscular, tudo se encontra tão dolorosamente alterado. "Nesse sentido, a ciência ainda se faz muitas perguntas", diz o pesquisador que, na entrevista, comentou algumas das hipóteses. Elas não são excludentes. É possível que, na covid-19, o músculo seja atacado de diversas maneiras.

O vírus e as fibras musculares

Até o momento, não há provas contundentes de que o Sars-CoV-2 invada as fibras musculares ou que as destrua diretamente. Mas o cenário é favorável a essa probabilidade.

Ora, esse vírus usa como porta nas paredes celulares o tal receptor da ECA2 e ele existe aos montes nas fibras musculares. Ou seja, podemos imaginar que elas sejam células bastante convidativas. "Além disso, o Sars-CoV2 precisa de uma enzima, a TMPRSS2, para facilitar a sua entrada. E ela também está muito presente no tecido muscular", conta o professor Falcão.

A questão é a seguinte: será que as células dos músculos seriam um ambiente bom para o vírus? Possivelmente. E aí teríamos o velho enredo: como em outras células, ele se replicaria dentro delas até estourá-las, liberando milhares de cópias. Fim de papo e fim das fibras musculares invadidas pelo coronavírus. Resultado? Músculos depauperados.

Mas o Sars-CoV-2 poderia, ainda, agir de forma indireta. "Ao se ligar ao receptor, ele desregularia o que chamamos de sistema renina-angiotensina", explica o pesquisador. "Normalmente, ele serve para impedir a degradação de proteínas nos músculos. Só que, se está desregulado, essa degradação acontece."

Isso então poderia levar à atrofia e até mesmo a fibroses. Daí, nada se contrairia, nem relaxaria direito. O corpo acabaria emperrando. E reclamando de ardor — ah, sim, porque essa bagunça no sistema renina-angiotensina também seria capaz de disparar inflamação.

Falta de boa oxigenação

Ela acontece com maior frequência, claro, nos casos mais graves de covid-19: a baderna que o Sars-CoV-2 faz nos pulmões tem como consequência a diminuição do oxigênio no sangue. E a nossa musculatura demanda um bocado desse gás para trabalhar.

Quando o suprimento de que necessita não chega na quantidade adequada, ela se vira de outra maneira: "Passa a usar uma molécula de lactato em vez do oxigênio", descreve Falcão. "Mas esse caminho é menos eficiente. E, como as contrações musculares exigem muita energia, o resultado depois de um tempo é a fadiga, podendo surgir dor."

Às vezes, piora: de acordo com o professor, inflamações como a provocada pela covid-19 podem destruir parte das mitocôndrias — lembra-se delas, das aulas de biologia? São as organelas celulares que geram a energia para tudo funcionar. Com menos mitocôndrias, qualquer movimento passa a ser feito com maior esforço.

Musculatura hiperinflamada

Nos casos mais graves de covid-19, não resta dúvida: a inflamação exacerbada com a famosa tempestade de citocinas, que são justamente moléculas inflamatórias, arrasa com a massa muscular. E, não à toa, os pacientes precisam de muita fisioterapia para recuperá-la.

Isso sem contar que os nervos periféricos, encarregados de comunicar aos músculos os comandos cerebrais, também sofrem danos com tanta inflamação. Consequência: no mínimo, mais dor. "Há uma hipótese de que, na covid longa, essa inflamação persista de alguma maneira, causando um círculo vicioso de lesão muscular", diz Falcão.

Os cientistas não descartam ainda outro palpite: o vírus seria o estopim de uma resposta autoimune. No caso, os anticorpos de algumas pessoas que tiveram a covid-19 passariam a atacar os músculos

Quem deve ficar de olho

Indivíduos com obesidade ou com diabetes já teriam um organismo mais inflamado por natureza, com tendência a perdas de massa muscular. "Por isso, em tese, as sequelas da covid longa nos músculos poderiam ser mais graves neles", diz Falcão.

No entanto, o pesquisador é da seguinte opinião: "Não só esses dois grupos, mas todo mundo que sente sintomas musculares e que teve a covid-19 deveria reportar isso ao clínico geral. Casos assim precisam de acompanhamento".

São necessários exames para confirmar lesões musculares, atividade física monitorada e todo um trabalho de reabilitação feito por uma equipe multidisciplinar — de nutricionista checando se o que está no prato favoreceria o ganho de massa magra a psicólogos, fisioterapeutas e outros.

Mas a realidade, mais dolorosa do que tudo, é que poucos terão essa chance. Muitos brasileiros acharão que a dor pelo corpo vem do transporte lotado, do trabalho pesado, das tensões contraindo as costas.

O perigo de normalizar o sofrimento é que ninguém sabe as consequências dessas lesões a longo prazo se não forem cuidadas — se irão sumir sozinhas ou se nos deixarão travados, presos irremediavelmente à infecção do passado.