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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Quem tem obesidade não precisa se tornar magro para ser mais saudável

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

26/04/2022 04h00

É o caso de a gente se perguntar de cara: desde quando o tratamento da obesidade deve perseguir o objetivo de a pessoa se tornar magra em nome da saúde? Já parou para pensar se isso faz sentido?

Essa, porém, é a ideia fixa de todo mundo, lançar-se em uma competição suada para ganhar o troféu de um IMC (índice de massa corporal) normal. Só um aviso: entre os indivíduos que acumulam um bocado de gordura no corpo, poucos chegam lá. E, olhando para os que eventualmente chegam, muitos perdem esse troféu logo depois.

O maior adversário está dentro da cabeça, na região cerebral do hipotálamo, que lança mão de alguns artifícios para que você recupere toda a reserva de energia que um dia já teve. Leia, gordura.

Graças aos mandos e aos desmandos de um hipotálamo inconformado, o apetite aumentará — e, sinto muito, ele não vai se adaptar com o andar do tempo —, ao passo que o metabolismo se tornará lento feito uma tartaruga para que as calorias das refeições fiquem sobrando e possam ser guardadas de novo nas células gordurosas, ou adipócitos.

Emagrecer é mesmo uma luta, qualquer pessoa que tentou enfrentá-la sabe disso. E, no entanto, por causa dessa estratégia fisiológica quase covarde, ela parece moleza perto da batalha que vem a seguir: manter esse peso, ainda que ele pareça só ligeiramente menor do que o do passado.

Segurar a balança em um ponto mais baixo do que antes é o que representa uma vitória e tanto para a saúde — e não necessariamente alcançar um IMC de magro. Esse conceito é valorizado agora por uma novíssima proposta de classificação da obesidade, lançada em conjunto pela Abeso (Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica) e pela SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

"Ela se baseia na trajetória do peso da pessoa. Ou seja, primeiro perguntamos qual o peso máximo que ela atingiu em algum momento de sua vida. E, conforme o quanto ela já emagreceu desde então, calculamos a porcentagem que essa perda equivaleria em relação ao valor do peso máximo", resume o endocrinologista Bruno Halpern, recém-nomeado membro do Comitê de Tratamento Clínico da WOF (World Obesity Federation).

Foi ele quem idealizou e coordenou o trabalho da nova proposta, a qual no final das contas aponta quem tem uma obesidade reduzida e quem tem uma obesidade controlada, dois conceitos que deveríamos ter na cabeça no lugar da mania — por vezes forçada e nada salutar — de magreza.

Perdas modestas já fazem diferença

Não é preciso muito. Logo, não é preciso ser magro para ser mais saudável. Alguns estudos afirmam que, quando alguém que tem obesidade perde somente 3% do peso inicial, já são observadas melhoras na glicemia e na fertilidade. Sem contar um discreto incremento na resposta de defesa a infecções, como a covid-19.

Mas muitas das diretrizes por aí só reconhecem a existência de benefícios clínicos se a perda de peso é igual ou superior a 5%. Aí, de fato, já se vêem alterações bem-vindas nos níveis de colesterol e um alívio de sintomas como dores articulares, que são provocadas pela sobrecarga do corpo.

Se a pessoa consegue perder ainda mais quilos, ou 7% do peso inicial, cai a probabilidade de ela desenvolver diabetes tipo 2. Acima de 10% de perda, então, o fígado é que agradece. Isso porque ele também fica com menos gordura. Nesse patamar, aliás, acima dos 10%, há ainda uma diminuição média de 21% no risco de doenças cardiovasculares.

Só repare que a nova classificação não parte do peso inicial — aquele do momento em que você decide fazer um tratamento para emagrecer — e, sim, do peso mais alto alcançado ao longo da vida.

A justificativa de Halpern para isso é a seguinte: "É para esse peso que o seu hipotálamo fará de tudo para você voltar. Portanto, está aí uma informação central em toda essa história. Sempre repito que, se você vai a um consultório buscando emagrecer e o médico não pergunta qual foi o peso máximo que já teve na vida, troque de profissional de saúde, porque ele não entende muito de tratamento de obesidade".

Então, qual foi mesmo o maior peso que já teve na vida?

Na hora de responder, no caso das mulheres não vale lembrar do período de gravidez, quando os ponteiros da balança batem recordes. Nem da fase de amamentar o bebê.

"Assim como, para qualquer um, não valem situações agudas, como a de quem engordou durante as férias, mas que emagreceu ao voltar à rotina, ou a de quem ficou internado em uma UTI e saiu de lá pesando muito até por conta da retenção de líquido", exemplifica o endocrinologista.

Pelo critério da nova classificação, o peso mais elevado a ficar registrado é aquele que se manteve por no mínimo três meses, sem a presença de fatores extraordinários, como esses que foram citados.

Então vem a dúvida: "Mas, doutor, eu só pesava esse tanto de quilos há uns vinte anos, isso conta?", Halpern não se cansa de ouvir. E, nessas horas, argumenta que não importa o intervalo de lá para cá. Conta, sim.

Como é a nova classificação

Para pessoas com um IMC entre 30 e 39,9 quilos por metro ao quadrado, uma diminuição de 5% a 10% em relação ao peso máximo na vida indicaria uma obesidade reduzida. Menos do que isso? Uma obesidade inalterada.

Como exemplo, imagine uma mulher que hoje pese 95 quilos, mas que já chegou a ter 100 quilos. Ao sustentar uma perda de 5 quilos, que são 5% daqueles 100, ela pode dizer que se enquadra na classificação de obesidade reduzida.

Já se ela tivesse 89 quilos, a diferença seria de 11% em relação aos 100 quilos que chegou a pesar um dia. Nesse caso, como a perda superaria 10%, a sua classificação seria de obesidade controlada.

"Para quem tem um resultado de IMC igual ou maior do que 40, isso muda um pouco", explica Halpern. "Daí, é preciso ter uma perda maior do que 10% para se classificar como alguém com obesidade reduzida e maior do que 15% para ser considerado um indivíduo com obesidade controlada."

Tem mais: em princípio, tudo isso é só para quem tem entre 18 e 65 anos e fez tratamento clínico para emagrecer, seja à base de mudanças no estilo de vida exclusivamente ou com a ajuda de medicamentos.

"Essa classificação da obesidade não funciona para quem se submeteu à bariátrica, porque aí a perda de peso é maior", explica Halpern. "Assim como não foi pensada para adolescentes que estão em fase de crescimento, nem para idosos que podem ter diminuição de massa magra pela idade, o que interefere na análise do peso."

Apesar disso, um conceito de pano de fundo vale para todo mundo: qualquer perda de peso obtida no passado nunca pode ser desprezada. Ela tem um impacto positivo, mesmo que o IMC continue na faixa de obesidade.

Reduzida, controlada... Qual a diferença?

Fica mais fácil compreender a nova classificação quando a gente pensa em uma outra doença crônica, a hipertensão. Alguém com pressão alta que consegue reduzi-la só um pouco está melhor do que antes, sem sombra de dúvida. Mas os valores da pressão podem continuar oferecendo algum risco.

"Já uma pessoa hipertensa que toma medicação pode estar com a pressão normal de 12 por 8. Ela deixou de ser hipertensa? Não! Mas está com a pressão controlada", explica Halpern. A mesma coisa aqui: existem sujeitos que apresentam parâmetros clínicos bons porque estão com a sua obesidade controlada. Continuam com obesidade, porém.

Este é um ponto importante, aliás. Ora, pode ocorrer de alguém que já teve obesidade grau 1 um dia cair na faixa de sobrepeso do IMC ao emagrecer. Mas, de acordo com a nova proposta, continua sendo um indivíduo com obesidade grau 1, só que controlada.

Este seria, segundo o médico, o lado ruim da classificação proposta ou, vá lá, duro de encarar: ela não deixa a gente esquecer que a obesidade vem para ficar. Ainda que a pessoa esteja com um peso menor e até aparentemente magra, ela será para sempre um caso controlado de obesidade.

O lado positivo é trazer à tona os benefícios de perdas de peso pequenas, menores do que a gente muitas vezes gostaria, mas viáveis. "Frequentemente, a sugestão de que o paciente precisa emagrecer ainda mais para entrar na faixa de IMC normal vem do próprio médico", lamenta Bruno Halpern.

Isso, segundo ele, pode fazer com que a pessoa menospreze a perda de peso conquistada no passado e desista. Pode, pior, levar a um emagrecimento por conta de medidas muito restritivas, que favorecem o efeito safona. "Um de seus problemas é que a gente recupera mais rápido o peso em gordura do que em músculo, que é o tecido que mais queimaria o excesso de energia. Logo, a dificuldade para emagrecer será maior a cada tentativa", nota Halpern.

A nova classificação deve complementar e não substituir outras, como a do próprio IMC. Também não é uma receita afirmando que todos com obesidade devam perder acima de 10% do peso a partir de agora. Nem diz a quem já emagreceu esse tanto que é melhor parar de tentar perder mais alguns quilos.

"Ao contrário, ela chega justamente para proporcionar um tratamento mais individualizado", opina Halpern. Isto quer dizer, um tratamento que considere a história de cada um sobre a balança, sem impor um IMC de magro para todo mundo que busca saúde.