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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Câncer de bexiga: o que pode melhorar a chance de superar essa doença

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

19/04/2022 04h00

Se existia um número que costumava ficar sob o tapete no Brasil era o de pessoas que morriam até três meses depois de serem operadas para se livrarem de um câncer de bexiga.

A pior ironia da situação: a causa não era o tumor, mas uma série de complicações que surgem quase que invariavelmente durante ou após o procedimento cirúrgico capaz de curá-lo.

De fato, nos melhores centros de oncologia do mundo, entre 3% e 5% dos pacientes também não resistem a esses perrengues. Aqui, porém, a impressão do urologista Sidney Glina, professor da FMABC (Faculdade de Medicina do ABC), na Grande São Paulo, era de que a quantidade de gente que sucumbia seria bem maior. Mas não havia dados.

Em 2018, ele provocou seu colega Fernando Korkes, também professor e chefe do Grupo de Uro-Oncologia da FMABC, a levantar o que tinha ocorrido com quem tinha sido operado na região nos três anos anteriores. "Não foi simples", relembra o médico, que obteve dados de apenas 59 pacientes. A verdade difícil de encarar foi a seguinte: 22 deles, ou 37%, tinham morrido naquele intervalo crítico de 90 dias.

"Pense na dificuldade de falar sobre esse risco para alguém com um tumor altamente agressivo, como é o câncer de bexiga, que não tem alternativa a não ser enfrentar a operação", diz Korkes.

É aquela história: se ficar o bicho pega, mas se correr... "Não dava para aceitar uma letalidade tão mais elevada do que a de lá fora. E ela ainda não deve ser diferente em outros hospitais públicos do país", aponta Glina.

Daí que a faculdade e a Fundação ABC toparam iniciar, naquele mesmo ano, o projeto "CABEM Mais Vidas", que centraliza os casos da região no ambulatório da instituição. A sigla no nome vem de câncer de bexiga músculo-invasivo.

Nos três primeiros anos do CABEM, entre 108 pacientes operados para retirar a bexiga doente, apenas três morreram. Ou seja, pouco mais de 2%, uma porcentagem mais de dez vezes menor do que a de antes e que faz bonito em qualquer lugar do planeta. O programa está mudando a cara de uma doença que representa uma corrida contra o relógio.

Não perca tempo: sintomas suspeitos

"A literatura científica é categórica ao afirmar que, no cenário ideal, quem apresenta sintomas desse câncer não deve perder mais do que três meses para confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento", conta Korkes.

Segundo ele, esperar o dobro desse tempo quando é um caso de câncer de próstata não muda muito a situação. "Já quando é a bexiga que tem uma doença maligna, os tais três meses já fazem total diferença", compara.

E aí que que está: 4 em cada 10 pacientes do SUS levam mais de um ano entre sentir alguma coisa estranha e chegar ao primeiro atendimento com um urologista — 1 em cada 10, desperdiçam mais de dois anos preciosos até essa consulta. Olha que nem estamos falando em começar o tratamento pra valer!

Parte desse longa espera, que mingua as chances de vencer o tumor — e, até antes disso, de escapar da necessidade de retirar a bexiga inteira —, tem a ver com o desconhecimento a respeito dessa condição.

"O que a gente mais vê é a pessoa que teve um sangramento ao urinar, foi ao pronto-socorro e saiu de lá com a prescrição de um antibiótico. E isso porque quem fez o atendimento presumiu que se tratava de uma infecção urinária", lamenta o professor Sidney Glina.

Nas mulheres, a confusão acontece a todo instante. Afinal, elas costumam ter mais infecções urinárias. Algumas voltam a passar com o médico, saindo outra vez com a receita do remédio nas mãos. "Confunde também porque o sangramento não é ininterrupto. Ele vai e volta", justifica Glina.

O mal-entendido permanece quando o tumor insidioso na bexiga provoca uma ligeira ardência na hora de ir ao banheiro. Sim, esse pode ser mais um sintoma.

Os homens, por sua vez, escutam que, com a idade, é normal sentir dificuldade para esvaziar a bexiga, graças à próstata avolumada por uma hiperplasia benigna — e aí, também, o que está verdadeiramente acontecendo continua despercebido.

O sintoma mais comum de todos, porém, é mesmo o sangue no xixi, às vezes notado por uma mudança de tom nesse líquido. Mas, em alguns indivíduos, isso só é flagrado no exame de urina porque as gotículas vermelhas e microscópicas escapam do olho nu.

Por que é um câncer de fumantes e mais velhos

O tumor de bexiga é mais frequente em quem passou dos 50. "A média de idade dos pacientes é de 66 anos", informa Fernando Korkes.

Tínhamos mania de repetir feito papagaios dados americanos dando conta de que apenas 25% das pessoas acometidas eram do sexo feminino. Mas, em nosso país, 35% dos que recebem esse diagnóstico são mulheres — é bom que todas fiquem espertas. "Isso, provavelmente, porque elas passaram a fumar mais", especula Sidney Glina.

O cigarro é mesmo o maior vilão dessa história. Filtrados pelos rins, os componentes do tabaco terminam escoados junto com a urina e, enquanto esse líquido fica guardado no reservatório da bexiga, eles vão agredindo suas paredes.

"Um terço dos médicos se esquece de avisar os pacientes que tiveram esse câncer sobre a importância de apagarem de vez o cigarro para a doença não voltar", lamenta Korkes.

Outras substâncias tóxicas também podem irritar a bexiga — de novo, porque vão parar na urina. Entram no rol moléculas desprendidas por agrotóxicos, por tintas industriais e até mesmo por tintura de cabelos. Mas nada supera as tragadas de quem fuma.

"Por isso, qualquer sintoma deve acender o alerta aos fumantes, especialmente aos mais maduros", avisa Korkes. É que os danos à bexiga acontecem a conta-gotas. Só aparecem depois de anos a fio de contato com uma urina inundada de moléculas capazes de desencadear as mutações do câncer.

O resultado é um combo perigoso: o paciente não só é mais velho, como costuma acumular outros estragos provocados pelo tabagismo. "O câncer de bexiga quase nunca está sozinho. A pessoa tende a ser hipertensa, manifestar problemas respiratórios, pode até já ter infartado", exemplifica o urologista. Ou seja, tem um organismo mais frágil para enfrentar o tratamento.

Para tratar a doença

Se os médicos pegam esse câncer bem no comecinho, é fácil: por uma cirurgia endoscópica, feita pelo canal da uretra, eles raspam completamente a lesão. Daí, o assunto pode até ser esquecido. Para dar mais segurança disso, às vezes são injetadas drogas quimioterápicas dentro da bexiga — e fim.

O paciente contribui com a sua parte. Cigarro? Nunca mais. E deve beber bastante água para, digamos, diluir qualquer porcaria que ameace de novo o reservatório de urina no corpo.

No entanto, sem essa raspagem, não é preciso muito tempo — questão de poucos meses — para um tumor recém-nascido literalmente ir fundo, crescendo na direção da musculatura sob as paredes internas do órgão. Aí, o tratamento padrão é removê-lo totalmente.

Na maioria dos casos, dali em diante a pessoa terá de urinar por um furinho no abdômen, com o líquido gotejando em uma bolsa coletora. "Às vezes, porém, é possível reconstruir uma bexiga usando um pedaço do intestino", explica Korkes.

Seja como for, a operação é para guerreiros: se tudo corre bem, dura de cinco a doze longas horas. Isso porque, além da bexiga, o cirurgião precisa retirar a próstata e as vesículas seminais, no caso dos homens. Quando é mulher, são extraídos o útero, os ovários, as tubas uterinas e parte da vagina. Isso sem contar, em ambos, os gânglios da pelve.

Por ser uma cirurgia de grande porte em quem costuma ter a saúde comprometida por outras doenças, fácil entender por que 98% dos operados apresentam complicações. Ou seja, quase todos.

Quando dá certo, porém, é uma maravilha: o câncer de bexiga, apesar de ter começado a avançar, está curado. O que não é possível dizer se, diagnosticado ainda mais tarde, ele já atravessou de vez o músculo e se espalhou pelo corpo. Então, o tratamento prescrito é apenas paliativo.

O sucesso da iniciativa no ABC

Os urologistas da FMABC mapearam situações críticas. Primeiro, claro, os pacientes apareciam com um tumor grande demais. Para que isso não continuasse, pediram aos médicos da região que encaminhassem ao ambulatório quem tinha sintomas suspeitos. Ali, todos são orientados por uma equipe multidisciplinar.

De tão maltratados pelo câncer, muitos também chegam anêmicos, em função do sangue perdido pela urina — algo que passou a ser cuidado. Mas ainda era preciso redesenhar tratamento. "No câncer de bexiga avançado, o ideal é fazer uma quimioterapia antes da operação", conta Korkes.

"Mas, ora, se o paciente já levava meses para consultar o urologista, pense no tempo para agendar com o oncologista!", diz o professor Sidney Glina. Os médicos do programa, então, passaram a furar o sistema. Como? Por exemplo, ligando para os especialistas em câncer que conheciam a fim antecipar o tratamento. "Dessa maneira, criamos uma rede, mas antes viramos os chatos da região", brinca.

A "chatice" está sendo um sucesso — e sem custar um tostão a mais. O modelo, ainda bem, que já está sendo copiado pelo país.