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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

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Por que tomar vacina da gripe se ela não protege contra esse vírus H3N2?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

06/01/2022 04h00Atualizada em 06/01/2022 15h25

Tem gente dizendo que nem vale a pena sair de casa para sentir a picada da agulha, porque a vacina da gripe encontrada por aí não contempla o tipinho exato do vírus influenza H3N2 que, ao lado do Sars-CoV-2 da covid-19, fez a festa nas aglomerações da virada do ano.

Dá para medir a encrenca pelo tamanho das filas nos pronto-atendimentos. Ainda mais diante delas, para quem até agora escapou dessa gripe fora de época e que não tomou a vacina em 2021, a recomendação dos médicos é uma só: correr atrás do atraso.

"Inclusive, é a mesma coisa que falamos para quem já ficou gripado. Afinal, existe mais de um tipo de influenza e não dá para saber qual vírus você teve no passado", orienta o pediatra Renato Kfouri, que é presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria e membro da diretoria da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações)

De fato, tomar a vacina é se proteger contra, no mínimo, três formas do influenza presentes nos imunizantes. A H3N2 é, sim, uma delas. Mas está certo: não se trata do H3N2 da vez, a variante darwin. "Por isso, só podemos esperar uma proteção parcial", reconhece Renato Kfouri. Parcial é bem melhor do que nada.

O que está na vacina

Vamos lá: existem vírus influenza tipo A e tipo B. Na prática, com maior ou menor intensidade conforme uma série de fatores, ambos têm potencial para nos derrubar com uma gripe dos infernos. Se uns indivíduos caem de cama em casa ao serem infectados, outros vão precisar de um leito hospitalar. E, sim, tudo pode se complicar demais, colocando a vida em perigo.

Tanto o influenza A quanto o B, por sua vez, possuem linhagens diferentes. A vacina que está sendo aplicada na rede pública é trivalente. Ela nos defende contra três delas em uma só agulhada. No caso, contra a já manjada H1N1 e contra a H3N2, que são do tipo A. Já a terceira linhagem no imunizante dos postos de saúde é a de um influenza B.

Se você for à rede privada, porém, encontrará a vacina quadrivalente que, como o nome indica, protege contra quatro linhagens —a quarta também é de um influenza B.

No entanto, em matéria de H3N2, trivalente ou quadrivalente dão na mesma nesta altura do campeonato. Elas podem deixar a desejar em matéria de prevenir a infecção. "Mais provável que evitem quadros graves. E —ponto fundamental— podem diminuir a probabilidade de você transmitir o influenza para alguém mais suscetível a adoecer pra valer", explica Kfouri.

O motivo da menor eficácia é que um legítimo influenza sofre mutações em velocidade alucinante. Um vírus A ou B que se espalha no inverno do Hemisfério Sul pode não ser igualzinho ao que se alastra quando a estação mais fria do ano chega no Hemisfério Norte.

Em seis meses, muita coisa muda e a vacina é sempre formulada conforme as versões de influenza que circularam pelo planeta no semestre anterior. Assim, o H3N2 que está entre nós já acumulou mutações e se distanciou léguas daquele que se acha na vacina, a qual foi criada no início do ano passado.

Quem já deveria ter tomado

Segundo o pediatra, sete em cada dez casos de gripe que têm complicações são em idosos, gestantes, mulheres que deram à luz há pouco tempo, portadores de doenças crônicas e crianças. "Para essas pessoas, a recomendação para tomar a vacina com atraso estaria valendo mesmo se não houvesse essa epidemia no momento", garante ele. Ou seja, independentemente do H3N2 se espalhando, quem está nesses grupos nunca poderia ficar sem o imunizante.

Todos os anos, no Brasil, o Ministério da Saúde distribui de 77 a 80 milhões de doses para imunizar esse público e, ainda, pessoas que, por circunstâncias, vivem mais expostas a infecções que se transmitem pelo ar, como é o caso de profissionais de saúde, funcionários do setor de transporte e de segurança e, ainda, indivíduos privados de liberdade.

Infelizmente, até em função da pandemia, em 2021 nem toda essa gente foi buscar a vacina da gripe a que tinha direito. "Há doses sobrando e o prazo de validade de alguns lotes está prestes a expirar", lamenta Kfouri. É por isso que, em alguns municípios, como São Paulo, os postos de saúde passaram a vacinar qualquer um, mesmo quem não pertence aos grupos prioritários. Melhor vacina no braço do que no lixo.

Essa gripe poderá passar feito chuva de verão

Geralmente, quase a totalidade de casos de gripe ocorre no inverno. É que o influenza se multiplica mais no clima frio e seco, o oposto dos dias abafados e chuvosos do nosso verão. Mas, dadas as circunstâncias atuais, não é exatamente uma surpresa vê-lo surgir na estação mais quente do ano.

"Nos últimos tempos, o predomínio do coronavírus foi tão enorme que ele nem deu muito espaço para mais agentes infecciosos", observa Renato Kfouri. "Houve um silêncio de outros vírus transmitidos pelo ar e, consequentemente, uma redução de casos não só de gripe, mas de meningites, pneumonias, sarampo."

As pessoas também ficaram mais em casa e usaram máscara, lembra o médico. Daí que não foram expostas ao vírus da gripe nos últimos meses. Tampouco se vacinaram como antes. Lamentavelmente, em 2021 apenas 67% dos brasileiros pertencentes a grupos de risco receberam a injeção.

Resultado: sem contato com o influenza e sem tomar a vacina, a população foi perdendo seus anticorpos contra esse vírus e se tornando suscetível. "Bebês que nasceram na pandemia talvez não tenham herdado defesas contra a gripe", exemplifica o pediatra. Não à toa, está todo mundo ficando gripado.

Com a covid-19 mais sob controle —apesar da forcinha que as comemorações de Réveillon deram à ômicron— e a volta do convívio social, médicos como o próprio doutor Kfouri já esperavam que o influenza da gripe aparecesse do nada, sem dar bola para o calor. "Eu só não imaginava que a onda provocada por ele acabaria com essa magnitude toda", confessa Kfouri.

Apesar de preocupante, o médico não acredita que ela irá muito longe. "Normalmente, as temporadas de gripe duram de seis a oito semanas. Como não é da natureza do influenza circular tanto no verão, eu não me espantaria se essa epidemia se resolvesse em cinco ou seis semanas", arrisca. "No Rio de Janeiro, onde surgiram os primeiros quadros gripais provocados pelo H3N2, a incidência da infecção já começou a baixar."

Tomara. Resta ver o estrago que esse influenza fará durante esse período, mesmo ele sendo provavelmente mais curto.

E quem tomou a vacina antes deve repetir a dose agora?

"Em princípio, esta não é a orientação", responde o doutor Kfouri. "O maior foco é sempre quem não se vacinou em 2021, especialmente aqueles que são de grupos de risco."

Porém, cá entre nós, o médico admite que a duração da proteção contra a gripe não é lá essas coisas. Quem tomou a vacina no início do ano passado, talvez agora, em janeiro, já tenha perdido boa parte dos anticorpos. Claro, vai depender do organismo de cada um, se é idoso ou não...

"De qualquer modo, se alguém decide procurar por uma segunda dose, não existe uma contraindicação. Apenas, ele deve respeitar pelo menos um mês de intervalo entre duas vacinas da gripe", explica o pediatra.

Seguindo esse raciocínio, se você resolveu tomar a vacina contra o influenza por estes dias, pode repetir a vacinação quando chegar a nova versão do imunizante, que incluirá a variante darwin. Ela está prevista para março. Terá dado mais de um mês.

Duas vacinas em uma única visita ao posto

Outra coisa: antes, você precisava dar um tempo entre a vacina da covid-19 e a de qualquer outra doença. Recentemente, porém, imitando o exemplo de países como os Estados Unidos, o Ministério da Saúde autorizou a aplicação do imunizante contra o influenza no mesmo dia em que você vai ao posto para tomar o reforço contra o Sars-CoV-2.

"Todas as vacinas contra a covid-19 são classificadas como inativadas", explica Renato Kfouri. "Ou seja, elas não contêm material vivo. E sabemos que uma vacina inativada pode ser feita com qualquer outra simultaneamente."

No início, o intervalo servia para os cientistas ficarem de olho nas possíveis reações da vacinação contra o coronavírus, sem a chance de confundi-las com as de outro imunizante. "Era tudo novidade. Mas agora isso não faz mais sentido", diz o médico.

Só não pode tomar qualquer uma das duas vacinas quem, no dia, apresentar sintomas de infecção. Aí, o certo é testar para saber se existe um influenza ou um Sars-CoV-2 por trás. E se isolar, óbvio.

Aliás, os casos em que os dois vírus são identificados em um só paciente têm se tornado frequentes. "Eles nem sempre representam uma coinfecção", esclarece Kfouri. "Hoje, os testes moleculares são tão sensíveis que acusam pedaços de um vírus que infectou o organismo semanas antes e que nem está mais lá."

Mas a realidade é que ômicron e H3N2 circulam livres, leves e soltas pelo verão brasileiro. Logo, não é preciso dar tanto azar para pegar a dupla —é preciso dar sopa.