PUBLICIDADE

Topo

Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Chip da beleza': médicos alertam sobre o perigo desses implantes hormonais

iStock
Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

09/11/2021 04h00Atualizada em 09/11/2021 10h09

A engabelação não começou de hoje. Sob anestesia local, o tubinho de silicone quase tão fino quanto um palito e com uns 3 centímetros de comprimento é instalado sob a pele, geralmente da barriga ou do glúteo. E, uma vez ali, vai liberando aos poucos hormônios, como a gestrinona e a testosterona, que são um capítulo à parte.

É tentador. O procedimento praticamente só não garante trazer o amor de volta. Promete interromper a menstruação e acabar com o mal-estar da TPM, por exemplo. Também dizem por aí — para vender o dispositivo, que chega na gaveta do consultório por um preço de banana, mas que é oferecido a peso de ouro— que ele aumenta incrivelmente a libido das mulheres "chipadas" e melhora a sua disposição para tudo.

De quebra, faz possivelmente o que elas mais querem quando recorrem a esse tratamento sem evidência científica: troca a gordura por músculos, deixando o corpo magro, firme e definido.

Não à toa, seu pseudônimo na mídia acabou ficando "chip da beleza". Mas o nome legítimo é implante hormonal mesmo. E a primeira coisa que você deve ter na cabeça é que não existe —sublinhe, não existe!— tratamento hormonal com fins estéticos. Simples assim.

Acne, queda de cabelos e calvície, voz grossa, abcessos, um clitóris aumentado em até quatro vezes, infertilidade, alterações preocupantes nas glândulas mamárias, doença cardiovascular e danos ao fígado que podem levar à morte —isso tudo estaria de bom tamanho para você?

Pois esta foi a lista de efeitos adversos que ouvi no último sábado, dia 6, na aula que o endocrinologista Alexandre Hohl, professor da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), deu durante o CAEFA (Curso Avançado de Endocrinologia Feminina e Andrologia), organizado pela SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia).

No final da aula, a entidade resolveu dar um basta. A SBEM divulgou um posicionamento em que coloca todos os pingos nos "is" sobre esse tipo de terapia.

A ideia é pedir que órgãos competentes, como a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), passem a fiscalizar com maior rigor a comercialização dos tais implantes. E que o CFM (Conselho Federal de Medicina) cumpra o seu papel de ficar de olho em quem prescreve tratamento sem qualquer prova da ciência de que os benefícios superariam os eventuais malefícios. O que, no caso do "chip da beleza", parece ser o inverso.

Começa por ser um implante

Se a substância é para ser engolida ou se é de uso tópico ou, ainda, se ela é para ser pingada nos olhos, inalada ou colocada sob a língua, se deve ser aplicada via injeção subcutânea ou se a agulha deve entregá-la em uma veia ou direto nos músculos —será que todo jeito de administrar um determinado medicamento daria na mesma?

"Claro que não!", responde sem titubear Alexandre Hohl. "A forma como um fármaco chega em seu organismo é capaz de alterar o que esperamos dele em matéria de eficácia e segurança."

Logo, voltando à questão do "chip", usar um implante hormonal é diferente de usar um hormônio transdérmico ou até mesmo de injetá-lo. "As curvas de absorção são completamente distintas. A do implante é alta, o que pode exacerbar os efeitos adversos", informa o médico.

Mas, pelo que está acontecendo com os implantes hormonais, que crescem de maneira avassaladora no país, nota-se a fragilidade do conhecimento da maioria das pessoas sobre o tema. "Não dá para olhar para um hormônio estudado em pacientes por determinada via e dizer que algo idêntico irá acontecer se ele for aplicado de um jeito diverso", pondera Hohl. "Com um agravante: nos tais 'chips de beleza', está virando moda misturar hormônios e em doses muito elevadas. Para completar, com objetivos estéticos e não o de tratar doenças."

Vamos deixar claro: implantes de testosterona ou de derivados dessa molécula só existem em pouquíssimos países. No caso, sempre para homens e nunca, nunquinha para mulheres. Assim como a gente encontra, em alguns lugares, autorização para o uso de implantes de estradiol, hormônio feminino, em pacientes no climatério.

"No Brasil, só temos um implante com aval para ser comercializado e ele é indicado para contracepção", conta o professor Hohl. "Ou seja, o fato de ser um implante nem sempre é ruim. Apenas tem de ser indicado com extrema responsabilidade para tratar o problema certo, na dose certa e para a pessoa certa."

Testosterona e gestrinona

Os nomes são de lascar para leigos, mas eis a dupla mais usada nos implantes que prometem secar a barriga e turbinar o desejo das "chipadas".

Vamos começar pelo hormônio masculino, a testosterona. "Ele tem uma importância gigantesca para os homens, conferindo todos os seus caracteres sexuais, entre outras coisas", afirma Hohl. E as mulheres, elas têm testosterona no corpo? Sim, em doses bem menores. E que vão se tornando menores ainda com o passar dos anos do período fértil, tornando-se estáveis depois da menopausa.

No entanto, não é por causa dessa derrocada ainda na juventude que o papo de que deveríamos repor esse hormônio deveria colar. Até porque cada mulher é uma mulher e ninguém neste planeta poderá dizer para uma delas se, para uma pessoa da sua idade, aquela testosterona estaria baixa demais ou não.

O que um médico poderia até fazer seria o contrário, ou seja, dar o diagnóstico de um excesso desse hormônio, que pode ocorrer em determinadas doenças, mas jamais acusar a sua falta no organismo feminino.

Vou além: no evento da SBEM ficou claro que o exame de dosagem de testosterona convencional, feito nos laboratórios por aí, não é nada confiável para pacientes mulheres. Para elas, seriam necessários testes com tecnologia de altíssima precisão que costumam ser realizados para fins de pesquisa científica apenas.

Então, do que estamos falando quando o povo que faz um implante e, na cara de pau, diz que a quantidade de hormônio no dispositivo é individualizada conforme a necessidade de cada uma das usuárias? Não faz um pingo de sentido. É chute. E chute arriscado.

"A medicina só indica testosterona para algumas mulheres com transtorno do desejo sexual hipoativo", explica Alexandre Hohl. Popular falta de libido, explico eu. "E mesmo assim", continua o endocrinologista, "essa prescrição é a exceção da exceção e, nem sequer nesses casos mais raros, a testosterona é utilizada na forma de implante."

A gestrinona, por sua vez, é um hormônio sintético que, em princípio, age nos receptores da progesterona. Começou a ser estudada ainda nos anos 1970, por via oral, para tratar a endometriose. O grupo do ginecologista baiano Elsimar Coutinho, falecido em 2020, chegou a investigar seu uso em implantes nos anos 1980. Hoje, porém, a ciência não reconhece implantes de gestrinona nem para tratar a endometriose, fique bem entendido.

Péssima semelhança

O problema é que, olhando para a imagem projetada pelo professor Alexandre Hohl em sua aula, qualquer um enxerga que, lado a lado, as moléculas de gestrinona e de testosterona são quase idênticas. Logo, ambas aprontam quase do mesmo jeito no corpo das mulheres.

Assim como o hormônio masculino, essa segunda molécula tem ação anabolizante. Por isso, chega a constar na lista de substâncias proibidas da Wada (World Anti-Doping Agency). O triste é que, justamente por esse efeito, vem sendo buscada por aquelas que querem secar a gordura corporal e definir a musculatura, sem se darem conta da enrascada.

Um dos pedidos no posicionamento da SBEM é incluir a gestrinona na chamada lista C5 da Anvisa, onde hoje estão 28 fármacos com efeito anabolizante, capazes de aumentar músculos tanto quanto aumentam o risco à vida. "Se isso acontecer, para um médico prescrever esse hormônio, ele precisará informar a doença da paciente e o CPF dele", conta Hohl. Leu certo, CPF do prescritor. É para dificultar.

"O mundo inteiro considera a gestrinona um anabolizante e o Brasil, ainda não", espanta-se Hohl. Atualmente, uma paciente não consegue nem sequer encontrar informações sobre esses implantes no bulário eletrônico da Anvisa para entender o que está usando. "Mas alguns médicos compram, deixam no consultório e seguem implantando", lamenta o professor. "Quem aviou isso, que seria a função do farmacêutico? Não sabemos, por exemplo, se não há superdosagem."

Qualquer dosagem, porém, com a finalidade de perder gordura — e dessa forma ainda por cima — já significa perigo na veia. Ou melhor, implantado. Tudo beleza?