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Blog da Lúcia Helena

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Marília Mendonça tinha miopia. E daí?

Reprodução / Internet
Imagem: Reprodução / Internet
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

07/11/2021 09h36

Ou talvez tivesse astigmatismo. Ou talvez as duas coisas ou outra qualquer. Eu e vocês a vimos mais de uma vez se apresentando de óculos. No entanto, nenhum colunista afirmou que, por causa da armação preta e branca em seu rosto no clipe da música "Fã Clube", lançado no dia de sua partida prematura, "seu visual também não era dos mais atraentes para o mercado da música sertaneja", como escreveu Gustavo Alonso, da Folha de S. Paulo.

O motivo do comentário do historiador veio logo em seguida: "Marília era gordinha e brigava com a balança. Mais recentemente, durante a quarentena, vinha fazendo um regime radical que tinha surpreendido a muitos. Tornava-se também bela para o mercado", nas palavras dele.

Não vou me estender no repúdio por essa falta de respeito à figura de uma mulher cuja maior medida não podia ser aferida na balança, mas nas paradas de sucesso, na legião de fãs, na simpatia exuberante e nas declarações corajosas que emitia em papo direto e reto sobre a vida real da maternidade, sem os filtros sociais e das redes sociais, assim como sobre política, enquanto outros artistas demoraram para passar o mesmo alerta sobre o retrocesso iminente com a eleição do presidente Jair Bolsonaro.

Só que, além de tudo, engolir a seco esse tipo de comentário é também desmerecer a maior parcela de nós, brasileiras. Desta vez, o historiador talvez não tenha feito o que historiadores fazem bem — e bons jornalistas, idem —, que é pesquisar. Pois o Ministério da Saúde nos conta que 62,6% das mulheres do país estão acima do peso, de acordo com o último levantamento do Vigitel. E, entre nós, 29,5% têm obesidade para valer. Mas vejam que estamos aí fazendo bonito em diversos mercados.

A gente precisa se lembrar do mulherão que foi Marília Mendonça e do brilho que ela irradiou em várias frentes — na carreira, como amiga, namorada, filha e mãe — sem que, para isso, tivesse de esconder as formas do corpo ou negar que suava um bocado para controlar a tendência a engordar.

Suava ao pé da letra, por exemplo, indo à academia de manhã, antes de seguir uma viagem que se mostrou sem volta. E eu espero que ela não tenha ido se exercitar, nem tenha postado um vídeo já dentro da aeronave brincando com a ideia de trocar as delícias mineiras por salada tão somente para se tornar "bela também para o mercado"— que, ops, senhores, ela já tinha conquistado e no qual reinava absoluta bem antes de afinar a cintura.

Imagino — e acredito que sim, porque a moça parecia inteligente que só! — que ela buscasse principalmente uma vida mais saudável e, por triste ironia, longa. Para isso, diz a ciência que nem é preciso se encaixar nos padrões de beleza, do mercado, do machismo, da moda, do "escambau".

Atualmente, é consenso na medicina que basta a pessoa com obesidade perder de 5% a 10% do seu peso que daí, mesmo que seu IMC continue elevado, ela já terá melhorado todos os seus parâmetros de glicose, colesterol, pressão, enzimas hepáticas, "etcetera" e tal. É atrás desse ideal que devemos correr. Aparência, por si só, faz rima pobre com sofrência.

E tem esta: a obesidade é uma doença. Não há preconceito, muito menos gordofobia ao afirmar isso, como não há preconceito em dizer que alguém tem diabetes, pressão alta, gastrite, dermatite ou outro problema de saúde qualquer.

O colunista da Folha, porém, possivelmente acertou quando disse que Marília Mendonça brigava com a balança — talvez sem querer, mas acertou. Ora, a fisiologia da obesidade, conhecida muito recentemente, é das mais complexas. Envolve uma cascata de substâncias químicas e até inflamações nos neurônios cerebrais, sendo provocada por uma série de fatores.

Entre esses fatores existem genes cujo papel, se eu fosse resumir, seria segurar toda a energia que o corpo possa conseguir. Assim, não tem obesidade quem quer — ou "quem não quer fazer sucesso no mercado", de acordo com um raciocínio esquálido —, mas quem pode. Ou seja, quem tem esses tais genes.

Por causa deles, uma vez que a pessoa engorda, ao perder peso o seu organismo reclama e, para recuperar a gordura perdida, faz de tudo. Suas duas maiores estratégias são, primeiro, diminuir o metabolismo, dificultando o emagrecer ou manter-se mais magro. E, segundo, aumentar a fome, favorecendo o engordar. Sim, é uma luta.

Por isso, gosto muito de algo que ouvi pela primeira vez do endocrinologista Bruno Halpern, vice-presidente da WOF (World Obesity Federation) pela América do Sul: a gente não deve pensar em acabar com a obesidade, conceito que tende a ficar ultrapassado, mas focar em controlar essa condição para que a saúde siga bem, obrigada. Tal qual um portador de diabetes controla o açúcar no sangue.

Mas é fundamental eu observar que nunca vi uma celebridade morrer e ser apontada por seu diabetes, sua hipertensão, sua intolerância à lactose ou pelo problema crônico que for. Muito menos quando o seu estado de saúde não teve absolutamente nada a ver com a sua morte. A exceção que alguns se permitem fazer quando uma pessoa tem obesidade só escancara um estigma que precisa ser varrido. Tomara, comentários gordofóbicos sejam ignorados por verdadeiras "patroas".

Marília Mendonça foi embora cedo demais. E isso é o que pesa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL