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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que as mulheres precisam ficar ainda mais de olho no colesterol

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

04/11/2021 04h00

Se existe uma ideia errada que todo mundo sai por aí propagando é a de que homens têm mais infarto e AVC do que mulheres. Cá entre nós, até mesmo profissionais de saúde caem nesse conto do vigário.

Entre outros fatores, por trás do engano existe uma molécula que, no organismo feminino, costuma ser enganadora: o colesterol, que parece até mudar de personalidade com o passar do tempo.

O que se sabe: pior será se a mulher não olhar para ele desde cedo. Este foi o recado da aula do endocrinologista Cristiano Barcellos, professor da PUC de São Paulo, durante o Diacordis 2021, evento médico que aconteceu no final do mês passado sobre os elos entre os nossos hormônios e a saúde cardiovascular.

"Se a gente comparar pessoas de 40 ou 50 anos, o papo de que há mais eventos cardiovasculares no sexo masculino poderá ser verdadeiro", diz Cristiano Barcellos. "Nessa idade, para cada dois homens que infartaram ou que tiveram um acidente vascular cerebral, vamos encontrar uma única mulher", calcula.

A coisa muda de figura, porém, quando o organismo feminino atravessa o portal da menopausa. Então, o risco de o coração infartar, por exemplo, cresce tanto que o time feminino é que sai perdendo. Mas que nenhuma jovem se iluda: o cuidado deve começar bem antes da menopausa. E antecipo que a reposição hormonal não será a solução para a ameaça. Ao menos, por muito tempo.

Vantagens femininas

Menino ou menina, todos nós nascemos com 60 ou 65 miligramas de colesterol total, quando muito, por decilitro de sangue. Aos 2 anos, em função do meio ambiente e com a alimentação entrando na jogada, ele já sobe para cerca de 165 miligramas por decilitro sanguíneo . E o normal, na vida adulta, será mantê-lo sob rédeas curtas abaixo dos 190.

É na puberdade, porém, que homens e mulheres se dividem. "Se eu dosar o colesterol em uma garota e em um garoto, posso até encontrar valores parecidos", conta o doutor Cristiano. "No entanto, a porção de LDL, aquela que é apelidada de mau colesterol pela tendência a se depositar nas artérias, provavelmente será diferente nele — com uma molécula menor, mais densa e mais maléfica."

Esse tipinho de LDL invade com facilidade as camadas logo abaixo do endotélio, o revestimento interno dos vasos. Uma vez ali, vai formando placas. O organismo tem mecanismos para varrê-las? Tem. "Mas esse colesterol se adere com vigor, na parede arterial, como se usasse uma supercola", descreve Cristiano Barcellos.

Já nas meninas, por causa do estrogênio que entrou em cena pra valer na puberdade, há bem menos desse colesterol LDL pequeno e denso. E ainda: o hormônio feminino faz com que mulheres apresentem dosagens naturalmente maiores de HDL, o tal do bom colesterol.

"O HDL faz o que chamamos de transporte reverso do colesterol", ensina Barcellos. "Ou seja, ele pega aquele colesterol que estava ameaçando entupir uma artéria e o arrasta de volta para o fígado, que irá usá-lo para outra coisa qualquer."

Aliás, o hormônio feminino não só incrementa a produção desse colesterol bom, elevando sua dosagem, como o torna mais eficiente. "Digamos que, nos homens, uma molécula de HDL seria como uma van de cinco lugares levando o colesterol de volta para o fígado. Mas, nas mulheres, essa molécula seria um ônibus com espaço para 50 passageiros", compara o endócrino. O problema é que essa vantagem não dura para o resto da vida.

Da barriga para o peito

Se fosse resumir a cascata de eventos que acontece com a derrocada do estrogênio na menopausa, lembraria que o sumiço desse hormônio cria a tendência a ganhar peso. E, por menos que o ponteiro da balança se mexa, há sempre um aumento da gordura abdominal visceral.

"Essa gordura aumenta a inflamação do organismo, já favorecendo, só por isso, a formação placas", conta Cristiano Barcellos. "Ela também tem a ver com a diminuição do HDL — o colesterol bom — e com o aumento da glicemia, dos triglicérides, da pressão arterial. Mas o que faz de mais terrível é criar uma maior resistência ao hormônio insulina fabricado pelo pâncreas."

O quadro descrito caracteriza a síndrome metabólica. "Ela é de duas a três vezes mais comum nas mulheres pós-menopausa do que naquelas em idade fértil", avisa o médico. Por sua vez, o risco de alguém infartar quando existe a tal síndrome metabólica é quatro vezes maior.

O detalhe alarmante é que a resistência à insulina — incentivada pela gordura visceral que se acumulou na menopausa — provoca uma metamorfose. Graças a ela, o LDL da mulher tende a se transformar naquela partícula menor e ainda mais densa, como nos homens.

Prepare-se para chegar lá

Um estudo publicado no mês passado concluiu que, a partir da adolescência, o LDL elevado — seja em rapazes, seja em garotas — já vai aumentando o risco cardiovascular. "Isso ajuda a explicar por que às vezes encontramos uma pessoa que parecia estar com o colesterol sob controle e que, no entanto, infartou", pondera.

Feito a pele que memoriza os danos do sol daquela praia sem filtro na juventude, as artérias guardam mágoas — ou placas — do passado. Não adianta pensar no assunto só lá adiante. "Claro que não é caso de recomendar a torto e a direito remédios para baixar o colesterol, as famosas estatinas, para a molecada no cursinho", esclarece o médico.

Então, fazer o quê? "Além de cuidar da dieta desde cedo e do sono, considerado cada vez mais relevante nesse contexto, é preciso fazer exercício físico, combinando treinos aeróbicos ou os de resistência", indica o endocrinologista.

Apesar de a gente sempre sublinhar os benefícios para o coração dos exercícios aeróbicos, como a caminhada, ter uma boa massa magra — leia, musculatura — é mesmo fundamental.

"A partir dos 30 anos, homens e mulheres perdem de 3% a 8% da massa muscular a cada década. Isso reduz o gasto energético, multiplicando a tendência de o corpo reservar gordura", justifica Barcellos. E nas mulheres que não contam mais com o estrogênio, essa gordura adquirida será mais do tipo visceral, a qual irá interferir no LDL.

"A própria obesidade também prejudica os vasos sanguíneos por ser uma doença inflamatória", lembra o médico. "Portanto, assim como a mulher deveria estar em um peso adequado para engravidar, o ideal seria ela também se preparar para entrar na menopausa sem sobrepeso, nem obesidade."

Segundo o endocrinologista, se há duas mulheres que perderam os mesmos 3 quilos, uma só com dieta e outra com dieta e atividade física, a segunda terá perdido mais gordura visceral do que a primeira. Daí que, pensando no futuro do seu coração, não basta emagrecer, mas escolher o caminho suado para afinar a cintura.

A reposição hormonal e estatinas

Até há um tempo, a saída para as mulheres sem contraindicações para reposição hormonal após a menopausa parecia fácil demais: seria só devolver o estrogênio para o risco cardiovascular despencar, certo? Só que não.

"Hoje sabemos que a proteção cardiovascular só acontece na primeira década de menopausa até a mulher fazer 60 anos — no caso, mesmo que ela tenha começado a usar o estrogênio há poucos anos", explica Barcellos.

Após esse prazo, ao invés de proteger, o hormônio feminino passa a romper placas depositadas nas artérias. Ao fazer isso, é como se seus pedaços caíssem na circulação, alcançando as coronárias ou as artérias no cérebro para entupi-las. Perigo.

"A reposição pode ser bem-vinda para aliviar as ondas de calor e a atrofia vaginal, quando essas são as maiores queixas, ou afastar o risco de fraturas em pacientes com perda de massa óssea importante", opina Barcellos. "Mas, olhando para o coração, o estilo de vida conta mais. E, às vezes, a prescrição de medicamentos para diminuir o colesterol no sangue também."

A realidade é que as famosas estatinas são bem menos receitadas para as mulheres. "Há uma inércia por parte dos médicos que, quando encontram uma paciente com um colesterol mais alto, acreditam que ela já está blindada por seus hormônios", lamenta o endócrino.

Por outro lado, de 30% a 40% do público feminino reclama de dor muscular quando engole estatinas, contra 9% ou 10% dos homens. Há quem chegue a especular que o medicamento demore mais para ser eliminado no organismo das mulheres. Mas o fato é que estudos avaliando substâncias como a CPK, capaz de entregar uma inflamação muscular dolorosa, revelam que apenas 0,6% das mulheres tem isso pra valer depois de tomar o remédio. O resto é, quem sabe, a cabeça. Ela ainda não se convenceu de que o colesterol nas alturas é um problema muito feminino.