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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Nanismo: a baixa estatura é só um dos desafios, mas logo ela terá remédio

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

02/11/2021 04h00

Não dá para sair dizendo que a baixa estatura é o menor dos problemas de quem tem acondroplasia, a forma mais comum de nanismo. Afinal, ser pequeno é um desafio gigantesco em um mundo todo feito para pessoas com alguns centímetros a mais.

E o tamanho é também o que chama a atenção e vira alvo de gente que ainda possui um conhecimento, este sim, minúsculo sobre essa condição, bem mais complicada —e literalmente bem mais dolorosa— do que mostra a fita métrica.

Agora um remédio, já aprovado na Europa para crianças acima de 2 anos e que deve ser liberado ainda neste mês de novembro pelo FDA, a agência regulatória americana, é o primeiro na história da medicina a tratar o nanismo, digo, essa forma de nanismo. O vosoritide, da farmacêutica BioMarin, também aguarda o aval da Anvisa, que deve acontecer no primeiro semestre de 2022.

Nos testes, aplicados diariamente sob a pele de jovens entre 5 e 18 anos com uma agulha mínima feito a das atuais canetas pediátricas de insulina, o medicamento se mostrou extremamente seguro e promoveu um ganho médio de 9 centímetros na estatura.

"Atualmente, realizamos um estudo em que o vosoritide é dado bem mais cedo, para crianças recém-nascidas. E talvez elas cresçam até mais do que isso ao chegarem à adolescência, continuando com o tratamento até lá", conta a geneticista Tatiana Magalhães que, depois de doze anos como pesquisadora da Fiocruz, migrou para o setor de farmácia e hoje é gerente médica da BioMarin.

Mas não pense que o que se busca é apenas altura. Ela é o de menos, acredite. A maior de todas as esperanças é que, com o desenvolvimento dos ossos acontecendo mais a contento, isso alivie ou até mesmo evite problemas que ameaçam a saúde e que atrapalham demais a qualidade de vida de quem tem acondroplasia.

Quando os ossos crescem desiguais

As diversas partes que montam o nosso esqueleto seriam programadas para crescer de maneira linear. A acondroplasia, porém, é uma displasia óssea desproporcional. Isto é, em quem tem esse problema, os ossos não se espicham todos do mesmo jeito e especialmente os que seriam os mais longos entre eles deixam bastante a desejar, crescendo menos do que os outros.

Por isso, as pernas e os braços terminam curtos. O terço médio da face, que é a parte da maxila, também fica encurtado, ressaltando a fronte proeminente e o céu da boca, muito alto.

Já as mãos curiosamente assumem a forma de tridente, porque o terceiro dedo parece ficar mais separado do quarto, quase como se a pessoa com acondroplasia vivesse fazendo uma discreta saudação vulcana do doutor Spock, personagem da série Star Trek.

Enfim, essas são algumas das características típicas da acondroplasia que, nos bebês que ainda estão no ventre materno, podem ser notadas pelo ultrassom perto do final do segundo trimestre de gravidez.

"Se a ultrassonografia levanta a suspeita, a confirmação do diagnóstico é obtida por meio de um exame de sangue após o nascimento ou às vezes antes, colhendo uma amostra sanguínea do feto", conta a médica geneticista. "Ele é feito para flagrar a mutação específica da acondroplasia, localizada no gene fgfr3."

Existem, diga-se, mais de 490 displasias ósseas descritas pela ciência e essa é a mais frequente delas. Ainda assim, observa-se um único caso entre cada 23 mil pessoas. Portanto, são somente cerca de 250 mil indivíduos com acondroplasia no mundo inteiro.

Herança genética

Uma criança com acondroplasia pode ser filha de pais com a mesmíssima condição ou de gente com estatura mediana. Parênteses: o bonito é riscar do dicionário expressões como "anão" e "estatura normal". Pessoas com nanismo têm baixa estatura enquanto a maior parte da população tem estatura mediana, combinado?

Se apenas o pai ou a mãe tem o problema, há 50% de chance de o bebê apresentar essa displasia nos ossos. Já quando o casal tem acondroplasia, a probabilidade sobe para 75% — mas não só isso, aí é que está. Pois, se o bebê receber o gene alterado como herança tanto do pai quanto da mãe, seu caso será extremamente grave e quem sabe, infelizmente, incompatível com a vida."O tórax talvez seja tão pequeno que mal dá espaço para os pulmões", justifica Tatiana Magalhães. "Daí a importância de casais assim receberem aconselhamento genético para ficarem por dentro dos riscos e se prepararem para lidar com eles."

Mas saiba que oito em cada dez crianças com acondroplasia nasceram de casais sem o problema. Nelas, a mutação do gene fgfr3 se deu ao acaso. O que se sabe até o momento é que a idade paterna mais avançada pode facilitar essa alteração genética.

O que muita gente ainda desconhece

Não bastasse o bullying e as dificuldades de adaptação para realizar tarefas cotidianas, dá para a gente imaginar o que pode acontecer quando alguns ossos crescem proporcionalmente menos do que outros: como consequência, o corpo inteiro parece se desencaixar.

De cara, o bebê com acondroplasia corre um risco dez vezes maior de ter morte súbita. "Por volta dos 3 meses de idade, ele deve se submeter a uma polissonografia", explica a doutora Tatiana. O sufoco é que poucos centros no país realizam essa avaliação do sono em crianças tão pequenas.

Ela é recomendada para checar se, em função da ossatura desproporcional da face, não existiria uma apneia importante. Pois, em última instância, são interrupções na respiração ao longo do sono que colocam a vida em perigo ou, no mínimo, prejudicam o desenvolvimento adequado.

As crianças com esse nanismo terão problemas dentários, pois os dentes não encontrarão muita folga. O desarranjo dos ossos atrapalha inclusive a audição, atrasando o início da fala, e é capaz de causar até mesmo surdez. Aliás, as infecções transmitidas pelo ar se repetem, já que os germes literalmente encontram um caminho mais curto e facilitado para invadir o organismo, pelo nariz mais achatado e pelos ouvidos.

Não à toa, 40% dos pacientes operam as adenoides e as tonsilas, que são as populares amígdalas na garganta. Mais: para evitar que vivam se inflamando, crianças com acondroplasia frequentemente precisam implantar pequenos tubos de ventilação nos ouvidos.

Pode ser necessária, ainda, uma série de outras cirurgias mais complexas para corrigir o abaulamento das pernas, por exemplo. Para completar, nos primeiros anos, essas crianças merecem um bom acompanhamento para resolver a cifose da coluna, aquela curvatura feito corcunda.

"Também é possível que surja uma hidrocefalia, o que exigirá uma válvula para drenar o líquido dentro do crânio", conta a doutora Tatiana. Sem ela, o cérebro continuará espremido por tanta pressão interna, o que levará a um déficit cognitivo.

Mas, atenção, tirando essa situação fora de controle, pessoas com acondroplasia não têm qualquer problema de cognição. O que se espera é apenas um certo atraso no desenvolvimento de habilidades motoras na infância, superado com o tempo.

A comorbidade mais grave, porém, é a estenose (estreitamento) que ocorre na junção do crânio com o pescoço. Isso sempre coloca a medula nervosa sob o alerta de ser esmagada. "Os pais precisam de orientação", reforça a médica. Balanços, brinquedos de pula-pula, camas-elásticas, cambalhotas, modalidades esportivas como a capoeira e tudo o que possa fazer o a cabeça do pequeno se movimentar em um solavanco — cabeça que é maior e mais pesada — pode provocar danos medulares. Melhor deixar de lado essas atividades, bem como carrinhos de bebê daqueles modelos que se fecham como guarda-chuva.

Outras consequências da acondroplasia são quase constantes. Uma delas é tendência a ganhar peso em excesso. Muitos pacientes acabam com obesidade. Essa é uma das razões de a prevalência de doença cardiovascular ser alta e não demorar a assombrar entre os 25 e os 35 anos. Por fim, em qualquer idade, indivíduos com acondroplasia penam com dores crônicas por todo o corpo. Não é moleza.

O remédio engana o osso

No passado, até se tentou hormônio do crescimento em crianças com acondroplasia. Hoje, apenas o Japão insiste nesse tratamento, que parece fazer pouca diferença para quem tem essa forma de nanismo, já que os usuários só ganham perto de 3 centímetros de altura.

"A substância só seria indicada se estivesse em falta no organismo", explica Tatiana Magalhães. "Na acondroplasia, porém, os níveis de hormônio de crescimento são normais."

No caso, a origem da dificuldade para crescer está nas placas de crescimento, áreas de cartilagem do esqueleto nas quais determinadas células, os condrócitos, vão se transformando aos poucos em ossos, fazendo-os se alongarem.

O que regula a velocidade desse processo — que faz um bebê dobrar de tamanho no primeiro ano de vida para, depois, crescer mais devagar — são moléculas que, uma vez encaixadas em receptores dos condrócitos, funcionam feito um freio. Pois bem: a mutação do acondroplasia faz com que esses receptores fiquem hiperativados.

O vosoritide, por sua vez, engana os receptores ariscos, ao se encaixar neles e não fazer nada. Sem esse controle viver hiperativado, o processo de crescimento dos ossos segue naturalmente sem tanta inibição, o que tem tudo para mudar o curso da história dos pacientes. É crescer pra ver no futuro.