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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Testes de covid-19: o que a gente acha que sabe, mas ainda precisa entender

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

07/10/2021 04h00

Graças ao avanço da vacinação no país, pouco a pouco atividades que envolvem encontros presenciais voltam a acontecer. E, por causa delas, a realização de testes para saber se o indivíduo está ou não está com covid-19 pode se tornar bastante desejável — às vezes, obrigatória mesmo. Mas, aí, vem surgindo todo tipo de confusão, o que me faz bater na tecla desses testes de novo.

Afinal, para começo de conversa, ainda não entrou na cabeça de muita gente que, qualquer que seja a vacina, ela não previne a infecção pelo Sars-CoV 2, mas na esmagadora maioria dos casos presta o excelente serviço de evitar que a doença nos mande para um hospital, faça os pulmões pedirem arrego e, em português claro, nos mate. Salve! Não é pouca coisa. Só que...

"As vacinas são importantes. Mas não são o suficiente", resume, com seu jeito certeiro, o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo. "Isso porque, até o momento, nenhuma delas oferece uma imunidade estéril", afirma. Ou seja, um grau de proteção capaz de impedir que o indivíduo pegue o coronavírus e, depois, mande-o adiante.

Ora, isso não é uma brincadeira infantil de passa-anel. Não tem graça alguma. Sem tomar todos os cuidados, arrisca-se a transmitir o Sars-CoV 2 para alguém que ainda não se vacinou — e que, portanto, poderá se estrepar ao ser contaminado — ou que não desenvolveu uma imunidade forte o bastante para mantê-lo em rédeas curtas, por fatores que vão da idade avançada a alguma condição de saúde que não deixa suas defesas responderem a contento.

Portanto, quando um local, para permitir a sua entrada, exige que você mostre aquele precioso papel atestando que já está vacinado, isso é uma garantia muito relativa. Você até pode olhar para a folhinha que carregou na carteira e respirar aliviado, lembrando que a vacina é eficaz para inibir a ameaça de o seu organismo desenvolver uma covid-19 grave.

No entanto, o comprovante não assegura que não esteja transmitindo o vírus para outras pessoas ali, se tirar a máscara, chegar perto e, por azar, estiver com ele — o que só um teste poderia dizer. "Mais uma vez, é a história de você pensar no coletivo", diz Rizzo.

O patologista Gustavo Campana, diretor médico da Dasa, rede de saúde integrada, explica que todo exame de diagnóstico serve para responder uma pergunta. "No início, vendo os casos lá fora, a indagação era se a doença já teria chegado no Brasil e testávamos viajantes", recorda. "Depois, houve escassez de testes e priorizamos pessoas que exibiam um quadro respiratório mais grave, sempre nos perguntando se seria ou não uma infecção pelo Sars-CoV 2, a fim de reservar um leito de UTI. Em seguida, passamos a testar todo mundo com quem um doente teve contato e a questão já era: será que alguém pegou a covid-19 dele? Hoje, com a vacina, a pergunta da vez que cada um deve fazer é: se vou a um certo encontro, será que tenho o vírus e posso colocar os outros em risco?".

Eu acrescentaria: será então que é para fazer o RT-PCR, que conforme o lugar leva de seis horas a seis dias para dar uma resposta, ou me submeter a um teste de antígeno, que chega ao veredito em 20 minutos? "Os dois podem ser bons. A escolha vai depender das circunstâncias", afirma o doutor Rizzo.

PCR versus teste de antígeno

O RT-PCR ainda é o teste padrão ouro, ao flagrar partículas do material genético do coronavírus. Entrega se ele está naquele organismo ou se não está — e ponto. Porém, além de mais demorado, é bem mais caro do que a alternativa, que seria o teste de antígeno.

Este também é realizado por profissionais de saúde e ninguém escapa do swab, aquele cotonete fino e longo, enfiado pelo nariz para colher amostras de muco e de células na região da nasofaringe, onde o Sars-CoV 2 costuma se instalar.

Na sequência, esse instrumento é colocado em um tubinho com um visor feito o dos testes de gravidez, no qual aparecerão dois tracinhos se, por acaso, forem encontradas proteínas do núcleo capsídeo, a película que envelopa o material genético do coronavírus.

Entusiasta dos testes de antígeno, o infectologista Marco Aurélio Sáfadi, professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e presidente do Departamento de Infectologia da SBP (Sociedade Brasileira de Pediatria), vê vantagens além de sua rapidez e do fato de serem mais acessíveis: "Eles podem ser feitos em escolas e nas empresas, sem a necessidade de um laboratório ou de a pessoa ir a um pronto-atendimento", diz."Pode ser realizado até no consultório do médico, se o indivíduo chega ali com um sintoma suspeito."

Aliás, faz diferença se a pessoa testada apresenta sintomas ou não. "O teste de antígeno tem uma excelente especificidade: se dá positivo, você pode acreditar que está com o Sars-CoV 2 e não com outra virose qualquer", explica Sáfadi. "Mas, em relação ao RT-PCR, ele apresenta uma sensibilidade menor", compara.

Significa que, ao dar negativo, não há 100% de certeza de que o vírus não está mesmo ali. "Por isso, quando há sintomas e o teste de antígeno aponta um negativo, nós pedimos o RT-PCR como uma prova complementar."

Esse falso negativo é mais frequente em quem está assintomático. Mas pode acontecer naquele cidadão que só está com o nariz escorrendo, aproveitando para lembrar que a simples coriza é uma marca registrada da variante delta.

Talvez você se pergunte: por que, então, se eu estou com sintoma, devo fazer primeiro um exame que, se não confirmar a covid-19, me obrigará a apelar para o outro do mesmo jeito? "Aí, a tentativa de flagrar com rapidez conta pontos. Aumenta a chance de você isolar o indivíduo infectado antes que saia espalhando a doença", opina Sáfadi.

Segundo o médico, a triste realidade é que pessoas com sintomas leves nem sempre ficam quietas em seu canto enquanto aguardam o resultado do RT-PCR. "Quase sempre acham que não é nada", observa ele. Elas se esquecem que os cerca de 500 mortos por dia ainda equivalem a dois aviões lotados despencando a cada amanhecer. A pandemia não acabou.

Faço um teste ou faço o outro?

"O período da infecção conta nessa decisão", aponta o médico e virologista Amílcar Tanuri, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador associado da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. "O teste de antígeno é extremamente confiável até oito ou nove dias depois do início dos sintomas, enquanto o RT-PCR pode ser feito até 14 dias após eles aparecerem", informa.

Tanuri reforça que o exame de antígeno tem maior sensibilidade quando o indivíduo apresenta sintomas. Logo, ele talvez não seja a melhor escolha para gente assintomática, embora seja uma ligeira segurança a mais realizá-lo para liberar a entrada em eventos.

"Um problema é que existe muito teste de antígeno por aí e nem todos têm a mesma qualidade", ressalta Luiz Vicente Rizzo. "Para quem pretende fazê-lo, eu sempre sugiro que busque antes se informar na internet sobre a sensibilidade do teste específico que estão lhe oferecendo. Ela varia de 70% a 90%, conforme o fabricante. É muita diferença."

Se não achar essa informação, um jeito é optar pelo teste de um laboratório maior e mais conhecido. "Isto posto, pense que o melhor dos testes de antígeno, com seus 90%, é apenas um pouco pior do que o RT-PCR", diz o imunologista. "Daí que, do ponto de vista individual, pode ser uma boa opção quando você tem a necessidade de um resultado rápido para, sei lá, decidir com mais tranquilidade se irá a um jogo de futebol", exemplifica Rizzo.

Só repare no seguinte: uma única pessoa fazer o teste de antígeno é uma coisa, dez é outra e cem, outra ainda. Tudo muda de figura se o número de indivíduos em um grupo que deve ser testado é grande.

"Aí, mesmo que exista apenas 1 pontinho de diferença para o RT-PCR na sensibilidade, por uma questão de estatística isso já passa a ser significativo", explica Rizzo. Ou seja, a quantidade de pessoas multiplica o risco de um caso de infecção passar batido. "Por isso, se eu pretendo testar todos os convidados de uma festa de casamento para ter segurança de que não ocorrerá uma transmissão, a melhor opção ainda seria o RT-PCR", ilustra.

Pergunto se a pessoa não poderia ter um resultado negativo, mas se infectar naquele período em que esperou o resultado do RT-PCR, contaminando todo mundo. "Se ela pegar o Sars-CoV 2 nesse intervalo, ele ainda será curto para já sair expelindo partículas infectantes", pondera Rizzo. "Não digo que seja impossível que transmita o vírus, mas seria improvável."

Quem já se vacinou

Nessa altura, está claro: quem tomou a vacina, mas está sentindo qualquer sintoma que lembra uma gripe , deve fazer um teste de covid-19. O maior erro é nem dar bola, descartando a possibilidade de o mal-estar ser obra do Sars-CoV2. A boa notícia é que, com a vacina, a possibilidade de você contrair o vírus, apesar de não sumir de vez, talvez caia. Tomara.

"No primeiro trimestre, de 30% a 40% dos indivíduos testados para covid-19 pelo país tinham resultado positivo", conta Gustavo Campana, olhando para os gráficos da Dasa. "Hoje, isso acontece apenas com 12% a 15% das pessoas." Para continuarmos assistindo a essa derrocada do vírus, dependemos de um trio: vacina, máscara e teste. Ou de um quarteto, porque faltou citar o bom senso.