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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

O que podemos aprender com as histórias de quem esteve na linha de frente

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

05/10/2021 04h00

A provocação veio de um médico, coordenador da UTI de um dos mais renomados hospitais do país, ao ver a psicóloga Juliana dos Santos Batista passar pelo corredor com as mãos cheias de fotografias: "Um dia, você deveria escrever um livro registrando todas essas histórias", disparou, sabendo que a colega de linha de frente se dedicava à poesia nas horas vagas. Mas onde estavam as horas vagas naqueles tempos, não?

Isso foi no meio do ano passado, em uma das fases mais críticas da pandemia de covid-19, quando ela teve a ideia de colar nas paredes do box de cada paciente, ainda que alguns deles estivessem completamente sedados, imagens de familiares, de animais de estimação, do time favorito, de casa...

Os retratos constituíam um mosaico capaz de trazer para dentro daquele lugar de profundo isolamento um pouquinho do seu círculo íntimo, cercando-o de afetividade na fase da retirada do tubo, quando a sensação de desorientação é tão comum quanto assustadora. E, não menos importante, capaz de mostrar à equipe de saúde extenuada quem era o ser humano ali deitado.

As fotos que enchiam as mãos de Juliana naquele encontro fortuito por acaso eram de crianças. E a provocação de escrever o livro ficou ecoando em sua mente. Pois bem: mais de ano depois, ele é lançado. "Bastidores de UTI Covid: Histórias de Cuidado pelo Olhar de Quem Cuida" (Editora Comenius) é, na verdade, uma obra escrita a muitas mãos.

Além do relato de Juliana, que é especialista em psicologia hospitalar pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, há o de trinta profissionais na linha de frente — psicólogos como ela, médicos, enfermeiros e fisioterapeutas — de instituições diferentes, tanto públicas quanto privadas, como o Hospital Sírio-Libanês e o Hospital do Coração, em São Paulo; o Hospital Vera Cruz, em Campinas; o Hospital Municipal de Uberlândia, em Minas Gerais; e o Hospital das Clínicas de Porto Alegre.

"Eu presenciei muitas histórias, algumas belíssimas e outras, duríssimas. Mas vivia em um recorte muito pequeno, que não representava o todo", pensa Juliana. Daí por que chamou os colegas. Achou que encontraria dificuldade ao fazer o convite no final do ano passado, quando uma nova onda de covid-19 ameaçava subir.

Como ela, todos estavam consumindo boa parte de suas horas trancafiados em UTIs, talvez sem tempo nem energia para escrever. E, entre eles, pareceria muito mais fácil preencher as linhas de um texto técnico do que narrar histórias de pacientes, ainda com a premissa de se colocar como protagonista, compartilhando suas próprias vivências e emoções. "Para minha surpresa, com uma exceção justíssima — a de uma colega que estava para ter bebê — todos aceitaram", relembra Juliana.

Na capa, além dos autores, outros tantos se juntaram para formar mais um mosaico, este de olhares sobre a máscara. "Não queria fotos de modelos, mas de gente que sabe de verdade o que é uma UTI Covid", explicou Juliana, que lançou a obra por sua conta e risco, de maneira independente.

O livro físico está à venda somente por um link e parte da renda será revertida para o projeto social Sementes do Amanhã, que oferece apoio à população em situação de rua, especialmente crianças e gestantes.

O que a leitura tem de bela, tem de doída. Pergunto à Juliana Batista que lições podemos tirar dessas 184 páginas para a vida. "São muitas", garante. E então me fala a respeito de algumas delas.

Dê espaço para o outro falar

Em seu próprio capítulo, Juliana usou fragmentos de situações que viveu nas visitas virtuais. "Quando o paciente estava intubado, eu quase sempre ouvia: 'mas ele vai me escutar'?", conta.

Ela respondia a pura verdade: não dá para ter certeza se a pessoa está ouvindo. Vai depender até mesmo do seu nível de sedação. E tem mais: uma coisa é ouvir e outra coisa é entender tudo o que lhe foi dito. Ou seja, o indivíduo adormecido poderia ter apenas uma percepção da voz chegando aos seus ouvidos. E essa franqueza bastava, porque ninguém se negava a fazer a visita. Tampouco ficava quieto.

"Nunca presenciei uma visita virtual que fosse silenciosa. Não existe isso. Ao contrário, as pessoas falam mais do que o homem da cobra!", garante. E sobre o que falam?, quis saber. 'Há de um tudo. Existem aqueles que relembram momentos gostosos vividos. Outros dão broncas com muita doçura, na linha 'chega de dormir, porque a gente vai conversar muito sério quando chegar em casa'. E também há quem aproveite para atualizar o doente sobre tudo o que está acontecendo no mundo, reproduzindo os noticiários", diz ela, dando exemplos do que é mais frequente, ao lado de alguma espécie de ritual, como fazer uma oração.

Juliana assegura que, ao soltar o verbo, quem faz a visita se sente muito melhor. "É como se a voz fosse uma maneira de investir vida naquele indivíduo em estado grave. E isso diminui a sensação de impotência pois, ao investir vida, você está fazendo a sua parte no cuidado e não apenas sendo passivo e esperando", explica.

Sobretudo, as falas nas visitas virtuais escancaram uma das principais lições para quem decide cuidar de outra pessoa, seja por causa da covid-19 ou do que for: ouvir. "E, óbvio, você só poderá ouvir se oferecer o espaço da palavra para o outro", aponta a psicóloga.

Portanto, quer mostrar para alguém que ele está sendo cuidado, não importa o motivo? Deixe-o falar. E, sim, preste verdadeira atenção. "Ora, sem ouvir a gente apenas imagina do que o outro está precisando e, no fundo, faz as coisas pela nossa cabeça", diz a psicóloga, que ainda refresca a nossa memória para uma frase de Rubem Alves (1933-2014). Dizia ele que é depois de uma longa escuta que o amor começa.

Procure se ouvir também

Algo muito curioso nessas visitas virtuais é que, como Juliana sempre intuiu, importava menos se o paciente adormecido estava ouvindo ou não, se ele tinha condições de memorizar tudo ou não. "Quando eu falo, a primeira pessoa que está me ouvindo sou eu mesma", chama a atenção.

As visitas virtuais, sob esse prisma, eram oportunidades de, ao escutar a própria voz, a pessoa se reconectar consigo, com os seus sentimentos, desejos e temores, o que é fundamental para a saúde mental.

Assim, encontre alguém para conversar sobre o que lhe aflige. E, se não for possível, fale mesmo assim — com as paredes, com os seus botões. Solte a voz e escute o que ela lhe diz sobre as suas emoções. Não as cale.

Não tente enfrentar tudo sozinho

Não há nada de heroico nisso. "A pandemia veio para resgatar a importância do trabalho em equipe", observa Juliana Batista "Isso não significa a ilusão de que, em todos os lugares, as pessoas trabalhem lado a lado super bem e que sejam muito unidas. Nada disso. Existem dificuldades, mas não dá para alguém superar uma crise séria, como a da covid-19, sozinho.

Nesse ponto, o que vale dentro da UTI vale fora dela. Procure ajuda, seja para resolver coisas práticas do dia a dia, seja para sair de um estado emocionalmente mais delicado. Essa pandemia é um tsunami na vida de todos. Respeite a sua força e não tente enfrentar as dificuldades que ela vem lhe impondo de maneira solitária.

Não deixe para se cuidar depois

É preciso aprender a se cuidar — e na hora certa. "Pelos relatos, aqueles que deixaram para fazer isso depois, alegando para si próprios que estavam mergulhados no atendimento aos pacientes, adoeceram e precisaram ser afastados em função do esgotamento", nota Juliana Batista.

Para ela, cada indivíduo deve encontrar o caminho que mais funciona em seu caso — para uns pode ser meditar, para outros fazer análise ou uma atividade física. As possibilidades são diversas.

"Às vezes, pode ser apenas se dedicar a algo muito sutil no cotidiano, mas que lhe faça bem. Isso porque o próprio distanciamento social, mesmo nos dias atuais, ainda nos impede de fazer algumas coisas", reconhece a psicóloga. "Sem contar que, de fato, o tempo das pessoas parece ser outro, mesmo fora das UTIs. Mas o que fica evidente é que insistir em produzir sem se cuidar durante uma crise dessas tem um preço. E ele costuma ser elevado." Ou seja, nada de esperar isso tudo passar para buscar algo para cuidar de si próprio. Muito pelo contrário.

O registro deste momento

Por fim, insisto, a leitura dos textos criados por profissionais na linha de frente é agridoce — fundamental para quem é da área, mas talvez alguns, que não trabalham com saúde, achem difícil encarar essas linhas, ao menos por enquanto, por mais que sejam impregnadas de ternura.

O que fica como epílogo são os agradecimentos que Juliana recebeu dos trinta autores convidados. Colocar no papel e materializar a experiência lhes trouxe um certo alívio. Pense nisso você também. Talvez ajude. Como escreve Juliana logo na primeira folha, "você é uma história bonita no meio da dor de alguém."