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Blog da Lúcia Helena

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Quando a barriga vive reclamando e nenhum exame conta o porquê

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do VivaBem

24/09/2021 04h00

A sensação pode ser de fisgada, cólicas insuportáveis, aquela ardência danada no ventre. Já outros garantem que uma simples azeitona cai atravessada em seu estômago, como se fosse uma feijoada completa. Tudo o que engolem pesa um bocado.

Existe, ainda, quem tenha vontade de soltar gases a todo instante. Ou que, mesmo sem notar a barriga borbulhando, fica com a impressão de que ela quer explodir o cinto após as refeições, de tão estufada. Sem contar aqueles que não fazem o "número 2" regularmente ou que, ao contrário, correm com frequência ao banheiro por causa do intestino solto.

"É mais simples entender quando alguém se queixa de uma dor que não passa ou de um desconforto abdominal crônico se há uma causa orgânica clara por trás, como uma úlcera ou um tumor", observa o professor Décio Chinzon, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e atual presidente da Federação Brasileira de Gastroenterologia. "Afinal, você faz um exame e o motivo está lá para qualquer um ver", justifica.

No entanto, de 10% a 20% dos brasileiros sofrem de alguma das doenças funcionais do aparelho digestivo. "Aí é diferente, porque elas não têm uma causa capaz de aparecer", complementa a gastroenterologista Maria do Carmo Friche Passos, professora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). "A pessoa pode fazer endoscopia, tomografia, o que for. Os resultados serão normais ou, se houver uma alteração qualquer, ela não parecerá suficiente para justificar os sintomas."

Mais fácil falar que o sujeito está supervalorizando um mal-estar no abdome. Mas acredite: o problema existe, é bem real. Dói ou incomoda de verdade. Não está na cabeça das pessoas, como já se achou no passado, quando até mesmo os médicos falavam em gastrite nervosa ou em colite nervosa.

Em 1990, especialistas do mundo inteiro se reuniram na capital italiana e criaram o Consenso de Roma, o qual descreve diversos distúrbios que envolvem mudanças na motilidade (movimentos feitos de forma autônoma por algum órgão, como os do intestino) ou na sensibilidade de algum trecho, por assim dizer, do aparelho digestivo.

A versão atualizada do consenso lista nada menos do que 32 dessas doenças funcionais. "E elas vêm se tornando cada vez mais prevalentes, provavelmente por causa da má alimentação, do excesso de álcool e do estresse, mais presente no nosso dia a dia, entre outros fatores", nota Décio Chinzon.

Como saber qual é o problema

São, de fato, diversos fatores por trás e entrelaçados, que vão de reações imunológicas desencadeando inflamações a problemas de comunicação entre o sistema nervoso central e os órgãos do aparelho digestivo, passando pela ação de hormônios, por um desequilíbrio — ou disbiose, como dizem os médicos — das bactérias intestinais e por uma mucosa mais vulnerável por natureza.

Será que a cabeça, então, não conta nada? "Claro que sim", diz Chinzon. "O excesso de tensão emocional libera hormônios e neurotransmissores capazes de influenciar até na força de contração do intestino. Mas não é só isso. Há muita coisa acontecendo na intimidade do aparelho digestivo e, por ele ser tremendamente inervado, a dor e outras sensações desagradáveis quase sempre aparecem nesses distúrbios."

Os médicos avisam: não é em uma consulta de 15 minutos que se descobre qual é a questão e, consequentemente, a melhor maneira de tratá-la. Aliás, nem sequer é qualquer médico que consegue ajudar pra valer. "O profissional precisa conhecer profundamente as tais doenças funcionais para saber o que está procurando", justifica Chinzon. Como ainda não existe especialização nesse tipo de problema, o jeito é observar como é a abordagem do clínico no consultório.

O ideal é esse médico — após pedir exames para descartar algo orgânico e se certificar de que não há anemia, uma massa palpável na barriga, nem nada disso—, iniciar uma conversa demorada e cheia de perguntas, em que cada resposta contará bastante para ele excluir hipóteses: se dói, consegue apontar onde exatamente? Irradia para algum canto? É uma dor que queima ou é como se tudo se contorcesse? Ela já lhe acordou no meio da noite? Quando você come, o incômodo piora ou melhora? E quando evacua? Por aí vai.

Nesse bate-papo, uma questão é essencial: há quanto tempo persiste o mal-estar? "Se alguém chega com uma dor que começou no mês passado, dizendo que levantaram a suspeita de SII (síndrome do intestino irritável), vou logo dizendo que não tem nada a ver", conta a professora Passos. Isso porque só se crava o diagnóstico de qualquer distúrbio funcional quando os sintomas já duram seis meses ou mais.

Intestino, esse sofredor

Estima-se que, em 40% das consultas nos gastroenterologistas, as pessoas relatem dispepsia, a popular má digestão, provocando aquele empachamento no estômago. Outras doenças são mais raras, como a proctalgia anal, que deixa o sujeito surpreendido e urrando por causa de uma espécie de cãibra forte no ânus, que o martiriza sem escolher hora, nem local.

Bem mais frequente, porém, é a constipação funcional, quando a pessoa não só evacua menos vezes como, quando finalmente vai ao banheiro, tem a sensação de que o que foi fazer ali ficou incompleto. "As fezes podem sair a duras penas e segmentadas, como se fossem de cabritinho", descreve a professora Maria do Carmo.

Se essa prisão de ventre é acompanhada de dor, então a doença é outra — não é mais a constipação funcional e, sim, uma SII com constipação. E o mesmo vale para a diarreia. Sim, existe aquela que é funcional, quando a pessoa costuma evacuar fezes pastosas ou aquosas sem se contorcer por causa disso. E, de novo, se há dor, os médicos já falam em SII com diarreia.

Outra forma de SII é a mista. "Nela, em uma mesma semana o indivíduo pode ter períodos de prisão de ventre e de diarreia", conta a médica. Em todas as formas, o que se desconfia é que o cérebro está interferindo de modo errático na movimentação do intestino. "Em uma parcela dos pacientes, o padrão da microbiota também se encontra claramente alterado", diz Maria do Carmo.

E podem pesar os fatores emocionais. Segundo a professora, alguns trabalhos associam eventos estressantes na primeira infância à ocorrência de um intestino irritadiço.

Finalmente, há uma forma de SII que é chamada de pós-infecção. "A pessoa tem um mal-estar agudo, por causa de uma virose ou de alguma coisa que comeu. E esse episódio serve de estopim para, logo na sequência ou alguns dias depois, surgir um problema de comunicação entre o cérebro e o intestino, que não irá embora", conta a gastroenterologista.

Aliás, ela acredita que esse tipo de SII tende a aumentar agora. E acusa o bandido dos nossos tempos: o Sars-CoV 2. "Devemos lembrar que até 30% dos infectados por esse coronavírus manifestam sintomas digestivos, como vômitos e diarreias. Não duvido que uma parcela pequena deles evolua para a SII infecciosa."

Com o abdome estufado

A distensão abdominal é mais um dos males funcionais. Em uma de suas formas, a pessoa acha que está cheia de gases, mas, quando o médico vai olhar, seu abdome está plano — é uma espécie de erro de percepção do seu aparelho digestivo.

Em outra forma, porém, o aparelho digestivo realmente produz muitos gases. "Pode ser que ela engula ar demais ao falar", explica a professora Maria do Carmo. "Ou que masque muito chiclete ou, ainda, que faça suas refeições de uma maneira muito apressada", especula.

O tratamento sempre começa com mudanças na forma de se alimentar e até no cardápio, banindo alimentos capazes de alavancar a produção de puns, como feijões, brócolis, batata-doce. Para completar, os médicos receitam remédios, desde novíssimas moléculas antigases à clássica dimeticona, que nada mais faz do que juntar bolhinhas flutuando no interior do aparelho digestivo até que, unidas, formem uma bolha tão imensa que cai com o seu peso e, pronto, já era, soltou.

"O que não dá", diz a gastroenterologista, "é sair prescrevendo esse tipo de medicação antes de pesquisar uma eventual intolerância alimentar e até mesmo a doença celíaca" —que, sim, pode ser diagnosticada em adultos, inclusive em idosos, embora isso seja menos comum. Intolerâncias transformam qualquer intestino em fábrica de bolhas de ar.

Como é o tratamento

Não, não existe cura para uma barriga reclamona. Se bobear nos cuidados, ela vai se lamuriar de novo com gases, cólicas, empachamentos e tudo mais. No entanto, dá para controlar o problema. A atividade física faz parte do tratamento, por diminuir o estresse e ajudar na motilidade dos órgãos da digestão.

Os ajustes na alimentação são inevitáveis, mas nem sempre se acerta no cardápio de primeira. Maria do Carmo Passos dá o exemplo: "Eu posso recomendar um maior consumo de fibras para quem tem uma constipação intestinal. No entanto, se essa pessoa também sofre de muita distensão, a pedida irá piorar esse outro quadro".

Ah, sim, como conta o professor Chinzon: "O aparelho digestivo é um grande tubo e o que afeta uma parte dele acaba interferindo em outra". Ou seja, não é raro alguém ter SII e dispepsia. Ou distensão e prisão de ventre funcional. Dois distúrbios ao mesmo tempo.

As intolerâncias, como à lactose ou ao glúten, se forem confirmadas, deverão ser tratadas. Os médicos também solicitam um teste em que a pessoa sopra em um aparelho depois de engolir uma solução cheia de açúcares, prato cheio para as bactérias fermentarem. Pela quantidade de hidrogênio expirada dá para inferir se não há um crescimento excessivo delas no intestino delgado, causando parte da confusão.

Existem pacientes que vão precisar de antidepressivos. E não por qualquer tristeza: "Eles ajudam a modular a conversa do cérebro com o intestino", explica a médica. O tratamento, enfim, é sempre individualizado. Uma das partes mais efetivas dele é encontrar alguém que diga: sim, você tem uma doença, mesmo que nenhum exame a revele. Só de ouvir isso, muita gente já sente um primeiro alívio na barriga.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL