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Blog da Lúcia Helena

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que pode mudar no check-up de quem teve um quadro leve de covid-19

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

23/09/2021 04h00

No dia a dia, um cansaço enorme. Na hora de treinar, aquele tempo correndo na esteira já não é o mesmo, porque o fôlego parece terminar antes da hora programada para encerrar o treino. A memória, vira e volta, também deixa o sujeito na mão. Isso sem contar o olfato — que, para alguns, demora a voltar —, a eventual sensação de o peito acelerar do nada, os desarranjos intestinais frequentes, os problemas de pele pipocando aqui e ali, a queda de cabelos, as dores de cabeça e pelo corpo.

Os sintomas são muito variados, sutis muitas vezes. E essa diversidade é um dos motivos por que os especialistas falam em uma síndrome. Sim, uma síndrome pós-covid ou covid longa ou, ainda, covid persistente. Esses são nomes para o conjunto de manifestações clínicas de algumas das pessoas que tiveram a experiência de pegar o Sars-CoV 2.

Hoje já se sabe que elas podem surgir entre dois ou seis meses após a doença em 30% a 40% dos indivíduos — não é pouca gente! —, inclusive naqueles que aparentemente nem ficaram doentes pra valer porque tiveram um quadro assintomático da infecção.

Até o momento, não existe uma relação assim tão clara entre a ocorrência desse fenômeno e a gravidade da covid-19, comparando apenas aqueles sujeitos que não precisaram de UTI — entre estes que foram hospitalizados em estado grave, as sequelas são mais esperadas mesmo.

Mas, na turma que ficou em casa — incluindo aqueles que descobriram a covid-19 só porque foram testados por um motivo qualquer e que nunca sentiram nada —, com relativa frequência os exames apontam problemas surgidos após a passagem, ainda que silenciosa, do vírus. Um exemplo é a miocardite, a inflamação do músculo cardíaco, provocada pela infecção.

"Por causa de alguns sintomas da covid longa, muita gente passou a procurar exames para ver se o que estava sentindo não era apenas coisa da sua cabeça", nota a cardiologista Paola Smanio, médica do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, em São Paulo, e também gestora do Centro de Diagnóstico e Núcleo de Segurança do Paciente do Grupo Fleury.

Mas a questão era: os exames que normalmente são pedidos em check-up bastariam? "Notamos que, muitas vezes, não", conta a a cardiologista. "O ideal seria a pessoa passar por uma consulta para que o médico, ao ouvir o que ela sente, solicite exames específicos para o seu caso, montando um check-up sob medida."

Segundo ela, no Fleury, devido à demanda crescente, eles passaram a oferecer esse serviço e, mais do que isso, implementaram uma série de encontros para especialistas que não necessariamente estiveram na linha de frente e que, agora, querem saber o que podem fazer para investigar as queixas desse admirável mundo novo pós-covid.

Para a doutora Paola, todo mundo que teve a doença, sintomática ou não, deveria procurar um médico três meses após o final da infecção. Mas avisa, de antemão, que não dá para sair pedindo tudo o quanto é teste. Seria loucura. "A necessidade de exames vai depender não só do relato de sintomas, como da idade, das eventuais comorbidades e se a covid-19 foi mais leve ou moderada", explica.

Quando a covid-19 foi grave e a pessoa precisou ir para o hospital, podemos imaginar que, ao receber alta, ela tenha sido orientada a fazer um acompanhamento. "Nesse sentido, o problema maior é com aquele paciente que, porque estava bem e mal sentiu alguma coisa, ou porque é jovem e saudável, acha que não deve acontecer nada de errado. Infelizmente, em quase um terço dos casos isso não é verdade."

Especialmente antes de fazer exercício

Sabe aquela ficha que você assina ao entrar na academia, atestando que a sua saúde vai bem, obrigada, e que está apto a treinar? Pois nada de pegar na caneta se, de fato, não tiver feito exames. A recomendação valeria, claro, em qualquer época. Só que, em tempos de pandemia, começar a se exercitar sem olhar para o estado de saúde pode ser ainda mais perigoso.

"Na fase aguda da infecção, podem existir alterações de plaquetas e de linfócitos no sangue. Então, as diretrizes recomendam que, antes de voltar à atividade física, a pessoa faça um hemograma simples para checar se tudo voltou ao normal, mesmo que ela não seja atleta e só queira frequentar a academia perto de casa", explica a médica.

No sangue, também deveriam ser dosados os níveis de uma molécula chamada dímero D, envolvida na coagulação sanguínea, e de outra que os médicos chamam de PCR. Sim, é a mesma sigla, por coincidência, do famoso exame para flagrar a presença do Sars-CoV 2. Mas, no caso, ela significa proteína C reativa, molécula que dedura inflamações pelo organismo.

"Se há um desequilíbrio entre elas, como um dímero D muito elevado e um nível de PCR baixo, sabemos que há um risco maior de formação de pequenos coágulos, capazes até de irem parar em órgãos vitais", explica Paola Smanio. "Essa pessoa, então, não deverá se exercitar e, sim, procurar um cardiologista ou um hematologista."

Para todos, o eletrocardiograma é obrigatório, a fim de flagrar, diz a médica, eventuais alterações no ritmo cardíaco após a passagem do vírus. "Há casos em que os jovens sentem que o fôlego está mais curto se aceleram o passo na rua, mas atribuem isso ao cansaço ou até ao sedentarismo do período de maior distanciamento social, sem associar à covid-19." No entanto, é importante afastar a hipótese de ser mais um efeito da passagem do vírus.

Já se a ideia é praticar atividade física com maior intensidade, as recomendações incluem o ecocardiograma e, importante, o teste cardiopulmonar, que verifica a reserva respiratória nos pulmões durante o esforço.

"Este é um exame que ajuda bastante", opina a douta Paola. "Primeiro, porque a gente vê, conforme a faixa etária do indivíduo, se a falta de folêgo nos momentos de exercício mais intenso é normal para a sua faixa de idade ou se há algo realmente de errado, além do sedentarismo. Segundo, quando há de fato algo de errado, conseguimos distinguir se é no coração ou nos pulmões."

Andar por seis minutos

O infectologista Celso Granato, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e diretor médico do mesmo Grupo Fleury, lembra que existem maneiras mais simples de alguém suspeitar o risco.

"Há um exame clássico, em que mandamos a pessoa andar durante seis minutos cronometrados. Claro, isso pode ser feito na esteira de um laboratório. Mas o médico também pode pedir para o paciente dar uma volta no quarteirão em passadas um pouco mais aceleradas e retornar em seguida à consulta contando como se sentiu", diz ele. "Não é esperado que alguém de 30, 35 anos se canse só ao fazer isso, o que acenderia a lâmpada amarela."

O professor Celso Granato chama atenção para o seguinte: o Sars-CoV 2 é um vírus com predileção pelo endotélio, as delicadas camadas de células que revestem todas as nossas veias e artérias "O endotélio é um dos maiores tecidos do nosso corpo. Afinal, não existe um lugar sequer do nosso organismo que não seja irrigado por vasos sanguíneos", lembra.

O check-up deveria incluir a sorologia para a covid-19?

Para o infectologista, na situação específica em que pessoa está notando algo diferente e não sabe se teve a infecção no passado, isso é essencial. "Existem problemas em que essa informação nos faz descartar uma série de outras causas suspeitas", justifica.

Um exemplo é a queda de cabelos. Ela vem acontecendo em 20% dos homens e das mulheres que pegaram o Sars-CoV 2, iniciando algumas semanas após a infecção — de novo, mesmo nos casos assintomáticos. "Confirmar a possibilidade de ter sido o vírus pode fazer o dermatologista mudar a conduta para tratar o problema", diz o médico.

Pergunto se, nessa altura, com a vacinação em andamento no país, o teste solorológico não faria confusão, já que mede os anticorpos. "Há dois métodos de fazer a solorologia", ele responde. "Em um deles, medimos anticorpos que miram proteínas localizadas, digamos, no miolinho do vírus", explica. "E a maioria das vacinas gera anticorpos que têm como alvo a famosa proteína S, no invólucro do Sars-Cov 2. Ou seja, se eu tenho moléculas de defesa no sangue contra aquelas outras proteínas, que não estão na superfície viral, é alta a probabilidade de eu ter sido infectado pra valer."

A dúvida, às vezes, é com quem tomou a CoronaVac. A vacina do Butantan pode estimular a produção de anticorpos contra essas outras proteínas, já que usa o vírus inteiro inativado. "Verdade", reconhece Celso Granato. "Mas aí devemos perguntar há quanto tempo a pessoa se vacinou. Se a dosagem desses anticorpos está alta, apesar de terem se passado muitos meses, novamente vamos suspeitar de que ela teve a covid-19."

O fato é que esse vírus passa que nem o sopro do Lobo Mau sobre a casa dos três porquinhos da história infantil. Somos a casa. Alguns ficam de pé. Outros, danificados. E outros, ainda, completamente tombados. Não importa se notamos a presença do lobo se aproximando ou não. Bom correr para ver o que sua passagem fez em cada um de nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL