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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

A hanseníase não pode ficar sob o tapete: ela é comum e passa pelo ar

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

07/09/2021 04h00

Comparar o sofrimento provocado por duas doenças é algo impreciso, pois só quem sofre na própria pele conhece o tamanho exato de uma dor. No entanto, se me perguntar o que a hanseníase teria em comum com a covid-19, eu de cara responderia o óbvio, que são duas infecções respiratórias, transmitidas pelo ar.

Outra semelhança: ambas colocam o Brasil entre os primeiros colocados no ranking global de casos. No que diz respeito à hanseníase, ocupamos o segundo lugar em prevalência, isto é, em número de pessoas acometidas pela doença. Só perdemos para a Índia.

Mas, se pensarmos na quantidade de novos pacientes a cada ano, aí já tomamos a dianteira e ficamos com o primeiríssimo posto. São cerca 30 mil brasileiros diagnosticados com hanseníase anualmente e, acredite, o contingente infectado deve ser até bem maior. Isso porque aí está um problema que confunde todo mundo, médicos e pacientes, com seus sintomas tão inespecíficos, desses que o sujeito mal sabe explicar o que sente e, por isso mesmo, acha que é coisa da sua cabeça e acaba deixando pra lá.

Tanto que a tristeza maior é a seguinte: quando descobre o que tem, aproximadamente metade de pessoas já apresenta sequelas. Podem ser lesões de pele ou, talvez, mãos que se enrijecem em garra ou, ainda, pés que parecem não dar mais suas passadas direito.

Porém, uma minoria dos infectados pela Mycobacterium leprae — ou precisamente 10% é que vai manifestar a doença. Para a maior parte dos indivíduos, o sistema imune consegue se livrar dessa bactéria sem dificuldade. É a sua imagem que ilustra esta coluna, comprida e delgada, em forma de bastonete — enfim, um bacilo. E esse bacilo não tem nada de novo. É conhecido desde tempos bíblicos como o causador da lepra, nome que carrega tanto preconceito que foi riscado e substituído. Não adiantou muito.

"As pessoas acham que a doença não existe mais. E esse engano leva à ignorância", resume a dermatologista e hansenóloga Laila de Laguiche, presidente do Instituto Aliança contra Hanseníase.

Assim, muita gente desconhece que a hanseníase tem tratamento, o qual é oferecido pelo SUS. Acima de tudo, não sabe que, a partir da primeiríssima dose de um combo de três antibióticos — a chamada poliquimioterapia —, quem estava contaminado deixa de transmitir o bacilo.

Portanto, um adulto precisar esconder sua condição ou uma criança em tratamento ser impedida de brincar com seus amiguinhos, nada disso tem fundamento.

Como alguém se contamina

O bacilo de Hansen costuma ser transmitido entre pessoas próximas — gente da mesma família convivendo sob o mesmo teto, vizinhos com os quais você encontra o tempo todo, colegas de escola ou de trabalho, por exemplo.

É difícil imaginar um indivíduo contraindo a hanseníase de um estranho que cruzou em seu caminho na rua. "Para ser infectado, o contato deve ser longo", justifica a doutora Laila. "É preciso conviver 20 horas ou mais por semana com um portador do bacilo."

Mas, quando é assim, a pessoa é considerada um contato. No mundo ideal, a cada seis meses ou a cada ano ela seria examinada para saber se, por azar, contraiu o bacilo de Hansen, fazendo parte daqueles 10% que irão desenvolver a doença. Pode ser que, no início, a bactéria não seja flagrada.

"O que dificulta é o tempo de incubação, que pode ser de cinco a dez anos", conta a médica, que se interessou pela infecção quando ainda estudava Medicina e que, depois, fez pós-graduação no Instituto de Medicina Tropical da Antuérpia, na Bélgica. De volta ao Brasil em 2014, tirou o título de hansenóloga e, em 2019, criou o instituto, que acompanha de perto apesar de viver na Suiça.

Segundo Laila de Laguiche, uma vez que contamina alguém, o bacilo começa a se multiplicar desde o primeiro instante. A questão é que ele é um tipinho lerdo demais. "Só para se dividir em dois, leva 14 dias", calcula. Mas o tempo todo está lá, crescendo em câmara lenta — inclusive na mucosa do nariz, de onde escapa, viajando pelo ar.

Aliás, justamente porque o bacilo cresce ali, há pacientes que acabam como uma perfuração de septo nasal. "Aí, sem sustentação, é como se o nariz desabasse", descreve a doutora Laila. Mas a predileção desse tipinho é mesmo outra: os nervos periféricos. É neles que causa estragos.

Os primeiros sintomas

Na medida em que o bacilo avança, minando os nervos em seu ritmo vagaroso, a pessoa começa a ter uma sensação estranha em uma pequena área da pele. "É como se fosse uma ilha anestesiada. Primeiro, ela não sente mais qualquer diferença de temperatura. Depois, nem mesmo tato ou dor."

Em tese, essa "ilha" pode aparecer em qualquer parte do corpo, mas a bactéria gosta de atacar regiões mais frias, como mãos, pés, coxas e nádegas. E, às vezes, o indivíduo só nota que, nessa área, os pelos não se arrepiam mais — é quando o bacilo destruiu os nervos que os deixariam eriçados.

"Existem ainda pacientes que, no início, apenas têm dores articulares e cãibras noturnas", diz a doutora Laila. "Apesar da prevalência alta de hanseníase no Brasil, dificilmente passa pela cabeça de um médico que essa infecção pode estar por trás de sintomas assim."

Em geral, a suspeita vem à tona só quando surgem lesões esbranquiçadas ou avermelhadas. "E, nesse ponto, cerca de 30% dos nervos periféricos já foram destruídos", lamenta a dermatologista.

A bactéria não faz o dedo cair

Imagens assim, grotescas e equivocadas, vêm do passado. "Ocorre que, se a pessoa perde a sensibilidade, ela acaba se machucando feio sem se dar conta. Pode caminhar o dia inteiro com uma pedra no sapato, ferindo os pés", exemplifica a doutora Laila.

Do mesmo modo, o doente pode não sentir um cisco no olho até ele lesionar a córnea e causar cegueira. Diga-se: alguns pacientes com hanseníase, por causa da destruição dos nervos pelo bacilo, não fecham os olhos direito e são orientados a usar máscaras para dormir, pingando colírio específico para lubrificar e proteger o globo ocular.

Um novo teste de diagnóstico

Recentemente, o laboratório brasileiro Mobius Life Science, com sede no Paraná, lançou no país um teste de PCR desenvolvido na Alemanha. Ele é capaz de, em apenas 24 horas, apontar se um indivíduo carrega a bactéria da hanseníase. Não é barato, nem é o único a flagrar o material genético do bacilo, cá entre nós. A Fiocruz também já criou um teste de PCR para acusar essa infecção.

A vantagem dos testes moleculares em relação aos métodos tradicionais de diagnóstico é a rapidez. "Ora, até fazer um exame para checar se tem hanseníase, a pessoa já perdeu bastante tempo. Em média, ficou dois anos buscando entender sua queixa, passando por cinco a oito médicos nesse período", conta a doutora.

Antes, os especialistas dispunham da biópsia, tingindo uma pequenina amostra de 3 a 4 milímetros de pele com um corante especial, o qual entregaria a eventual presença do bacilo. "Mas nem sempre isso acontece", avisa a hansenóloga.

A alternativa, se os sintomas continuassem se agravando, seria inocular essa amostrinha de pele em uma espécie determinada de camundongo de laboratório, só encontrada no Instituto Lauro Souza Lima, em Bauru, no interior paulista. "Mas, no caso, a gente precisa esperar vários meses, lembrando que o bacilo é bem lento, para ver se os animais desenvolvem a lesão de pele, o que confirmaria o diagnóstico." Enfim, com o PCR, o ganho de tempo é precioso.

Podemos falar em cura?

"Sem dúvida, os antibióticos podem matar o bacilo e estancar o avanço da doença", diz a hansenóloga. "Apesar de que, em 10% a 18% dos casos, como esses remédios vêm sendo dados há mais de quarenta anos, já encontramos bactérias resistentes à sua ação."

Vale notar: de acordo com a médica, a vantagem do novo teste produzido pela empresa paranaense é já indicar se aquele paciente apresenta bactérias que deixaram de responder tão bem ao tratamento.

O uso dos medicamentos pode se estender por seis meses, naqueles casos em que a pessoa apresenta uma quantidade pequena de bacilos, ou até por 12, 24 meses, se o número de bactérias for maior. Mas, para a doutora Laila, precisamos rever o conceito de cura em um cenário onde o causador da hanseníase só é liquidado depois de ter arrasado os nervos de metade de suas vítimas — e, uma vez danificados, eles não se regeneram, devo lhes dizer.

"Se tenho um paciente que já perdeu a força das mãos, posso prescrever uma reabilitação a fim de ensiná-lo a recrutar outros músculos ao movimentá-las. Compensa um pouco", exemplifica. "Mas, se o indivíduo já ficou com uma mão em garra, ele muitas vezes mal segura um sabonete no banho", lamenta informar.

O instituto criado por ela, o qual não tem fins lucrativos, agora se empenha em uma ação, batizada de TECHansen, para doar equipamentos capazes de ajudar pacientes com sequelas no dia a dia, como luvas térmicas para serem usadas na cozinha, já que muitos se queimam sem perceber.

"Quanto maior a espera para iniciar o tratamento, maior o risco de coisas assim acontecerem", não se cansa de frisar a hansenóloga. O jeito para diminuir a perda de tempo é tornar a hanseníase conhecida por todos. Não faz sentido esconder um problema tão grande entre nós.