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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Até quem não tem diabetes sente medo de insulina, mas vem novidade por aí

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

29/07/2021 04h00

Apesar de centenária — na última terça-feira (27), a sua descoberta completou 100 anos —, algo não mudou passado todo esse tempo: as pessoas não gostam nadinha da ideia de tomar insulina. Não enxergam que, graças ela, boa parte dos 17 milhões de brasileiros com diabetes vive bem, obrigada, para contar essa história.

Ainda em 2018, o endocrinologista Carlos Eduardo Barra Couri, pesquisador da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, e um dos pioneiros na pesquisa de células-tronco para tratar diabetes, foi curador de uma pesquisa com mais de 1 mil brasileiros. Pois bem: quando indagados do que tinham medo quando pensavam em diabetes, a maioria cravou a resposta de que temiam as eventuais sequelas da doença. Mas 24% tinham muito mais receio de, um dia, precisarem de insulina, enquanto para outros 21% o principal temor seria morrer. "É uma loucura ver que o medo da insulina era maior até do que o da morte, inclusive entre os participantes que nem tinham diabetes", diz Couri.

Por que tanto medo

O fato de ser um hormônio injetável é uma inegável barreira. "Ninguém gosta de uma picada obrigatória", observa Couri. Uma, não! Várias, doutor.

O risco de hipoglicemia é outro ponto que apavora. Todo mundo já ouviu o caso de alguém que injetou um pouco a mais de insulina ou fez exercício sem calculá-la direito e passou mal, ficando tonto, pálido, confuso e tremendo, até cair de maduro. Tudo por ter ficado sem glicose suficiente na corrente sanguínea.

Há, ainda, o medo de o hormônio aumentar o risco de doenças como o câncer, o que não tem cabimento. E há quem ache que a insulina faz engordar. "Aí, as pessoas se esquecem que ela é um hormônio anabolizante. Ou seja, faz o papel de um construtor que pega tijolos de aminoácidos e monta proteínas ou junta pedacinhos de ácidos ácidos graxos para criar uma molécula de gordura", esclarece Couri. "Ora, se o médico receitou insulina só quando o diabetes já estava bem descompensado, provavelmente o organismo daquele paciente tinha devorado seus músculos para obter energia. Com a entrada do hormônio, isso se reverterá e ele então ganhará peso, o que será até bem-vindo."

Mas vamos deixar claro, também, que o uso de insulina não é um liberou-geral para comer de tudo sempre, na quantidade que o sujeito desejar. Com o excesso de calorias, a insulina vai montar gordura na certa. E, nesse caso, a dieta desequilibrada será a principal responsável e não a substância por si.

O que faz o hormônio

A gente sempre ouve a história de que a insulina coloca a glicose que estava dando sopa na circulação para dentro das células — que, sem ela, morreriam de fome, mesmo em meio à fartura do nutriente no sangue. "No entanto, justamente por ser um hormônio anabolizante, proteínas e gorduras — e não só os carboidratos das massas e das sobremesas —, também estimulam sua produção", ensina Couri. "A sorte é que um pâncreas saudável sabe o que faz."

A glândula secreta insulina de maneira automática, usando sensores para ajustar na dose a cada instante. "E boa parte dessa produção passa logo pelo fígado e fica por ali mesmo", conta o médico. A insulina ajuda esse órgão a acumular reservas de açúcar, transformando a glicose em moléculas de glicogênio. "Na verdade, ela faz isso com aminoácidos e gorduras também", informa Couri.

Graças a esse estoque, ninguém morre enquanto dorme: as células continuam abastecidas 24 horas por dia. "Assim como ninguém morre fazendo greve de fome. Ou melhor, pode morrer desidratado de sede, mas não por faltar glicose para o organismo funcionar", explica o médico.

Segundo ele, o desafio é que, ao ser injetada sob a pele por canetinhas, bombas ou até mesmo ao ser inalada — sim, já existe a insulina inalável — , é preciso uma dose muito maior do hormônio. Isso porque uma parte dele se perde no caminho até alcançar a corrente sanguínea. E não adiantaria dar menos, porque, no sangue, ele precisaria estar na mesma quantidade que seria secretada com precisão pelo pâncreas.

Só que, sem dúvida, a dose extra é capaz de aumentar o risco das temidas hipoglicemias. E também de a pessoa ganhar peso, até porque a insulina a mais tende a se ligar em receptores de um hormônio do crescimento, o IGF-1. O "i" do nome vem justamente de "insulin-like", algo como "parecido com insulina". Uma vez ligada nesses receptores, sua ação anabolizante é intensificada.

A verdadeira vantagem da insulina oral

A vantagem de se engolir um comprimido de insulina em vez de injetá-la ou inalá-la seria não deixar nada disso acontecer, aliviando o risco de ganho de peso e de quedas bruscas da glicose na circulação.

"Muita gente se entusiasma com a insulina oral por causa da possibilidade de eliminar as picadas, mas essa não é a melhor parte da novidade", garante Couri, que abordou o tema no Endobate 2021, um dos principais eventos da área no país e que foi idealizado por ele."A grande sacada é que a insulina, ao entrar no organismo pelo aparelho digestivo, faz aquela primeira escala no fígado e, de maneira semelhante à fisiológica, boa parte dela fica retida nesse órgão, seguindo só um tiquinho para a circulação", descreve.

No encontro anual da ADA (American Diabetes Association), no mês passado, cientistas de uma empresa britânica apresentaram os resultados da fase 2 de testes em seres humanos de uma insulina encapsulada de tal maneira que não é digerida no estômago como qualquer proteína — este, aliás, sempre foi o obstáculo ao seu surgimento. "Eles usaram comprimidos com três doses diferentes durante as refeições e os resultados foram espetaculares", conta Couri.

Para barrar o diabetes tipo 1

Realizado em pacientes com diagnóstico recente de diabetes tipo 1 desde 2003, na USP de Ribeirão Preto, o transplante de células-tronco visa que elas, uma vez instaladas no pâncreas, se transformem em unidades produtoras de insulina, substituindo as originais, destruídas pelo sistema imunológico.

O grupo do doutor Couri conseguiu eliminar a necessidade de repor insulina em 91% dos 25 pacientes tratados desse jeito, por um período que variou de seis meses a 14 anos. Mas será que, usando uma quimioterapia ainda mais forte para zerar o sistema imunológico que estava atacando o pâncreas — e, desse modo, incrementar a chance de surgirem células de defesa sem essa vocação para o auto-ataque —, isso melhoraria ainda mais o resultado do transplante de células-tronco? É o que o grupo estuda com mais 38 pacientes.

Consegui, porém, arrancar o spoiler de outro estudo, o Pré 1 Brasil. "Nas pesquisas com o transplante, testamos um medicamento chamado alogliptina naqueles pacientes que, depois de três, quatro, cinco anos sem precisarem usar insulina, voltaram a necessitar de sua aplicação ", explicou Couri. "Baseados em dados da literatura científica, queríamos ver se esse quadro se reverteria. E deu certo."

Agora, no Pré-1 Brasil, ele e médicos do país inteiro testarão a droga em jovens com pré-diabetes, quando a glicemia ainda está à beira do diabetes do tipo 1 pra valer e os anticorpos dão sinais de que, logo mais, atacarão tanto o pâncreas que a glicose sanguínea subirá de vez.

A alogliptina é um imunomodulador leve, que impede parcialmente essa agressão. Além disso, estimula a produção de insulina e controla o glucagon, hormônio que liberaria o açúcar reservado no fígado para o sangue. "É razoável pensar que essa estratégia possa funcionar nos pré-diabéticos", aposta Couri.

Implantes sob a pele e o pâncreas artificial

O tão esperado pâncreas artificial está para estourar a qualquer momento, já que pelo menos quatro empresas estão na fase final de seu desenvolvimento. Será um dispositivo capaz de avaliar a glicemia ininterruptamente, entregando insulina necessária a cada momento, como acontece em um organismo sem diabetes.

Paralelamente, outra esperança é a do implante de pequenas cápsulas sob a pele. Elas seriam como ilhotas de Langerhans — as unidades produtoras de insulina do pâncreas. "O médico faz uma pequena incisão para o implante, que basta suturar com dois pontinhos", diz Couri, no tom entusiasmado de sempre. "Resta saber quantos implantes serão necessários e de quanto em quanto tempo deverão ser trocados."

Mas, veja bem, nenhuma dessas novidades — implantes, transplantes, pâncreas artificial, remédios e novas vias de administração — tiram de cena a aniversariante desta semana. A insulina sempre será protagonista — e não apenas para os portadores de diabetes, óbvio. "Sem ela, quem se queixa hoje de ainda precisar injetá-la nem estaria aqui para reclamar, uai", brinca Couri, com seu jeito mineiro.