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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

A tomografia comum de tórax poderá contar se o seu coração está em risco

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

15/07/2021 04h00

É em um pontinho milimétrico e calcificado na parede de um vaso sanguíneo que pode começar uma encrenca sem tamanho, capaz de levar embora a vida do cidadão. Especialmente se esse vaso for uma das coronárias, artérias que irrigam e abastecem de oxigênio o próprio músculo cardíaco.

Agora imagine se uma tomografia de tórax — exame que foi feito aos milhões nestes tempos de covid-19 para checar o estado dos pulmões — pudesse avisar que seria uma boa ideia aquele indivíduo procurar um cardiologista por causa de uns 100 ou mais microscópicos pontos endurecidos em suas coronárias. E isto muito antes, claro, de alguém precisar correr ao hospital, com o peito gritando por socorro.

Pois é essa a possibilidade que surge a partir de um estudo publicado na revista científica Nature, liderado por cientistas da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e que reuniu pesquisadores de diversos centros — entre eles, dois radiologistas da Dasa, uma das principais redes de saúde integrada do Brasil. Aliás, os médicos Marcelo Straus Takahashi e Felipe Kitamura são os únicos co-autores da América Latina do trabalho que, com a ajuda da inteligência artificial, apresenta um verdadeiro pulo-do-gato.

Usar um exame relativamente comum para flagrar placas recém-nascidas, antes de estreitarem nossas artérias, é algo que poderá fazer enorme diferença na prevenção das doenças cardiovasculares que, só no ano de 2019, mataram mais de 17,9 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde — praticamente um terço de todas as mortes do planeta até então.

Se examinar a situação, notará que a maior parte desses casos fatais foi infarto — quando o coração passa por um sufoco. Diversas substâncias foram se depositando nas coronárias, criando aos poucos uma placa que, no final da história, se tornou protuberante a ponto de obstruir a circulação sanguínea.

Então, a área do músculo que deixou de ser oxigenada acabou morrendo. Ora, se o pedaço morto é razoavelmente grande, o que sobra do coração não dá conta de seguir bombeando sangue para o resto do corpo. É o fim.

Mas nada precisa terminar desse jeito. "O ideal seria descobrir quem tem um risco aumentado de desenvolver essas placas nos vasos antes de ter a doença aterosclerótica instalada", observa Marcelo Straus Takahashi, especialista em inteligência artificial na Dasa. Em outras palavras, antes de o sangue ter dificuldade para fluir, quando provavelmente a pessoa já apresentará sintomas, como a angina ardendo no peito.

"Mas, e quem ainda não sente nada?", provoca o doutor Straus. Saber quem tem placa e nem desconfia é dar a oportunidade para que sejam tomadas todas as precauções. Largar o cigarro, no caso dos fumantes, e começar a praticar exercício físico com disciplina espartana são duas das mais importantes, ao lado da dieta equilibrada. "Em alguns casos, o cardiologista poderá prescrever anticoagulantes e estatinas para baixar os níveis de colesterol", acrescenta o médico.

O cálcio nos vasos

O colesterol é uma das matérias-primas das placas. Mas, se elas são duras, também contêm cálcio de montão. E esse é um mineral que a tomografia flagra com nitidez. "Tanto que é um exame ótimo se precisamos visualizar ossos, inclusive para buscar eventuais metástases de câncer", lembra o doutor Straus.

Ora, se a tomografia é tão boa para revelar tecidos calcificados e se esse mineral é abundante nas placas duras dos vasos sanguíneos, por que ninguém pensou nela antes? Se é a sua dúvida, saiba que existe uma tomografia específica para enxergar calcificações nas artérias — é o exame de escore de cálcio, só que ele não é tão acessível. É feito por uma parcela pequena da população, exige equipamento especial e um profissional muito treinado para analisar as imagens.

Por isso, os especialistas de Stanford queriam algo que ampliasse o número de pessoas com a chance de impedir a ameaça às coronárias. "E, ora, há uma quantidade infinitamente maior de tomografias de tórax do que de exames de escore de cálcio em todo o mundo", aponta o radiologista Felipe Kitamura, head de inovação da Dasa.

Qual seria a dificuldade então, já que o coração, instalado na caixa torácica, sempre aparece nessa tomo? Simples: ele se mexe o tempo inteiro. E se mexe depressa.

A imagem tremelicada das coronárias

O princípio da tomografia é sempre o mesmo. "Você entra na máquina e o equipamento faz vários raios-X, como se cada um deles fosse um corte", descreve o doutor Straus.

Mas imagine o que é fazer uma imagem atrás de outra quando se trata de um coração batendo feito um louco. "É como tentar fotografar alguém que, no instante do clique, sai correndo. O retrato fica borrado."

O exame de escore de cálcio, porém, dribla esse problema. Ele usa um tomógrafo especial, com um outro equipamento acoplado, capaz de monitorar os batimentos cardíacos como qualquer eletrocardiograma. "Mas, no caso, a sua função é informar o instante em que o coração está se mexendo um pouco menos", esclarece o doutor Straus.

Daí que o tomógrado faz uma imagem. Espera. O coração dá um sossego, provavelmente entre uma batida e outra, e ele gera outra imagem. Assim vai, até obter um conjunto de qualidade. "Como o que se quer ver são placas milimétricas, qualquer movimento mínimo já atrapalha bastante", garante o radiologista.

Essas imagens, então, param no computador de um especialista, que pacientemente examina quadradinho por quadradinho — ou melhor, pixel por pixel na tela. E, quando acha pontos calcificados em 100 ou mais deles, já sabe que aquele paciente tem um risco aumentado de doença coronária.

Inteligência artificial

Segundo o doutor Kitamura, o estudo liderado por seus colegas americanos teve duas fases — ele e o doutor Straus participaram só da segunda. Na primeira delas, os cientistas testaram um algoritmo nos exames de escore de cálcio.

Eles usaram a inteligência artificial para analisar as imagens sincronizadas com o eletrocardiograma e, depois, checaram se o resultado sugerido por esse modelo matemático era o mesmo daquele apontado pelo médico encarregado da contagem manual. Os números pareciam conferir. Era a prova de que o algoritmo poderia dar certo também na tomografia mais comum e acessível, a de tórax.

"Na segunda fase, selecionamos pacientes que tinham feito tanto o escore de cálcio para checar as coronárias quanto uma tomografia de tórax por outro motivo qualquer, como a suspeita de uma pneumonia", conta o doutor Kitamura. "E importante: não poderia ter passado muito tempo entre os dois exames para as placas não estarem muito diferentes."

A pergunta na cabeça de todos era se o algoritmo acusaria os pontos calcificados, mesmo com imagens tremidas. "Sabíamos que ele poderia dizer quem tinha e quem não tinha calcificações. Isso não seria suficiente, porque colocaríamos no mesmo saco aquele indivíduo com um único ponto e outra pessoa com 150 deles", explica Marcelo Straus.

O algoritmo, no entanto, acertou em 90,6% das vezes quando afirmou, analisando as tomografias de tórax, que uma pessoa tinha um escore de cálcio maior do que 100. Portanto, apontou nove em cada dez pacientes com risco mais elevado de ter uma obstrução na coronária dali a um tempo. E, quando apontou um risco baixo, com um escore menor do que 100, teve praticamente o mesmo índice de acerto — 93%.

A tomografia de tórax será usada para isso?

Em alguns dos centros envolvidos no estudo, o resultado da tomografia de tórax já passou a revelar o escore de cálcio. "Aqui, isso ainda será implantado", informa o doutor Kitamura. O médico responsável pelo laudo, porém, sempre terá autonomia para omitir a informação, se achar que o paciente se mexeu demais dentro do túnel do tomógrafo, por exemplo, o que poderá criar falsos positivos.

E, como sua precisão ainda não alcança os 100%, a tomografia de tórax servirá como um alerta, sem substituir a de escore de cálcio, que até poderá ser solicitada para confirmar o resultado.

"Uma perspectiva fascinante, porém, é a de pegar as imagens de quem fez tomografia de tórax no último ano e meio e analisá-las com esse algoritmo para avisar os pacientes com escore maior do que 100", imagina o doutor Straus.

O aviso, no caso, seria na linha: "já pensou em visitar um cardiologista?". Se alguém um dia recebê-lo, não é para morrer de susto. Ao contrário. É para saber que está em tempo de fazer muita coisa para ter uma vida longa.