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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Benefícios da ivermectina?! Fique esperto na hora de interpretar um estudo

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

24/06/2021 04h00

Não se falou em outra coisa em grupos de WhatsApp, inclusive de médicos: eis que surgiu um estudo dizendo que a tão apedrejada ivermectina funcionaria para a covid-19.

O antiparasitário poderia "evitar muitas mortes pela doença e impedir o seu agravamento", afirmam os os autores, da Universidade Newcastle, no Reino Unido, encontrando um "grau de evidência moderado" nisso.

Aliás, eles usam e abusam de todas as palavras que os defensores da ciência, aqueles que sempre alvejaram o tratamento precoce, gostam de ler, como "revisão sistemática", "meta-análise", "estudos randomizados"... Logo nos parágrafos iniciais, leitores ingênuos se rendem.

Quem passar os olhos ligeiro enxergará que o trabalho compara nada menos do que 22 estudos sobre o uso da ivermectina, dos quais, somando tudo, participaram 2.438 pessoas, o que parece gente de montão.

No entanto, quem ler com calma e, melhor, conhecer como são as publicações científicas, vislumbrará detalhes que colocam os achados do estudo a perder.

"A segurança aparente e o baixo custo sugerem que a ivermectina é capaz de ter um impacto significativo na pandemia global de Sars-CoV-2", concluem os pesquisadores. Mas decididamente não será por causa desse artigo que ela será cogitada por médicos sérios para tratar a covid-19. A ivermectina continuará servindo apenas a parasitas — ouso pensar, de todas as espécies.

Um suco de laranja com frutas podres. Ou misturando maçãs

Uma meta-análise é, de fato, uma ferramenta e tanto. Os cientistas juntam diversos estudos que fizeram a mesma pergunta sobre determinado assunto, comparam as suas descobertas e, se todos chegaram ao mesmo veredicto, a tal da evidência científica ganha uma tremenda força.

Já quando não encontram uma concordância absoluta entre eles, a evidência é dita moderada — como foi afirmado nesse trabalho. E pode ser, ainda, que os estudos comparados atirem cada um para um lado. Então, a meta-análise conclui que a evidência sobre o tema é fraca ou inexistente.

"Ao organizar o que já foi estudado sobre uma hipótese qualquer — que, aqui, seria a da ivermectina agir contra o Sars-Cov-2 —, uma meta-análise pode viabilizar tomadas de decisão, como a de tratar ou não o paciente com um remédio", explica o professor Flavio Emery, coordenador da pós-graduação da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (USP).

Para José Davi Urbaez, que é consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia e presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, além de dar força de evidência a um resultado, tornando-o mais confiável inclusive pelo número maior de participantes, uma meta-análise traz clareza e robustez. "Afinal, nunca uma única pesquisa, isoladamente, esgota os aspectos de um tema", diz ele.

Desse modo, na meta-análise, a partir de uma certa uniformidade dos trabalhos reunidos, é como se um complementasse ligeiramente o outro — um feito com uma população um pouco mais velha e outro, com gente um pouco mais jovem, por exemplo.

Portanto, quem tem apreço por evidências científicas gosta de uma meta-análise. Mas desde que seja bem feita. Para isso, não basta seguir toda a receita. Deve-se ter os ingredientes certos e de qualidade. Ou é como querer um suco de laranja e espremer frutas podres. O resultado não será um bom refresco. Ou é como colocar uma maçã no meio. Aí, por mais que tenha o gosto cítrico, não confie que está bebendo um puro suco de laranja.

Foi o que aprendi com um dos médicos que ouvi — sim, porque ouvi outros tantos, cujos nomes não podem ser revelados porque as instituições onde trabalham não querem ser associadas, nem sequer em um simples comentário, a tratamentos contra a covid-19 sem qualquer comprovação.

As laranjas podres dessa meta-análise são estudos mal feitos. "Alguns têm evidência baixa e os autores britânicos até indicaram isso em uma tabela", observa o doutor Urbaez.

"Outros têm um número ínfimo de participantes", nota o professor Emery. "Não dá para considerar um bom estudo aquele que usou 24 pacientes e inclui-lo ao lado de outro com mais de 400 doentes, ignorando as diferenças de qualidade entre eles." Mas isso aconteceu.

A vitamina dessa meta-análise tão, tão positiva sobre a ivermectina também misturou laranjas e maçãs. Colocou no mesmo patamar trabalhos publicados e artigos no pre-print, Qualquer pessoa no mundo da saúde —médico, pesquisador ou reles jornalista da área — sabe muitíssimo bem que um trabalho na fase de pre-print talvez nunca passe disso, sendo recusado mais tarde pela revista por conter erros.

Finalmente, todos apontam que os 22 estudos comparados procuravam coisas incrivelmente diferentes. Um queria saber se a ivermectina estaria associada a menos mortes em pacientes graves. Outro indagava se a droga poderia ser boa para pacientes com quadros brandos. Sem uma pergunta clara, qualquer resposta serve.

Estômago não tem piolho!

Estranhei: os autores são gastroenterologistas. Não sei de nada contra a competência desses médicos em sua área. Mas foi um alívio notar que o infectologista José Davi Urbaez sentiu a mesma estranheza. "É claro que todas as pessoas estão interessadas na covid-19. Mas não me parece que gastros sejam os mais bem preparados para publicar algo sobre uma infecção respiratória, muito menos para analisar sua terapêutica", opina.

A ivermectina, só lembrando, é um remédio eficaz contra parasitas como piolhos. E, até que realmente alguém prove o contrário, tampouco para a covid-19.

A questão da revista

Revistas científicas têm o tal fator de impacto. "Ele é determinado pelo número de vezes que os trabalhos publicados nela são citados como referência em outros artigos científicos", ensina o professor Flávio Emery.

O American Journal of Therapeutics tem um fator de impacto baixinho, de 1,9. Isso o coloca na seguinte colocação no ranking das revistas científicas: 6.013.º lugar, a léguas de um New England Journal of Medicine ou de uma The Lancet, para ficar em dois exemplos de periódicos médicos no topo das citações e que vêm reservando um bom espaço para a covid-19.

É esquisito demais. Se eu tenho a revelação de que um remédio acessível é útil na pandemia, por que isso não sairia em uma grande publicação?

O professor Emery esclarece o processo para isso acontecer: "Primeiro, o editor faz uma leitura para ver se o artigo está adequado para aquela revista. E ele é sempre um profissional com larga experiência nos assuntos abordados naquele título", explica. "Se achar que pode render publicação, o artigo é encaminhado na sequência para até cinco revisores, que às vezes podem ser cientistas com muita vivência em seu tema especificamente." Aí já seria a famosa revisão de pares — um olhar que, no caso, deveria ser de quem entende de Sars-Cov-2 e de antivirais.

Os revisores podem aceitar o trabalho tal qual ele está, podem recusá-lo ou, no meio do caminho, estabelecer condições, pedindo modificações ou complementos. Aí, volta-se à estaca zero. Quando os autores fazem tudo o que é solicitado, o artigo vai parar de volta nas mãos do editor. Isso pode levar meses.

Na afobação da pandemia, até mesmo revistas com alto fator de impacto pisaram na bola, dando como certo o que ainda era incerto. Mas, até pelo grau de exposição, sempre se retrataram.

"Não há nada de errado em uma pesquisa sair em uma revista com fator de impacto baixo. Ela pode ser sobre um problema pontual", pondera Flavio Emery. Mas é quase esdrúxulo que algo que se diz tão sensacional sobre a pandemia tenha evitado o crivo de uma peneira mais fina, como a das revistas no topo do ranking.

A ciência é santa?

Declaro o meu amor pela ciência dia sim, dia sim também. Mas nunca me esqueço que ela é feita por homens. "Os cientistas já criaram o napalm e a bomba atômica", lembra o doutor Urbaez. "Logo, a ciência nem sempre mira o bem. Mas, se tem uma qualidade, é ser cética."

Com todo o bem-vindo ceticismo, eis o resumo do professor Flavio Emery: "Essa meta-análise é uma coleção de estudos pequenos e ruins. Muitos deles são ensaios clínicos mal desenhados, porque juntaram pacientes em condições diferentes."

Com essa matéria-prima, o resultado tão festejado em grupos de WhatsApp serve para a era das pós-verdades, quando assume ares de legítimo aquilo que muita gente quer ouvir.

Em junho de 2021, depois de tanto estudo parrudo já ter mostrado o contrário, insistir em indagar se a ivermectina faria bem a pacientes com covid-19 é o mesmo que levantar a questão se o Sol não poderia ser gelado.

Errata: o texto foi atualizado
Diferente do que foi informado, a ivermectina pode ser usada para combater algumas parasitoses que acometem o intestino (e provocam dores de barriga). A informação já foi retirada do texto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL