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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A imunidade das crianças: o que acontece se elas pegam o vírus da covid-19?

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

01/06/2021 04h00

Desde o início da pandemia, a criançada põe os cientistas para brincar de quebra-cabeças. Mas a impressão é que as primeiras peças começam a se encaixar só agora.

Os números, um tanto desproporcionais, logo de cara apontaram para um enorme enigma. Nos Estados Unidos, por exemplo, as crianças são 22% da população. No entanto, se a gente olha para todo mundo que pegou a covid-19 por lá, apenas 1,7% é caso de pediatria. Ou seja, minoria absoluta.

Por aqui, a situação é parecida. A população infantil gira em torno de 25% dos brasileiros, mas representa somente 1,9% dos diagnósticos de infecção pelo novo coronavírus no país e 0,5% das mortes causadas pela doença.

Estudos afirmam ainda que mais ou menos 6% dos pequenos infectados pelo Sars-CoV 2 desenvolvem quadros severos, enquanto os adultos nunca tiveram essa mesma sorte: entre eles, 26% acabam com formas mais graves da doença.

Daí que sobram pontos de interrogação. Por que, nas crianças, a infecção parece tão mais amena? Será que, nelas, a quantidade de vírus, ou carga viral, seria bem menor para justificar tanta diferença em relação à turma dos adultos? Ou será que guardam em seu organismo algum segredo capaz de levar a uma doença mais leve? E, se guardam, será que ele teria a ver com suas células de defesa?

A maior pergunta de todas, porém, talvez seja esta: será que, se esse segredo for decifrado, ele contribuirá para o surgimento de novos tratamentos ou até mesmo de vacinas?

A imunologista Cristina Bonorino, professora da UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre) foi quem levantou todas essas indagações em sua apresentação, ontem, no primeiro dia do workshop "Pandemia de covid-19: o que os cientistas brasileiros estão fazendo", promovido pela Sociedade Brasileira de Imunologia.

Por falar no que está fazendo, ela e seus colegas da UFCSPA, ao lado de médicos do Hospital Moinhos de Vento, também da capital gaúcha, estão correndo justamente atrás dessas respostas.

Estudar o que acontece com a garotada infectada não tem sido moleza. "Os pais muitas vezes não autorizam", conta a professora. "Diga-se que, quando os adultos da casa pegam covid-19, eles em geral nem sequer testam as crianças para saber se elas também têm o vírus."

Apague conceitos ultrapassados

Parte dessa atitude se explica pela ideia, bastante disseminada no início da pandemia, de que as crianças nem sequer seriam infectadas pelo novo coronavírus.Trate de esquecê-la. Ela já caiu por terra. Crianças pegam a covid-19 com frequência provavelmente bem maior do que as aparências.

Aliás, também na abertura do evento, o virologista Eurico de Arruda Neto, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), contou uma experiência interessante. Ele e seus colegas fizeram PCR nas tonsilas — nome médico das populares amígdalas — de 25 crianças sem qualquer sintoma de covid-19 que operaram a garganta entre o final do ano passado e o início deste ano. Pois o material genético do Sars-CoV 2 estava lá, em um quarto delas.

Também se especulou, no comecinho da pandemia, que o público infantil estaria protegido da doença porque suas células teriam menos receptores da ECA-2. Ora, esses receptores são a fechadura que o coronavírus usa para invadi-las. "Mas esse argumento também pode não ser verdade", afirma Cristina Bonorino. Ou, vá lá, pode não ser toda a verdade.

Para a imunologista, o que faria a criançada não ter sintomas ou manifestar a infecção com maior suavidade seria o modo como suas células de defesa agiriam na presença do vírus. E a surpresa em seu trabalho é esta: a resposta imunológica do paciente pediátrico é diferente da dos adultos infectados, inclusive daqueles que também mal e mal apresentam sintomas.

Uma carga viral impressionante

No estudo liderado pela professora Cristina Bonorino, os cientistas compararam amostras de 33 adultos com manifestações severas de covid-19, de outros 34 com quadros brandos e de 25 crianças com idade média de 9 anos, sem qualquer comorbidade, que tinham apresentado sintomas leves da infecção, cerca de dez a 18 dias antes.

"O que nos chamou a atenção foram as cargas virais super altas, semelhantes às dos adultos", conta a imunologista. Ela ainda não concluiu outra pesquisa que poderá responder se, com uma carga viral dessas, os pequenos transmitiriam a doença tanto quanto os mais velhos. A lógica diz que sim.

Vale eu contar que, no mesmo dia, o virologista Fernando Spilki, professor da Universidade Feevale, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, comentou no evento da SBI que ele e seus colegas estudam o caso de uma família em que vários integrantes foram infectados.

"De um lado, havia o núcleo dos pais e seus filhos. De outro, o núcleo dos avós e dos tios", descreveu. "Sequenciamos o genoma do coronavírus nos diversos indivíduos e, por esse exame, notamos que provavelmente uma criança acabou sendo a porta de entrada para a transmissão, quando foi levada de uma casa à outra, embora ela não tivesse permanecido muito tempo em contato com os adultos que terminaram contaminados", informou o virologista.

Diferenças fundamentais entre adultos e crianças

Se, por sua vez , os pesquisadores da UFCSPA não estão entrando no mérito da transmissão por enquanto, o que eles descobriram na intimidade do sistema imunológico das crianças foi impressionante.

É bom dizer que eles vasculharam as amostras de todos os participantes, adultos e crianças, examinando tipinho por tipinho de célula e de estratégia de defesa — resposta inata, monócitos, granulócitos, linfócitos B, CD-4, CD-8... Eu poderia escrever linhas e mais linhas de nomes que vivem na boca e no pensamento dos imunologistas. Enfim, os cientistas observaram o que acontecia com cada um deles.

"De modo geral, dizemos que a criança tem um sistema imune mais naive", ensina Cristina Bonorino. Naive, termo emprestado do inglês, quer dizer ingênuo. E, sim, são células de certa maneira ingênuas, que não exibem marcadores indicando que tiveram muitas experiências com agentes infecciosos até aquele momento.

"As infecções que temos ao longo da vida marcam as células imunes e, quanto mais marcadas, mais elas ficam ativas, o que pode ser bom em algumas situações e, em outras, nem tanto", explica a professora.

Segundo a imunologista, no caso do Sars-CoV 2, as células imunes das crianças estudadas mostraram total ingenuidade. Agiram como se, inexperientes, nem estivessem enxergando o vírus. Mas, surpreendentemente, apesar da pouca ativação, elas fizeram uma resposta muito forte à sua presença.

O que os cientistas então notaram: diferentemente do que ocorre com pessoas adultas, cujos anticorpos têm como alvo preferencial a proteína S que o vírus usa para infectar as células, os defesas das crianças miram em outro canto — na proteína N, que nem sequer está na superfície do Sars-CoV 2, mas em seu interior.Esta é a proteína mais produzida pelas nossas células ao serem dominadas pelo vírus invasor, chamando talvez a atenção de linfócitos encarregadas de destrui-las.

Outras integrantes do sistema imune, as células dendítricas, também agem de modo diverso do de gente grande. Isso porque as crianças têm uma expressão menor de uma molécula conhecida por CX3CR1. "Ela é como se fosse uma etiqueta com o endereço dos tecidos do corpo que estão inflamados", compara a imunologista.

Portanto, com muita CX3CR1 — que é o caso dos adultos —, as células dendríticas vão parar nos pulmões inflamados. Começa uma cascata — ali desencadeiam mais e mais inflamação. Nas crianças, porém, sem esse mesmo destino, as tais células dendrítricas vão parar mais em linfonodos, onde ajudam o sistema imune a criar a memória do invasor. A mudança de destino pode fazer total diferença, é a hipótese.

"Se isso ficar comprovado, no futuro poderão surgir tratamentos para bloquear o receptor da CX3CR1 nas células dendríticas a fim de diminuir a agressividade da doença", diz a professora, ilustrando uma das possibilidades de achados assim.

Do que já temos uma dose de certeza?

O recado certeiro é que as crianças precisam fazer o teste de covid-19, se há a menor suspeita dessa infecção. "Até porque não sabemos do amanhã", justifica Cristina Bonorino, que faz uma comparação com o HPV, o papilomavírus humano. "Levou um tempo, mas a ciência descobriu que esse vírus estava por trás de tumores no útero e de garganta. No caso do Sars-CoV 2, eu não falaria em câncer, mas não sabemos quais sequelas ele poderá provocar a longo prazo. E penso que só será possível evitá-las ou controlá-las sabendo quem contraiu o coronavírus", opina.

Se bem que, dizem, daqui a poucos anos não haverá um único sujeito na face da Terra que não terá conhecido de perto esse vírus da peste. Espero que, até lá, todos estejam vacinados. E que de algum modo, quem sabe, o nosso sistema imune tenha aprendido a lutar como o de uma criança.