PUBLICIDADE

Topo

Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Perda de massa muscular: por que ela é tão preocupante na covid-19

iStock
Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

25/05/2021 04h00

Quando alguém é internado por causa da infecção pelo Sars-CoV 2 e especialmente quando a dificuldade para respirar é tamanha que exige intubação, uma perda se torna iminente — a de musculatura. Chega a ser inevitável, porque tudo colabora nesse sentido.

Em primeiro lugar, a pessoa precisa permanecer sedada para a realização do procedimento e isso inclui receber drogas que são bloqueadores neuromusculares. O nome já revela o que fazem.

Esses remédios cortam o barato de os nervos enviarem comandos aos músculos para que se movimentem. Calar essas ordens nervosas é importante principalmente para dar uma trégua àqueles que estão envolvidos com a respiração. Caso contrário, eles terminariam com uma baita fadiga, o que não seria nada bom.

A questão é que, passado um tempo assim, o outro extremo também causa problemas. "O organismo direciona bem menos energia para aquele órgão que está parado, entendendo que ele ficou em desuso", explica o fisioterapeuta Eduardo Colucci, da Unidade de Coronariana do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Isso vale para os músculos em repouso que, sem o seu aporte energético de sempre, começam a minguar.

Tudo piora com outros medicamentos que costumam entrar em cena e até mesmo com a interação entre eles. Os corticoides usados para combater a inflamação servem de exemplo. "Eles também atrapalham o funcionamento do músculo", diz Colucci, que é especialista em fisioterapia respiratória e fisiologia do exercício.

Mas, acima de tudo, a própria covid-19 leva o organismo a se transformar em uma espécie de canibal, usando as proteínas que formam suas fibras musculares para produzir toda a energia necessária para enfrentar o inimigo.

"Isso acontece da mesma forma em várias outras infecções e depois de cirurgias de grande porte, como parte da resposta inflamatória", lembra o médico nutrólogo Celso Cukier, que também atua no Albert Einstein."O organismo vai desviando aminoácidos dos músculos para reparar os tecidos que foram agredidos."

No entanto, se após o corte de uma operação ou outra doença qualquer ele faz isso como primeiros-socorros e então para, na covid-19 a história é outra porque a situação demora a se resolver. E como demora!

"Para complicar as coisas, enquanto o paciente está na UTI, podem surgir novos problemas, alguns decorrentes da própria infecção, que vão exigir mais procedimentos médicos, mais remédios... E, claro, provocar mais danos nos tecidos", nota o doutor Cukier.

Logo, a saída de roubar a proteína dos músculos se perpetua. E isso, somado ao repouso, faz com que a perda de massa muscular possa alcançar 1,5% ao dia na primeira semana de ventilação mecânica. "É uma tragédia para os músculos, especialmente porque acontece em alta velocidade, em curtíssimo prazo", observa o fisioterapeuta Eduardo Colucci. Daí, voltar a andar poderá ser, muito pelo contrário, um processo a passos de tartaruga.

Por que é preciso reaprender a andar

Se a quantidade de fibras musculares declina, a força diminui junto, o que é fácil deduzir. Mas repare que a função de cada músculo acompanha a mesma derrocada.

Enfraquecida, a pessoa acaba realizando movimentos completamente desajeitados, descoordenados, como se nada mais em seu corpo lhe obedecesse. "Isso não só impede atividades do dia a dia, como oferece o perigo de quedas", comenta o fisioterapeuta. "E acontece porque os nervos ligados aos músculos acabam afetados, como se fossem desconectados", conta.

Portanto, quando a gente escuta que alguns pacientes em recuperação da covid-19 precisam reaprender a caminhar, não é exagero, nem figura de linguagem.

Nada volta depressa ao que era

"A reabilitação começa justamente pela enervação desligada, procurando conectar a placa neural dos músculos, para acordá-la", explica Colucci. Só bem depois, em um segundo momento, os fisioterapeutas focam na força do que restou da musculatura.

Adiante, já com essa força aumentada, é que fica viável prescrever exercícios para que os músculos ganhem mais fibras e cresçam, espantando a imagem flácida e esquálida. Essa é a ordem das coisas — e ela exige paciência.

Aliás, a dose de paciência precisa ser enorme não só porque, seguindo essa sequência, a aparência forte de antes não voltará de uma hora para outra...

As prioridades da reabilitação

Apesar de todo mundo ficar ansioso para andar, sentar-se, recuperar a autonomia, pense que todo tipo de tecido muscular acaba sendo vítima do sequestro de aminoácidos. Daí que, para que não falte disposição nem o bendito fôlego, Colucci e seus colegas priorizam o diafragma — ora, ele também sai dessa perdendo massa — e outros músculos capazes de possibilitar uma boa respiração.

O nutrólogo Celso Cukier chama a atenção ainda: "Há quem desenvolva uma disfagia sarcopênica". A sarcopenia, na linguagem da saúde, é a perda de massa muscular. E a disfagia, a dificuldade para deglutir. Ou seja, por vezes, até os músculos que recrutamos quando engolimos algo terminam em frangalhos. "Esses pacientes vivem se engasgando e correm o risco de aspirar o alimento em vez de mandá-lo para o estômago", diz o médico.

Se a comida pega o trajeto errado e vai parar nos pulmões, é uma encrenca daquelas. Melhor evitar. "Por isso, quando existe essa ameaça, continuamos a alimentar o paciente por sonda até essa musculatura ficar apta outra vez", conta Cukier.

Quanto antes, melhor

Nos hospitais, ninguém perde tempo vendo a massa magra encolher. "A terapia nutricional deve ser iniciada no máximo 48 horas após a internação, seja por boca, por sonda ou pela veia", diz Celso Cukier.

O princípio é abastecer o organismo de energia e de aminoácidos para evitar que ele os retire da massa magra. "E o único jogo de cintura é para driblar outras condições de saúde, comuns nos grupos de risco para a covid-19, sem dar proteína demais para sobrecarregar os rins de quem tem problemas nesse órgão", exemplifica Cukier.

A massa muscular é mensurada por exames de ultrassom feitos à beira do leito. Geralmente, a equipe privilegia a musculatura das coxas e o diafragma para ter ideia da situação.

Outro cuidado crucial é com a postura do paciente sedado. "Os pés devem ficar amparados direito", descreve Colucci. "Se os deixarmos caídos por conta da sedação, a panturrilha terminará encurtada. Então, depois, a pessoa andará arrastando os pés."

Já os exercícios podem ser iniciados com o paciente ainda sob sedação, inclusive com bicicletas adaptadas à cama. "As sessões duram de 40 minutos a uma hora e meia todos os dias com o paciente já acordado, dependendo do cansaço dele", diz Colucci.

O que fazer em casa

"Em matéria de alimentação, o cuidado número 1 continua sendo com as calorias e a proteína, mas é preciso privilegiar preparações fáceis de serem deglutidas", informa Celso Cukier, que recomenda a carne moída no lugar do bife e vegetais mais cozidos do que de costume.

Saiba: para quem passou uma temporada na UTI por causa da covid-19, comer cansa. "Não se preocupe em dar comida demais de uma vez. Melhor fracioná-la em várias pequenas refeições. A porção de nutrientes ao final do dia é o que importa", avisa o médico.

Outro ponto fundamental é familiares e acompanhantes sempre estimularem a pessoa que deixou o hospital a se movimentar. Caso contrário, parte do esforço da reabilitação vai para o espaço. "O indivíduo não pode passar o dia em um canto, parado como se ainda permanecesse no leito hospitalar", fala Eduardo Colucci.

No caso, o preço da inércia é alto. No mínimo, a pessoa pode se tornar menos produtiva, inclusive no trabalho, por falta de disposição física. "Alguns indivíduos, quando não recuperam sua musculatura, acabam se tornando dependentes dos outros em menor ou maior grau para a realização de tarefas cotidianas", repara o fisioterapeuta.

Tem mais, diz ele: "Se, por azar, essa pessoa que se recuperou mal após a covid precisar ser internada de novo por causa de uma infecção ou de uma cirurgia, a perda de massa magra já começará de um patamar inferior, piorando as coisas, talvez sendo o empurrãozinho para ela perder a autonomia de vez".

Já quem se empenha para recuperar os músculos plenamente, por meio de movimento e de nutrientes, é recompensado com força. Não só física. Por razões bioquímicas, até a nossa imunidade fica fortalecida com uma musculatura adequada. Portanto, valerá a pena cada passo suado nesse longo caminho de volta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL