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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

2 grandes avanços e 4 tremendos enigmas da imunologia diante da pandemia

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

20/05/2021 04h00

Linfócitos, neutrófilos, anticorpos, IgG, IgM, imunidade celular, memória imunológica, antígeno, tempestade de citocinas... De repente, expressões usadas por quem sempre investigou as nossas defesas caíram na boca do povo. Dá até a impressão de que quase não se fala de outra coisa.

Em qualquer roda de conversa, se duvidar, logo alguém começa a comparar a porcentagem de eficácia das vacinas com ares de doutor — fenômeno surpreendente, porque não me lembro de termos a mínima curiosidade sobre quantos por cento funcionaria aquela picadinha tomada na infância e, diga-se, ela não traiu a nossa confiança, então alheia aos números. Mas o que uma pandemia não faz, não é mesmo?

O fato é que a covid-19 colocou uma área das ciências da saúde sob holofotes: a imunologia. Hoje, todos se interessam pelas últimas que os imunologistas têm para nos contar, o que é compreensível. Diria mais: é merecido.

A avalanche de notícias sobre pesquisas é porção ínfima do que está sendo publicado sobre essa praga provocada pelo novo coronavírus. E a contribuição da ciência brasileira tem feito total diferença, reconhecida mundo afora.

"Por isso, já estava mais do que na hora de ter um evento científico reunindo tudo o que estamos fazendo em várias frentes — da epidemiologia à pesquisa de vacinas nacionais, passando pelo entendimento do que acontece com o organismo, pelos testes de diagnóstico, pelos novos tratamentos e muito mais", conta Ricardo Gazzinelli, presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, que resolveu organizar o workshop on-line "A pandemia covid-19: o que os cientistas brasileiros estão fazendo".

O evento, que está com inscrições abertas, acontecerá entre os dias 31 deste mês e 2 de junho e contará com os principais nomes da imunologia no país, a começar pelo próprio Gazzinelli, que é pesquisador da Fiocruz, além de professor da Universidade Federal de Minas Gerais e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP).

Em vez de antecipar o que será apresentado, resolvi perguntar o seguinte ao imunologista e a três de seus colegas que estarão no workshop: quais seriam bons exemplos de avanços, desses que chegam para ficar? E que enigmas ainda quebram as maiores cabeças da imunologia?

Vacinas para várias outras doenças

As novas vacinas foram citadas por todos os imunologistas como o maior avanço nestes tempos. E não só pelo motivo óbvio, que é o de elas serem ferramenta fundamental para derrubarmos a transmissão da covid-19 e terem sido desenvolvidas em um zás-trás.

Segundo Ricardo Gazzinelli, se ficar comprovado que as vacinas de RNA, como a da Pfizer, estão funcionando bem — e tudo indica que sim —, será mais fácil produzir imunizantes daqui para a frente. "Ora, é bem mais simples sintetizar uma fita de RNA do que fazer um vírus, como o influenza da gripe, crescer em laboratório, precisando de milhões de ovos para isso", justifica. "Daí que muitas vacinas já existentes deverão ser substituídas por outras, que usarão essa tecnologia."

E não só isso, como lembra o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor superintendente do Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo: "Com essas plataformas de agora, que usam informação genética, podemos esperar vacinas não só contra infecções por vírus, protozoários e bactérias, mas também contra o câncer e as doenças autoimunes", acredita.

"O que torna tudo mais emocionante é que, no fundo, nunca achamos que as vacinas de RNA mensageiro dariam certo", admite a professora Cristina Bonorino, da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Ela explica por que ninguém botava fé: "O RNA costuma ser tão instável que, como a gente brinca, só de olhar para ele, já era".

A instabilidade foi solucionada colocando essa molécula dentro de uma cápsula nanométrica de lipídeo. "Ela o protege e o conduz para dentro das nossas células", descreve a imunologista. "Sem contar que existe uma possibilidade de que a própria cápsula atice as nossas defesas, melhorando ainda mais a resposta à vacina."

Anticorpos monoclonais contra vírus

Já estão em reta final os testes para aplicar anticorpos criados em laboratório, os tais monoclonais, que no caso são sob medida para se ligarem ao Sars-CoV 2. "Os remédios antivirais que já existiam nas prateleiras não funcionaram tão bem na covid-19", lamenta Ricardo Gazzinelli. "Portanto, tudo leva a crer que os primeiros medicamentos efetivos para barrar o vírus serão esses anticorpos, que devem ser prescritos no momento da hospitalização", afirma.

A limitação é que anticorpos monoclonais, como os usados no tratamento de alguns cânceres, costumam ser bem caros. Como então poderiam ser úteis em uma situação de pandemia? "Existe a questão de preço, mas lembre-se que, no câncer, a pessoa precisa receber anticorpos monoclonais por um longo período, a cada semana ou a cada duas semanas ", compara o professor. "Mas, no caso da covid-19, serão duas ou três doses apenas."

Quanto tempo dura a memória das defesas?

Eis aí um belo enigma. "Esta é a minha maior curiosidade", afirma Ricardo Gazzinelli. Entenda: os imunologistas sempre olharam para os anticorpos, deduzindo pela sua presença que uma pessoa já estaria protegida contra determinada infecção. "Mas, no caso da covid-19, já vimos indivíduos que, depois de um tempo, não apresentavam mais anticorpos e que continuavam imunes", conta.

"Conhecer a duração da memória imunológica na covid-19 é, de fato, uma das nossas maiores necessidades", aponta Luiz Vicente Rizzo. "Afinal, estimamos que nenhum ser humano nascido vivo nos próximos oito anos deixará de ser infectado."

Um dos motivos por que ninguém sabe quanto tempo dura a imunidade depois da infecção ou até após a vacina é fácil de entender: não correu tempo suficiente para a gente ver no que vai dar. Uma outra razão, porém, é mais complexa: "É possível que, em alguns indivíduos, o vírus dê um jeito de escapar das células que poderiam gerar a memória da infecção", diz Rizzo. Por enquanto, não há certezas.

Dá para confiar em imunidade de rebanho?

Ninguém crava o número mágico de pessoas que precisariam ter sido infectadas para reestabelecer uma certa tranquilidade. Se esse número de fato existe, ele continua sendo um mistério.

Vice-diretor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, o biólogo Helder Nakaya tem lá suas dúvidas. "Quando o organismo é infectado uma primeira vez, ele forma anticorpos que desaparecem depois de algum tempo. Mas o bom é que o sistema imune aproveita o contato com o agente infeccioso para formar a famosa memória e, se houver uma segunda infecção, ele armará suas defesas depressa", explica. "No entanto, já existem evidências de que o Sars-CoV 2 é capaz de, em alguns casos, infectar as próprias células imunológicas que ajudariam a formar a tal memória."

Ou seja, se essa hipótese se confirmar, quem é infectado pelo coronavírus voltaria sempre à estaca zero em matéria de risco de pegar a covid-19. E só a vacina, então, daria jeito pra valer.

Existiriam sequelas no sistema imune?

Mais um enigma: "Muito se fala dos efeitos da covid-19 a longo prazo no coração, nos pulmões, em diversos órgãos", diz o professor Nakaya. "No entanto, falta saber se existiriam sequelas imunológicas."

Elas acontecem em outros quadros infecciosos. O sarampo, por exemplo, é capaz de provocar uma espécie de amnésia imunológica. "Se alguém tem caxumba, adquire uma imunidade de longo prazo contra essa doença. Mas o sarampo é capaz de apagar essa memória, correndo o risco de a pessoa, um dia, pegar caxumba de novo."

Já quem sofreu um choque séptico por causa de alguma infecção grave pode até sobreviver e voltar para casa, só que carregando uma imunossupressão e tornando-se vulnerável a todo tipo de doença infecciosa. "Claro que é pura especulação dizer que algo assim pode acontecer com a covid-19. Mas o fato é que essa hipótese ainda precisa ser investigada", diz o professor.

Para Luiz Vicente Rizzo, porém, a probabilidade de isso acontecer é pequena e outras sequelas — as cardíacas e as neurológicas — deveriam preocupar bem mais. "Afinal, elas aparecem em cerca de 30% dos pacientes", informa.

O que as crianças têm de especial?

Esta é a pergunta que a professora Cristina Bonorino vem se fazendo há algum tempo — inclusive, ela desenvolve pesquisas para tentar respondê-la. Muitos nutriram a fantasia de que a criançada não pegava a covid-19. "Com essa ideia, há relatos de pais que tiveram a infecção, mas que na ocasião nem levaram os filhos pequenos para fazer o teste", conta a imunologista.

Na realidade, as crianças costumam ter uma carga viral bastante alta do Sars-CoV 2 quando são infectadas. Por que razão, então, não manifestam a doença? Quem souber explicar achará um caminho para novos tratamentos. Por enquanto, só resta esperar a imunologia traçá-lo.