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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Às vezes, o sintoma da covid-19 é uma urticária. Ela continuaria depois?

Anupong Thongchan/EyeEm/Getty Images
Imagem: Anupong Thongchan/EyeEm/Getty Images
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

11/05/2021 04h00

Será que semanas depois de ter sido infectada pelo Sars-CoV 2, a pessoa ficaria com o couro cabeludo sensível? Isso é algo que querem saber cientistas da UNESP (Universidade Estadual Paulista), em Botucatu, e de mais quatro instituições, a PUC-Paraná, a Faculdade de Medicina do ABC, a Universidade Federal de Goiás e a Universidade do Estado do Amazonas.

O couro cabeludo dolorido, capaz de se ressentir até de uma leve escovadela, pode ser uma das manifestações dermatológicas da síndrome pós-covid. Para confirmar se a suspeita faz sentido, os pesquisadores estão divulgando um questionário para ser respondido por quem teve a doença. Vale a participação até de gente que, durante a infecção, não sentiu coisa alguma. Sim, mesmo nesse caso, pode ser que a pele guarde alguma lembrança da experiência vaga.

Que esse coronavírus é bem capaz de aprontar não só na pele, mas nas mucosas e até mesmo nos cabelos, isso não surpreende em nada o dermatologista Hélio Miot, professor da UNESP. No ano passado, quando a confusão da pandemia mal tinha começado, ele foi um dos primeiros a apontar as manifestações cutâneas da covid-19 reportadas pelos próprios pacientes.

Cientistas da Itália, então, já tinham revelado que 20% dos sujeitos internados por conta da doença exibiam algum sintoma na pele, como áreas de vermelhidão, o chamado eritema, ou pequenas bolhas. "Naquela época, eu já fiquei bastante preocupado", diz o médico. Sua dúvida era se, ao menos em alguns casos, a pele poderia ser a única a entregar quem estava contaminado e passando o vírus adiante.

Por causa dos relatos vindos de fora, ele mandou testar pacientes que procuravam o dermatologista por causa de uma urticária que tinha aparecido assim do nada e que parecia ser de contato. "Já vi gente infectada que não tinha nenhum outro sintoma, a não ser a pele irritada", ele garante.

Naqueles primeiros trabalhos italianos, no entanto, as lesões cutâneas eram observadas pelos médicos, já que se tratava de pacientes graves e hospitalizados. A pergunta que permanecia: o que estaria acontecendo com pacientes com sintomas leves, que ficaram isolados em casa?

Daí a ideia de enviar um questionário on-line para 43.444 pessoas, com imagens de problemas de pele para que elas pudessem reparar se, quando foram diagnosticadas, tinham apresentado no corpo alguma coisa parecida com aquilo que estavam vendo. Não deu em outra: 31% dos 1.429 indivíduos que foram comprovadamente contaminados pelo novo coronavírus e dos 2.322 sujeitos com suspeita da doença sofreram na pele.

Durante a covid-19

O Sars-Cov 2 parece aprontar quase de tudo um pouco. Aqueles 31% dos participantes tiveram pelo menos uma das seguintes manifestações: coceira ou, como preferem os médicos, prurido; urticárias; exantemas, que são placas vermelhas, com ou sem bolhinhas; aftas na boca; pápulas, que são vermelhas e elevadas, lembrando picadas de inseto; inflamação do couro cabeludo e lesões nas palmas das mãos.

"Ao ver esse panorama, um lado meu ficou decepcionado", confessa o professor Hélio Miot. E logo justifica: "São manifestações muito diferentes e infelizmente nenhuma delas é específica do novo coronavírus. Na rubéola, por exemplo, logo desconfiamos quando aparecem as lesões vermelhas e bem típicas no rosto e no pescoço que, depois, se espalham para o tronco e os membros."

O dermatologista cita ainda o exemplo da Zyka, que provoca lesões levemente elevadas, as quais também tendem a começar pelo rosto. Mas, no consultório do dermatologista, embora a covid-19 se manifeste na pele de aproximadamente um terço dos infectados, nada é uma pista muito clara.

"Existem poucas peculiaridades, como é o caso do eritema pérnio, um problema completamente benigno", conta o professor Miot. Para você ligar o nome à situação, trata-se de inúmeras pintinhas vermelhas que aparecem nas extremidades do corpo — nas mãos, principalmente — quando o clima está muito, muito frio. Coçam um pouco, ardem um tantinho também.

Chamou a atenção de cientistas americanos que as pessoas infectadas pelo Sars-CoV 2 tinham pérnio até mesmo no calor do verão. Eles até falaram em covid fingers ou dedos de covid. É verdade. Mas, de novo, não acontece com todos aqueles que têm manifestações cutâneas. "O que podemos dizer é que o pérnio é mais comum em idosos infectados. Já na criançada contaminada pelo novo coronavírus, nós encontramos mais bolhinhas", explica Hélio Miot.

Pessoas com quadros menos graves têm mais aftas. Já lesões nas palmas avermelhadas ou, pior, arroxeadas podem indicar um comprometimento maior dos vasos sanguíneos e, portanto, estão mais associadas a casos que acabam precisando de internação.

Vale ficar de olho

Uma urticária na maioria das vezes é só uma urticária. Mas, sim, em tempos de pandemia, por segurança vale desconfiar, na opinião do professor. "Já vi muitos casos que nem febre a pessoa tinha", ele insiste. "Então, se algo surgiu de repente na pele, é bom conversar com o médico e cogitar fazer o teste."

Aliás, pode ser que muita gente que sabe ter contraído o vírus porque fez o teste e que afirma ter sido assintomática na realidade não tenha associado a infecção à pele irritada ou às aftas, culpando o detergente da pia ou uma refeição mais ácida por uma coisa ou outra.

O dermatologista não acha que nada disso seja causado diretamente pelo próprio Sars-CoV 2. "Ele até já foi encontrado em biópsias de tecido cutâneo. Mas isso não espanta, porque parece estar presente em tudo o quanto é canto do corpo infectado", observa. Para o médico, os problemas cutâneos seriam provocados pelas reações do organismo à infecção, como substâncias precipitando do sangue para a pele.

O que contam os cabelos. Ou a falta deles.

Alguns trabalhos também levantaram que homens calvos ou com cabelos completamente brancos tinham uma tendência maior a apresentar quadros fatais de covid-19. Chegaram a levantar a hipótese de que remédios para bloquear certas formas do hormônio masculino, como a finasterida usada para brecar o avanço da calvície, poderiam ser úteis. Infelizmente, esse tipo de medicamento, até que se prove o contrário, não fez diferença na infecção pelo Sars-CoV 2, segundo mais um levantamento realizado pelo professor Miot e seus colegas.

Mas será que a associação com fios escassos e brancos seria verdadeira? Em parte, sim. "Antes, precisamos considerar que os homens costumam se cuidar menos e é mais provável que tenham comorbidades perigosas diante da covid-19. E também devemos lembrar que pessoas grisalhas em geral são mais velhas e, portanto, podem ter as defesas mais vulneráveis pela idade."

Ainda assim, em seu estudo, Hélio Miot viu que, sempre comparando pessoas do mesmo sexo, idade, com condições de saúde semelhantes — diabéticos com cabeleira farta e diabéticos com fios ralos, por exemplo —, parece que a turma careca ou com fios brancos tem maior probabilidade de quadros severos de covid-19.

Por quê? "Uma hipótese é de que os cabelos branquearam mais ou caíram por causa de um estresse oxidativo intenso que, por si, já deixaria o organismo mais debilitado", especula. Atenção: de acordo com esse trabalho, mulheres com queda importante de cabelos ou com fios muito brancos também teriam um risco maior de complicações, se infectadas pelo novo coronavírus.

E depois?

Por falar em cabelos, é comum os fios caírem, ficando pelo chão do chuveiro ou no pente, cerca de um mês da covid-19. "Isso também acontece em outras infecções, pelo desgaste. Na covid, há pessoas que perdem muito cabelo bem antes, assim que se internam", nota Hélio Miot.

O dermatologista, porém, está mais interessado em saber se, além das dores de cabeça, das dificuldades de memória, da falta de olfato e de outros sintomas que vêm sendo registrados, existiriam manifestações cutâneas na síndrome pós-covid — de urticárias a problemas no couro cabeludo, passado um tempo.

"É bem possível que sim", suspeita."O vírus vai embora, mas a inflamação desencadeada por ele não cede tão fácil", afirma o professor que, mais uma vez, não se surpreenderá se a pele de quem pegou o novo coronavírus não estiver a mesma. Só posso dizer que tudo nessa história de pandemia irrita.

Se você teve ou se desconfia que teve covid-19 e quer participar da pesquisa, o link para o questionário está aqui.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL