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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Diabetes gestacional é motivo para a grávida se vacinar contra a covid-19

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

07/05/2021 15h17

Quando o assunto é covid-19, o diabetes é (ou deveria ser) lembrado. Afinal, a glicemia descontrolada — resultado de a pessoa ignorar que tem essa condição ou até saber, mas fazer pouco caso dela — é um dos fatores que torna alguém mais vulnerável a complicações muito sérias, se acabar infectado pelo Sars-CoV-2.

E por sua vez, quando o assunto é diabetes, a gestação é (ou deveria ser) lembrada. Há, digamos, uma versão exclusiva da doença nessa fase, que seria o diabetes gestacional. Na prática, como nos tipos 1 e 2, ele também é marcado pela elevação da glicose no sangue, já que esse açúcar não consegue entrar nas células.

Logo, entenda: um diabetes sem rédeas curtas predispõe a quadros extremamente perigosos da infecção pelo novo coronavírus e a gravidez, para muitas mulheres, é um empurrãozinho para o seu organismo virar diabético. Está tudo entrelaçado e isso explica em parte o cenário triste que vemos por aí, no qual mulheres esperando um bebê terminam dando à luz em UTIs.

Não à toa, a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes) e a SBEM (Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia) emitiram recentemente uma nota recomendando a vacinação contra a covid-19 para gestantes com diabetes e até mesmo para mulheres puérperas ou que estejam amamentando, diagnosticadas com essa doença nos meses de espera.

Para alguns, então, ficou a dúvida: estaria diabetes gestacional incluído nessa história, apesar de ele poder ser um quadro passageiro? A resposta é um sonoro sim.

A vacina em gestantes diabéticas

"Ainda não existem dados sobre a vacinação em mulheres grávidas ou que acabaram de ter filhos", reconhece o endocrinologista Airton Golbert que, além de ser professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, é o atual coordenador do departamento de diabetes na gestação da SBD. "Mas os estudos em animais apontam que os imunizantes aprovados não causam prejuízo ao feto. E, por outro lado, já temos certeza de que o fato de a grávida apresentar diabetes a coloca em uma situação de maior risco na pandemia. Daí a recomendação para ela se vacinar."

A probabilidade de complicações, caso a gestante com diabetes descompensado contraia o Sars-CoV-2, aumenta de 30% a 50%. "Mas bom deixar claro", frisa o médico, "que mulheres com diabetes, seja do tipo gestacional ou não, que estão controlando muito bem a sua glicemia em tese não enfrentam essa mesma ameaça."

O professor Golbert diz "em tese" porque não há estudos com resultados consolidados examinando especificamente a situação de pacientes com diabetes gestacional, comparando aquelas que monitoram bem a glicose no sangue com as que não fazem isso por qualquer motivo.

No entanto, é coerente imaginar que o risco caia: é o açúcar nas alturas que aumenta a produção de moléculas inflamatórias, as quais, digamos, já são meio caminho andado para tudo o que o Sars-CoV-2 é capaz de aprontar de maldade no organismo.

O nó, porém, é que a maioria das gestantes com diabetes está acima do peso, algumas com obesidade pra valer. E a obesidade por si só, mais uma vez por causa da produção de moléculas inflamatórias que agem da cabeça aos pés, é outro fator de risco para complicações da covid-19. Tudo se embaralha e voltamos ao ponto: melhor a gestante com diabetes não perder a oportunidade da picadinha no braço, ao chegar sua vez na fila.

As causas do problema

"Para a mulher desenvolver o diabetes gestacional sempre deve existir uma predisposição genética", esclarece o endocrinologista. "Se ela perguntar para outras mães em sua família, verá casos do problema. Às vezes, essas parentes nem sabem que tiveram diabetes gestacional, mas irão contar que deram à luz a bebês grandes, com mais de 4 quilos."

Sim, quando o útero se transforma em uma espécie de açucareiro, o feto cresce além da conta, no fenômeno que os médicos chamam de macrossomia. Portanto, bebês graúdos, que já "nascem criados" como diziam as nossas avós, são uma pista importante. Embora, claro, sempre possam existir recém-nascidos que são grandalhões simplesmente por serem filhos de casais formados por pessoas muito altas.

Além do aspecto genético, porém, existem os fatores ambientais. Um deles é o excesso de peso já mencionado. Olhando para a balança, fica fácil entender por que o problema do diabetes na gestação vem aumentando: hoje no Brasil, de acordo com os últimos levantamentos, uma em cada cinco grávidas apresenta essa condição e, ora, 56% da nossa população está com sobrepeso e mais de 20% têm obesidade. Então, as contas parecem fechar, fazendo o maior sentido.

Outra razão para a prevalência em ascensão do diabetes gestacional é o fato de as mulheres, atualmente, com frequência deixarem para engravidar mais tarde. "Quanto mais a idade delas avança, maior a chance de a glicemia sair do prumo quando esperam um bebê", informa o professor Golbert.

O que acontece

Em toda gravidez, a placenta produz substâncias que inclinam a futura mãe a ter uma hiperglicemia. "A maioria, porém, é leve. Dieta e exercícios físicos orientados conseguem controlar a situação", garante Airton Golbert.

Essas substâncias agem como antagonistas da insulina, boicotando o hormônio produzido pelo pâncreas que funciona como chave para o açúcar sair do sangue e entrar nas células do corpo. Portanto, ele já não consegue funcionar como antes.

A razão dessa resistência à insulina na grávida é até nobre: garantir que não falte glicose na circulação para suprir o bebê, na voracidade do seu desenvolvimento. O problema é quando essa reação é exagerada. Então, lá pela segunda metade da gravidez, as coisas podem sair do controle, porque em toda gestante a resistência à insulina tende a aumentar nessa reta final.

O rastreamento da doença

Por isso, entre a 24.º e a 28.º semana de gestação, os médicos fazem um rastreamento, pedindo o exame de tolerância à glicose. Primeiro, colhem uma amostra de sangue quando a paciente ainda está em jejum. Ali, devem encontrar no máximo 92 miligramas desse açúcar por decilitro de sangue.

"Note que o valor normal para uma mulher que não está esperando bebê seria de até 99 miligramas por decilitro de sangue", diz o professor. Mas é de se esperar: o bebê está consumindo a glicose materna, então o limite normal para uma grávida sempre seria um pouco mais baixo. No exame de tolerância, a dosagem no sangue é repetida uma e duas horas depois da beberagem doce. Basta um dos valores de glicose estar elevado para se cravar o diagnóstico.

Diabetes antes

O ideal mesmo seria o obstetra afastar a hipótese de diabetes bem antes, quando a mulher planeja engravidar ou, vá lá, quando ela recebe a notícia de estar grávida.

Isso porque — de novo, pela idade mais avançada e por um eventual excesso de peso — os casos de diabetes tipo 2 se tornam cada vez mais comuns. "Muita mulher que faz o rastreamento na metade da gravidez acha que está com diabetes gestacional, mas na realidade ela já era diabética antes de engravidar."

Diabetes depois

Quando a situação é flagrada, o controle da glicemia vai depender de um cardápio ajustado, um adeus ao sedentarismo e, em alguns casos, de medicamentos, incluindo injeções de insulina. Também é fundamental que a gestante monitore os níveis de açúcar na corrente sanguínea ao longo do dia.

Quando o bebê nasce e as substâncias antagonistas da insulina produzidas pela placenta desaparecem, o legítimo diabetes gestacional some junto. Para 60% das mulheres, porém, é apenas uma trégua: "Elas vão se tornar diabéticas do tipo 2 cerca de cinco ou seis anos depois", observa o professor Golbert. "E, mesmo com o quadro revertido após o parto, aquela paciente que teve diabetes gestacional será considerada pré-diabética pelo resto da vida."

Em tempos de covid-19

Quando a grávida com diabetes controla a glicose no sangue para que ele fique em níveis normais, isso faz um bem danado à criança em seu ventre. Impede que ela cresça exageradamente, previne malformações e diminui o risco de parto prematuro. De bônus, evita que, no futuro, ela se torne um indivíduo com alto risco de desenvolver obesidade e... também diabetes.

Para a própria mulher diabética, já com a sua imunidade reduzida por conta da gravidez, significa afastar o risco de complicações da covid-19. Bom mesmo seria a infecção passar longe da mãe e do filho, tomando todos os cuidados — e tomando a vacina, que deve se tornar parte preciosa do pré-natal.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL