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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Precisamos aprender a usar remédios de uma maneira muito mais racional

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

04/05/2021 04h00

Não precisa nem sequer dizer o nome da droga: quem nunca entrou na farmácia da esquina sem trazer no bolso uma única folha de papel assinada pelo seu médico e saiu de lá de boa, levando para casa uma caixinha com tarja vermelha? A cor estaria ali para nos lembrar que ela não poderia ser vendida livremente, mas...

"Mas nós consumimos remédios sem pensar duas vezes", completa o professor Leonardo Régis Leira Pereira, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo).

Pois amanhã é justamente o Dia Nacional do Uso Racional de Medicamento, com ações promovidas pela ABCF (Associação Brasileira de Ciências Farmacêuticas) em suas redes sociais. A data foi criada para lembrar todo mundo de usar a cabeça antes de sair se automedicando. E não só isso, porque cometemos alguns outros erros quando se trata de fazer compras na farmácia. Aliás, muitas vezes erramos até mesmo antes de pisar nela.

Na visão do professor Leonardo Pereira, parte dos nossos equívocos vem de uma busca antiga: "Desde que o mundo é mundo, procuramos um comprimido mágico, capaz de resolver os nossos problemas", observa. "Quando sai um novo medicamento que, supõe-se, ajudaria a emagrecer, todos correm para usá-lo sem pestanejar. E, voltando no tempo, temos a fluoxetina, que foi apresentada como se fosse a pílula da felicidade", diz, refrescando a nossa memória sobre o marketing bem-sucedido do mais festejado dos antidepressivos. Quem dera a vida fosse tão simples que desse para qualquer um ser feliz engolindo algo com um copo de água.

Há exemplos, porém, bem mais desastrosos. "Talvez o maior deles seja o da talidomida, nos anos 1960", opina o professor. O sedativo foi prescrito para grávidas porque alguém observou que ele poderia diminuir o seu enjoo matinal. O resultado foi o nascimento de bebês com defeitos congênitos, sem os braços.

Quando a gente achava que a lição estava clara — a de que não dá para sair prescrevendo ou tomando remédio porque meia dúzia de gatos pingados chutou uma possível ação contra um de nossos males —, eis que surge a pandemia.

"Daí, é só a gente ver o que aconteceu quando apenas suspeitaram que a cloroquina poderia solucionar a covid-19", nota Leonardo Pereira. "Teve médico receitando várias caixinhas para uma pessoa, apesar de faltar estudo comprovando esse efeito. Teve gente comprando cloroquina para ter em casa, mesmo sem ir ao clínico e só de ouvir falar. E teve farmacêutico vendendo sem prescrição também." O mesmo ocorreu — e lamentavelmente ocorre — com os outros componentes do tal kit de tratamento precoce.

Para coroar, há o caso da nitazoxanida. Tentaram segurar a fúria consumista dos novos hipocondríacos quando se desconfiou que o antiparasitário poderia conter o novo coronavírus. Na véspera do anúncio dessa hipótese, o remédio foi enquadrado na portaria 344, a mesma dos psicotrópicos controlados — veja a que ponto foi alçado o vermífugo! Não adiantou. Na calada da noite, as prateleiras que guardavam a nitazoxanida se esvaziaram. Não há dúvida de que, para uns, a pandemia é um convite irrecusável ao uso irracional de remédios.

Uma pequena dose de História

Facilita a irracionalidade ter uma farmácia em cada quarteirão, na opinião de Leonardo Pereira. "Se a pessoa tenta adquirir um medicamento sem prescrição e o farmacêutico se recusa a vendê-lo, ela se dirige tranquilamente a uma concorrente bem próxima", nota. Horrível constatar, isso faz muito estabelecimento fechar os olhos.

Não, não é assim em todo canto. O próprio professor se lembra que, quando fez seu doutorado na Università degli Studi di Pavia, aprendeu que na Itália há normas rígidas para se abrir uma farmácia, que não pode ser muito próxima de outra até para evitar esse tipo de coisa.

E não, nem sempre foi assim. O uso irracional era mais difícil até os anos 1930, 1940, quando a produção de medicamentos era quase artesanal. "O farmacêutico do bairro formulava um colírio perfeito e, quando ele morria, o remédio morria junto", conta o professor Divaldo Lyra Junior, da Universidade Federal de Sergipe.

Após a Segunda Guerra Mundial, no entanto, surge a mecanização da produção de remédios, que passa a ser em larga escala. Seria doidice não ver o lado bom disso. Favoreceu o acesso, diminuiu o preço e, para não sair da órbita da pandemia, se não fosse assim, como teríamos vacinas para todos?

Mas também surgiram novos problemas. A maioria dos países nem tinha agências regulatórias, como a Anvisa, para registrar esses medicamentos e colocá-los para vender de forma adequada. E, mesmo com o aparecimento delas, persistem abusos.

Basta ver o que ocorre por aqui. De acordo com um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz, cerca de 74% dos brasileiros se automedicam, aproximadamente 34% dos casos de intoxicação têm a ver com remédios usados da maneira errada e, triste dizer, duas em cada dez pessoas que têm uma intoxicação dessas acabam morrendo.

Médicos precisam estudar os efeitos adversos

Aprenda um conceito básico: "Todo remédio é tóxico, sem exceção. E tudo vai depender da dose e da frequência de administração para o seus bons efeitos superarem os efeitos adversos", ensina a professora Sandra Farsky, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, a grande especialista em toxicologia nessa instituição e que atualmente é presidente da ABCF.

Portanto, a rigor, você não deveria tomar por conta própria nem sequer medicamento sem tarja, como um reles comprimido para dor de cabeça. Orientação sempre cai bem.

A questão importante que devemos encarar com transparência é que os médicos em princípio não entendem muito de efeitos adversos. Aliás, eles aprendem uma pitada sobre que remédios usar para tratar doenças na faculdade — e só.

"Nenhum curso de Medicina no país inclui a disciplina de toxicologia de medicamentos", diz a professora Sandra. Logo, não espere do seu clínico uma formação para saber quando e como um remédio pode fazer muito mal. Ele também precisa se atentar que toda droga pode produzir reações diferentes conforme certas condições no organismo, incluindo o uso de outras medicações capazes de levar a interações perigosas. Daí que a automedicação não explica todos os problemas ligados ao uso irracional de remédios. Às vezes, eles começam na prescrição.

O que está ao nosso alcance

Nesse cenário, como será que podemos nos precaver? "O primeiro passo é compreender que qualquer medicamento pode causar danos", reforça Lyra Junior. "E causa anos até mesmo quando usado apropriadamente", complementa Sandra Farsky."Sempre é preciso pesar os riscos e os benefícios."

O segundo ponto é não pegar a receita como se aquele fosse o último instante da consulta, dar aquela batida de olhos só para ver se entendeu a letra e se mandar da sala do médico. É preciso expor todas as dúvidas, levantando as questões sobre efeitos colaterais e possíveis interações.

Além de prestar atenção se o papel tem data, se você compreendeu a dosagem, os intervalos da medicação e o tempo do tratamento — opa, ele precisa estar explicitado ali — , repare se estão descritos detalhes que importam bastante."Um deles é a concentração", aponta o professor Lyra Junior.

Provavelmente você já teve a experiência de buscar um remédio com tantos miligramas do princípio ativo e encontrar no balcão uma caixa com a metade da concentração, topando engolir o dobro de comprimidos para compensar. Ou levou medicamento com concentração maior para quebrar a pílula ao meio. Aí, o risco de errar na dosagem ou se confundir é grande. Se não achar a concentração da prescrição, vá até outra farmácia.

"O mesmo vale para a formulação", explica o farmacêutico. "Se está escrito creme, não leve o comprimido. A proposta será outra e você nem saberá como usar direito." Ora, formulações diferentes têm tempos e regiões de absorção diferentes. Há comprimidos que as pessoas usam sob a língua e que não foram feitos para isso. Daí que não alcançam a dosagem adequada e o tratamento perde eficácia. Os pacientes costumam ignorar esses detalhes. Então, que sejam racionais, o que significa não engolir nada por pura desorientação. Ainda mais na pandemia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL