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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Muita calma: o que você precisa de fato saber sobre covid-19 e gravidez

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

22/04/2021 04h00

Esperar um bebê nestes tempos oferece um desafio: o de manter a serenidade diante de informações desencontradas sobre covid-19 e gravidez. Se a gestante passar por essa prova, estará pronta para a primeira febre, o primeiro tombo, o primeiro dia de aula — estará pronta para tudo! Brinco, só para reconhecer que não é fácil.

Gerar uma criança sempre coloca o organismo feminino em um estado que merece o adjetivo de interessante, tamanho o rebuliço interno e o rearranjo anatômico. Tudo se altera e sai do lugar para o objetivo número 1 dessa jornada de nove meses, que é deixar que a criança venha ao mundo.

Há mudanças que tornam as mulheres nessa fase verdadeiras fortalezas. Outras as deixam mais vulneráveis. Sempre foi assim, muito antes de o Sars-CoV 2 ter arrancado a graça de quase tudo. Mas qual seria o caso aqui? Será que as grávidas seriam realmente mais frágeis diante desse coronavírus famigerado?

Conversei com dois médicos do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, que se complementaram nas explicações. Rômulo Negrini, além de coordenar a obstetrícia da instituição, é um baita especialista em gravidez de alto risco. Já o infectologista Fernando Gatti é o coordenador do controle de infecção do hospital e, portanto, estuda a ameaça de alguém pegar covid como poucos. Assim, eles cercaram as principais dúvidas de todos nós.

Gravidez não é doença, mas...

Tem razão: grávidas não são doentes. Mas podem adoecer. Quando esperam um bebê, as mulheres se tornam mais vulneráveis a infecções e todo cuidado no sentido de preveni-las sempre valeu a pena desde que o mundo é mundo, muito antes de ele virar de pernas para o ar.

As defesas baixam um pouco a bola. "Existe um corpo diferente se desenvolvendo dentro do organismo. E essa é a estratégia para que elas o aceitem, sem atacar as células do bebê como fariam com algo esquisito", explica o obstetra Rômulo Negrini.

O que fica mais reduzida é a chamada imunidade celular, capitaneada pelos linfócitos T. Eles procuram destruir células que, digamos, exibem sinais estranhos — como seriam as da criança e como aquelas que, por azar, estão infectadas por vírus. Logo, em tese as grávidas seriam mais sujeitas especialmente a viroses — e, mais ainda, frágeis diante de viroses respiratórias. Tanto que são prioridade na vacinação da gripe.

"Na medida em que o útero cresce, ele vai pressionando o diafragma, o músculo envolvido na respiração, e assim a gente também nota uma diminuição da reserva respiratória", justifica o infectologista Fernando Gatti. Em outras palavras, cai a capacidade dos pulmões. Portanto, eles já não são os mesmos, se tiverem de aturar um agente infeccioso.

Tudo isso junto se traduz, em tese, em uma maior vulnerabilidade, se a gestante pegar uma infecção respiratória, como é a covid-19. Mas não significa que a mulher esperando bebê pega covid-19 com maior facilidade, o que são outros quinhentos."Os dados que temos até o momento não mostram uma maior prevalência da infecção em grávidas", deixa claro o doutor Negrini.

Aliás, também é bom esclarecer que não há estudo apontando que as novas cepas do Sars-Cov 2 seriam mais perigosas para gestantes. Disso, ninguém sabe. "O que sabemos é que são mais transmissíveis", diz o doutor Gatti. "E, se estamos vendo mais casos em mulheres jovens, entre elas as grávidas, talvez seja porque esse grupo se expôs mais, participando de confraternizações, por exemplo."

Pré-natal: igual ao de sempre

Seja por medo da covid-19, seja por qualquer dificuldade para acessar o médico, muitas grávidas estão deixando de fazer o pré-natal. "E ele seria necessário mais do que nunca", avisa Rômulo Negrini.

Ora, uma de suas funções é flagrar doenças bem capazes de surgir na gravidez, como diabetes, obesidade e pressão alta. Dar orientações para que problemas assim nem sequer apareçam ou tratá-los de modo adequado se torna mais importante agora. Afinal, todas as três doenças estão relacionadas a quadros severos de covid-19, se por acaso a grávida se infectar.

O acompanhamento precisa ser realizado, nem que seja por meio de telemedicina. E não há exame diferente nele por causa da pandemia."Não existe a recomendação de ficar fazendo testes de covid-19 durante a gravidez, a não ser se houver sintomas ou se a mulher teve contato com alguém que contraiu o Sars-Cov 2", afirma Fernando Gatti.

Se a gestante pega covid-19

"Ela deve buscar imediatamente o seu obstetra, que é quem conhece bem aquela gestação", prioriza o infectologista. Aliás, parênteses, o certo seria esse especialista apontar se a sua paciente grávida deve tomar a vacina, sabendo como ninguém do que se passa com a sua saúde. Sim, pelos dados que vêm de fora, a vacinação é segura para futuras mamães.

"Se a grávida estiver infectada, ela também deve adquirir um oxímetro de pulso para medir sua oxigenação no mínimo três vezes ao dia", orienta o doutor Gatti. Se ela ficar menor do que 94%, a ordem será correr ao pronto-socorro. A gestante também deve ir para lá se sentir falta de ar, mesmo que o oxímetro diga que está tudo bem."

No atendimento, serão feitos exames, como o de proteína C reativa para ver se há uma inflamação se alastrando, e o de função renal — tudo para prever se aquela covid-19 tem chance de se complicar. É ficar esperto. E, claro, se houver necessidade de internação, mãe e filho serão monitorados o tempo todo.

Cuidado com a febre

O termômetro precisa ser usado com frequência. Ao menor sinal de a temperatura subir, a gestante deverá tomar um antitérmico. Rômulo Negrini explica que a elevação da temperatura aumenta demais a frequência cardíaca do bebê. Isso vale para qualquer doença.

Não é para sair tomando anticoagulante

Esse é o tipo de remédio que só deve ser usado com prescrição e cuidado, geralmente quando a grávida com covid precisou ser internada. "Sempre há riscos de sangramentos que são bastantes indesejáveis", alerta o doutor Gatti.

Nos quadros um pouco mais agressivos de covid-19, porém, faz sentido entrar com a medicação direto no hospital. "A gestação, por si só, faz o organismo formar trombos com uma facilidade até 100 vezes maior", explica Rômulo Negrini. "É que, no parto, a mulher elimina a placenta, onde há uma série de vasos sanguíneos que precisam ser fechados depressa, o que ocorre graças a um fenômeno que chamamos de trombotamponamento. Sem isso, a mãe sangraria sem parar depois."

Cautela ao ouvir falar de riscos

Cerca de 1% das grávidas sofre de pré-eclâmpsia, ou seja, de um aumento preocupante da pressão arterial, geralmente a partir da 20ª semana de gestação. E dizem que essa ameaça aumenta mais de 20%, se a mulher está com covid. Calma. Feitas as contas, o risco relativo fica então em algo entre 1,2% e 1,3%. "É um aumento, sem dúvida. Mas pequeno para gerar pânico", observa o doutor Negrini.

Outra informação que circula, esta com a assinatura do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos, é a do aumento na taxa de prematuridade, que subiria mais de 20% nas gestantes com covid-19, enquanto a taxa geral antes da pandemia girava em torno dos 10%. Mas de novo: isso não quer dizer que 20 em cada 100 grávidas com a infecção têm parto prematuro e, sim, que a taxa saltou de 10% para 12,6%.

Era esperado: "Toda e qualquer infecção, e não só a covid-19, pode acelerar o parto", informa o obstetra. "Isso porque inevitavelmente desencadeia substâncias inflamatórias, como a prostaglandina, a qual leva a contrações uterinas".

O próprio bebê faz aumentar as prostaglandinas no líquido amniótico quando chega a sua hora de nascer. Por falar nisso, esse líquido também pode diminuir na covid-19, assim como em outra infecção. Para debelá-la, o organismo dilata e aumenta a permeabilidade dos vasos, o que diminui o aporte de líquido para o ventre. Não se preocupe. "O mais importante é observar a oxigenação", reforça Fernando Gatti.

Na hora do parto

São necessários todos os cuidados, se a mulher que está para dar à luz apresenta a infecção. Ela deverá usar máscara, ficar em quarto isolado — no Einstein, há até um sistema para o ar no interior do cômodo não sair para os corredores — e tudo mais, já que o novo conoravírus se dispersa por aerossóis, microscópicas gotículas no ar. Aliás, mesmo sem apresentar qualquer sintoma, toda grávida precisa ser testada ao pisar na maternidade.

Ao nascer, o bebê está protegido

"O bebê, porém, não precisa ficar em isolamento", garante Rômulo Negrini, "Até mais ou menos 2 anos de idade, as células têm uma quantidade bem menor dos receptores por onde esse coronavírus entra." Inclusive, com a mãe devidamente mascarada, a criança é amamentada logo ao nascer. Não há qualquer prova de contaminação de mãe para filho no parto.

Mesmo assim, para amamentar em casa, a orientação é que a mulher infectada sempre use máscara. "E, após amamentá-lo, o certo é manter aquela distância de 1,5 a 2 metros do filho", explica o doutor Gatti. Mas, depois que o Sars-CoV 2 some de cena, a vida segue normal. Ou no novo normal, na esperança sincera de que essa criança encontre mundo melhor com os aprendizados dessa travessia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL