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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Covid-19: sem a segunda dose da vacina, você está tão indefeso quanto antes

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

20/04/2021 04h00

Não existe ligeiramente grávida, tampouco existe alguém ligeiramente vacinado contra qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo. Vacinar-se é seguir o esquema que está na cartilha do começo ao fim, sem deixar doses pelo caminho, se houver mais de uma. Parar no meio do jogo é pedir para sair. E, quando se trata de uma pandemia como a que enfrentamos, esse "quase imunizado" — que portanto nem existe— é o que às vezes mata.

Na semana passada, o governo anunciou que pelo menos 1,5 milhão de brasileiros tomaram a primeira dose do imunizante contra o novo coronavírus e simplesmente não apareceram na data combinada para receber a medicação pela segunda vez.

Insisto no assunto. Como não vi nenhuma campanha ostensiva para arrebanhar as ovelhas perdidas da fila de vacinação, creio que talvez esse número tenha, inclusive, aumentado. E a nossa preocupação deveria crescer junto.

Ora, existe por aí gente que se acha protegida quando, na verdade, se tivesse tomado um copo d'água antes de sair de casa daria praticamente na mesma em matéria de escudo contra o Sars-CoV 2.

Esses indivíduos podem ter uma sensação equivocada de segurança, correndo um risco pessoal e colocando em perigo quem está à sua volta. Mais: como qualquer um de nós quando se descuida, se tornam um berçário de novas variantes do vírus, tudo do que decididamente não precisamos.

Mas, claro, não estou me referindo àqueles que realmente tiveram algum problema sério e não puderem comparecer. Estes têm plena consciência de sua fragilidade, embora a recomendação seja a mesma: tomar a segunda dose assim que possível.

A questão é: e agora, essas criaturas voltariam à estaca zero e precisariam receber a primeiríssima dose de novo? Em princípio, não é bem assim. Mas bom seria se corressem ao posto de vacinação para colocar a carteirinha em dia.

O tempo escoa por uma ampulheta e a verdade é que a ciência ainda não sabe com precisão quando a areia vai acabar de cair, isto é, quando o efeito da segunda dose perderá sua função pelo tamanho do atraso.

Mas, muita atenção, é melhor apostar em tomá-la do que não fazer nada, desistindo de vez e jogando a toalha no chão. "Afinal, sem ela, a pessoa tem uma única certeza: ela está sem proteção", avisa o imunologista João Viola, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer e à frente Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, da qual já foi presidente.

Ou seja, se até a segunda dose já tiver passado muito tempo e ela não adiantar para grande coisa, pior do que está, não fica. Mas a esperança é de que ainda funcione — talvez não do mesmo jeito, conforme o tempo de espera. Ao menos, será alguma coisa.

Na intimidade do sistema imune

Quando qualquer estranho entra no organismo — e com o Sars-CoV 2 não seria diferente —, o sistema imunológico o recebe com células encarregadas daquilo que os especialistas chamam de resposta inata. "Ela é rápida demais. Leva minutos ou, no máximo, poucas horas", conta o doutor João Viola.

A tal resposta inata é de fato importantíssima para a gente controlar uma infecção. "Mas ela não é nada específica", explica o imunologista, apontando a sua desvantagem. O que ele quer dizer: bactérias, protozoários, vírus causadores de uma simples dor de garganta ou o famigerado coronavírus da covid-19, todos acabam sendo recebidos da mesmíssima maneira por células como os mastócitos e os neutrófilos. E diga-se: não é uma recepção amigável.

O problema é que, sem uma estratégia sob medida para cada invasor, essas células imunes nem sempre são eficazes para derrotá-lo. Em geral, apenas prestam o bom serviço de segurar o seu avanço.

Isso porque o sistema imunológico precisa de tempo maior para montar uma resposta bem mais eficiente, conhecida por adaptativa. "Só que ela é tardia, levando de 15 a 20 dias, em média, para se formar completamente", conta o doutor Viola.

Na resposta adaptativa, dois tipos de células são protagonistas. Um deles são os linfócitos B, aqueles que produzem anticorpos capazes de se ligar, no caso específico do novo coronavírus, à famosa proteína S usada para entrar em nossas células. É um jeito de bloqueá-la. E há também os linfócitos T, que não miram o vírus em si, mas atacam as células infectadas por ele.

"Podemos dizer que, quando essas duas estratégias da resposta adaptativa funcionam direito — a produção de anticorpos e a defesa celular —, o sistema imune consegue criar uma memória", explica João Viola. Daí que, se o organismo tiver contato com o mesmo invasor em uma segunda ocasião, a resposta adaptativa será ligeira. Entenda: ainda mais no caso da covid-19, isso é crucial.

"Nessa doença, o que notamos é um total descontrole daquela primeira resposta, a inata", explica o imunologista. "Nessa primeira fase, o novo coronavírus desencadeia reações furiosas, como a tal tempestade de citocinas, por exemplo", diz ele. Então, quando a resposta adaptativa chega dias depois, o estrago está feito.

"As vacinas contra a covid-19", esclarece João Viola, "não têm a pretensão de evitar a infecção propriamente dita, mas a de prevenir os quadros graves, que exigem internações e que podem matar." Como?

Quando apresentam o perfil do inimigo para o organismo, essas vacinas dão a oportunidade de ele criar memória e, assim, ao ser eventualmente infectado pelo Sars-CoV2 pra valer, montar uma resposta adaptativa bem mais depressa, antes de a inflamação disparada por ele tomar conta do pedaço.

No entanto, sem a segunda dose, essa memória não existe e a resposta adaptativa então tende a acontecer no tempo de sempre. A exceção seria o imunizante da Johnson & Johnson, que exige uma única picada.

Número e intervalo entre doses

"Existem vacinas que você toma e o sistema imunológico já cria memória para o resto da vida, como a contra o sarampo", lembra o doutor João Viola. "Mas a maioria, para você ter uma resposta adaptativa de longa duração, precisa apresentar o agente infeccioso ao seu organismo de novo, como se lhe desafiasse."

Muitos fatores determinam quantas vezes as células imunológicas precisam ser desafiadas desse jeito e qual seria o intervalo vacinal. Geralmente, a pirraça é maior — e a resposta eficiente mais garantida — se a segunda dose chega quando a resposta adaptativa está despencando, passado algum tempo.

"Só a ciência, observando muitas pessoas vacinadas, mostra direito o momento em que isso acontece, fazendo eventuais ajustes no calendário", diz o imunologista. Ele lembra que, quando a vacina de HPV foi lançada, falava-se em três doses. Mas depois os cientistas viram que, a partir da segunda, a resposta adaptativa já tinha consolidado a memória e que só seria necessário um reforço — a terceira dose — anos depois.

"No caso da covid-19, ainda temos poucas pessoas vacinadas no país, onde circulam novas variantes. Sem contar que a vacinação começou há menos de seis meses. Então, até que a realidade mostre algo diferente, vale aquilo que já foi exaustivamente estudado na fase de testes", afirma, categórico, João Viola.

Sobre as vacinas que temos por aqui.

Segundo o imunologista, no caso da CoronaVac, não há dúvida de que a proteção só aparece após a segunda aplicação, como se a primeira apenas preparasse o terreno. "E essa segunda dose deve ser feita de 15 a 28 dias após a primeira. O que acontece se alguém tomar depois disso? Ninguém sabe. Mas reforço: melhor arriscar ter alguma proteção e se vacinar atrasado."

A vacina de Oxford — produzida pela AstraZeneca/Fiocruz — provou que o momento ideal da segunda dose seria após 90 dias. Além disso, estudos indicam que ela já ofereceria alguma proteção após a primeira aplicação. Fique claro: é uma proteção baixinha, que não resolve na prática, ainda mais vivendo no epicentro da pandemia. No mapa-múndi, este alfinete está espetado no Brasil.

Não entendo como alguém toma uma vacina tão suada para chegar aos nossos braços e acaba perdendo a oportunidade. Há casos e casos. Há pessoas, repito, que por um infortúnio realmente não puderam fazer isso. Mas há, sim, gente que simplesmente deixou para lá.

No caso da vacina de Oxford, alguns senhores e senhoras abriram mão da segunda dose com medo de trombos. Bem, o risco aponta ser de apenas quatro casos desse perrengue a cada 1 milhão de pessoas vacinadas. No caso da covid-19, porém, 160 mil pessoas têm trombose a cada 1 milhão de infectados — o que me parece um risco incomparavelmente maior para cidadão "ligeiramente vacinado" e para todo mundo que cruzar com ele.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL