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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Sete pontos que toda mulher ainda precisa saber sobre a endometriose

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

15/04/2021 04h00

De 10% a 15% das mulheres em idade reprodutiva se acham maria-das-dores. Isso significa mais de 7 milhões de brasileiras. Elas sofrem de uma cólica tão forte no período menstrual que, muitas vezes, isso as impede de fazer qualquer coisa. Aliás, menstruadas, também podem sentir dor ao evacuar e ao urinar.

Não bastasse esse tormento, ainda sentem dor no que seria a hora prazerosa do sexo. E talvez reclamem de um incômodo na região pélvica entre as menstruações. Sem contar a dificuldade para engravidar.

Elas sofrem de endometriose, uma doença que precisa ser encarada de vez como uma questão importante de saúde pública — aliás, a afirmação recente é da Organização Mundial de Saúde.

Não à toa. "A endometriose é a maior causa de infertilidade feminina e de absenteísmo entre as mulheres, isto é, de falta a compromissos, como o trabalho", justifica Maurício Abrão, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, coordenador da ginecologia da BP, a Beneficência Portuguesa, e vice-presidente da AAGL, a Associação Americana de Laparoscopia Ginecológica, da qual ele será o presidente — o primeiro não americano na função — a partir do ano que vem.

Os estudos assinados pelo doutor Abrão e seus colegas representam um divisor de águas no diagnóstico e até no tratamento dessa doença que as mulheres ainda levam de sete a doze anos para descobrir que têm. E, quando descobrem, costumam seguir pisando em falso. O que elas precisariam saber?

1. O gatilho imunológico

A doença acontece quando o endométrio, a mucosa que reveste o interior do útero, escapa dali e se instala em outro canto do corpo.

Ele pode se implantar no peritônio, o tecido que reveste toda a cavidade abdominal. Pode formar cistos que lembram chocolate nos ovários. Ou, pior, o endométrio fugidio é capaz de invadir intestino, bexiga, outros órgãos. Pode parar até no diafragma, o músculo da respiração.

Mas, obedecendo ao ciclo dos hormônios femininos, ele se comporta como se continuasse em seu endereço de origem. Isto é, cresce, sangra e descama. No lugar errado, imagine o escarcéu.

A doença foi descrita pela primeira vez por volta de 1860, embora só lá pelos anos 1920 é que começaram a explicar a sua possível causa. Na ocasião, se falou em menstruação retrógrada, quando o fluxo de sangue, em vez de escorrer pela vagina, reflui um pouco, entra nas tubas uterinas e, no final delas, escapole.

"Nos anos 1980, porém, os cientistas se perguntaram por que algumas mulheres com menstruação retrógrada acabavam com endometriose e outras, não. E aí se descobriu que havia um gatilho imunológico. Ora, a menstruação retrógrada é um fenômeno natural. Toda mulher com tubas uterinas normais vai ter em algum grau", conta o doutor Abrão. "Só que o sistema imune deve ir lá e não deixar o endométrio se infiltrar em outro lugar. A questão é que ele nem sempre é competente para isso."

Segundo o ginecologista, outras condições que envolvem células imunológicas são primas, ainda que distantes, da endometriose: "A tiroidite de Hashimoto, e as doenças inflamatórias intestinais servem de exemplo", diz. Então, se você tem um problema desses e sofre de cólicas exuberantes, desconfie de uma eventual parceria entre as duas encrencas.

2. O elo com o estresse

Fato: a endometriose é bem mais frequente hoje. Você pode pensar que uma boa razão seria a mulher moderna ter menos filhos e deixar para engravidar mais tarde. Estará raciocinando certo: "No século passado, ela menstruava cerca de 40 vezes ao longo da vida e, agora, menstrua umas 400", aponta o doutor Abrão. Cada menstruação é uma oportunidade para o sangue refluir, carregando junto células do endométrio que irão se implantar nas vizinhanças do útero.

No entanto, por causa daquele gatilho imunológico, o elo com determinados estados emocionais é nítido: "A endometriose é comum em mulheres ansiosas. E piora bastante quando a paciente vive uma fase estressante. Não adianta dar remédio, nem operar sem examinar o estilo de vida. O médico que trata endometriose não pode olhar para um órgão, mas para o ser humano como um todo", nota o Maurício Abrão, que criou uma página com seu nome no Instagram onde passa informações sobre a doença.

Buscar aliviar as dores sem ajustar a rotina atribulada é como enxugar gelo. O tratamento precisa ser integrativo. Fazer exercício físico, apagar o cigarro no caso das fumantes e gerenciar o estresse são atitudes obrigatórias.

3. Nunca foi normal sentir dor

Desde menina, a mulher aprende que tudo bem ter espasmos ao menstruar — e nunca foi. Aliás, entre 40% e 50% das adolescentes experimentam cólicas incapacitantes que, no consultório do ginecologista, deveriam levar à suspeita de endometriose.

Os sintomas dessa doença são apelidados de "os seis D" e, tirando a de dificuldade para engravidar, as outras cinco vezes em que o "D" aparece têm a ver com dor — para fazer sexo, para urinar, para evacuar, entre as menstruações e, claro, contabilize a dismenorreia, termo médico para a popular cólica feminina. Qualquer uma dessas queixas merece investigação.

4. Endometriose não deveria impedir gravidez

Ao menos, se é tratada direito. Caso contrário, a ameaça de infertilidade é real. O endométrio deslocado pode provocar aderências na tuba uterina, bloqueando o trajeto que levaria o espermatozoide até o óvulo. Também é capaz de impedir a ovulação. E, se mesmo assim a mulher engravida, o embrião talvez não consiga se implantar no útero.

"Muitas pacientes com dificuldade para engravidar procuraram a fertilização assistida antes de saberem se têm ou se não têm endometriose", observa Maurício Abrão. Atenção: essa hipótese deve ser afastada. Às vezes, a gravidez dá certo após a endometriose ser resolvida. "Temos algoritmos que podem prever a chance de isso acontecer com o tratamento cirúrgico e quem deve congelar os óvulos antes da operação para se submeter a uma fertilização assistida depois", exemplifica.

5. O diagnóstico por imagem

Antes, ele era um perrengue. O ultrassom nunca visualizava direito quanto do endométrio se espalhava e por onde. "O diagnóstico, então, era feito por laparoscopia", lembra o médico. Mas, por mais que seja minimamente invasiva, fazendo furos na barriga no lugar de cortes, ela não deixa de ser um procedimento cirúrgico, envolvendo desde internação até anestesia. Complicava.

O pulo-do-gato, pelo qual Maurício Abrão é reconhecido, é realizar um ultrassom com preparo intestinal. O médico é um dos autores do trabalho realizado na Universidade de São Paulo demonstrando que as fezes no intestino atrapalhavam as ondas sonoras emitidas pelo equipamento, resultando em uma imagem ruim. Ao esvaziar a porção colorretal, porém, com o radiologista de olho em sítios muito específicos, é possível fazer um mapeamento da endometriose e, a partir dele, planejar o tratamento ideal.

Médicos do mundo inteiro já foram treinados por Maurício Abrão e a laparoscopia para o diagnóstico tende a ser cada vez mais abandonada. Mas fique claro: o ultrassom sem o preparo intestinal e sem um radiologista treinado para caçar os focos de endometriose ajuda pouco.

6. O tratamento que resolve

"Analgésicos, antiinflamatórios e hormônios, como o dos anticoncepcionais, não tratam a doença, apenas podem estabilizá-la e reduzir os sintomas", esclarece o o ginecologista.

Será então que a saída sempre é cirúrgica? "Nada disso. Um bom cirurgião é aquele capaz de contraindicar a cirurgia", diz o doutor. Se os sintomas são leves e se não há outros fatores, como a presença de fibroses, ele controla a endometriose com medicamentos e ajustes no estilo de vida. "Só é preciso fazer um acompanhamento regular para ver se algo muda", avisa. "E, se muda, aí a cirurgia é que pode brecar de vez o processo."

Existem casos que avançam lentamente e outros que parecem tomar conta do pedaço em curto prazo. Daí que não dá para perder a consulta regular no gineco.

7. Outras confusões

A preocupação é maior quando o endométrio se infiltra em outros órgãos e ameaça, por exemplo, obstruir de vez o intestino. Às vezes, os sintomas da doença avançando são inusitados, diga-se: um endométrio que foi parar no diafragma é capaz de provocar dor nos ombros. "E há até casos de dor no ciático que tem a ver, na verdade, com endometriose", alerta Maurício Abrão.

Finalmente, existe a adenomiose, que já foi chamada de endometriose interna. É outro problema. "Nela, o endométrio cresce para dentro do músculo do útero provocando cólicas intensas", diz. Voltamos ao ponto: a cólica não deve ser tolerada. Quem a sente deve pensar em endometriose.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL