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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por que, um dia, as mutações alarmantes do Sars-CoV-2 vão parar de aparecer

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

08/04/2021 04h00

Para tudo há um limite — até para o aparecimento de variantes do novo coronavírus, dessas que andam tirando o sono da ciência e da gente. De tanto ouvir falar delas, inclusive do medo justificável de que diminuam a eficácia das vacinas que temos por aí, e uma vez escancarada a realidade de que são mais perigosas, dá até a impressão de que viveremos esse pesadelo para sempre, vendo imunizante atrás de imunizante ser ameaçado de ir para as cucuias por causa de alguma nova cepa do vírus maldito. Mas parece que não é bem assim.

"Não há espaço para o surgimento de tantas outras mutações capazes de nos preocupar", pondera o médico e pesquisador Jorge Kalil Filho, professor de imunologia clínica e alergia da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e diretor do Laboratório de Imunologia do InCor (Instituto do Coração), em São Paulo.

E ele não deixa de se referir a espaço ao pé da letra. "Talvez, e é bem provável, a gente ainda veja o aparecimento de duas ou três dessas variantes que merecem atenção", prevê o professor, que é respeitadíssimo nos meios acadêmicos internacionais.

Ouvir isso de sua boca não significa que as coisas estejam fáceis, nem que "duas ou três" novas variantes mais preocupantes pela frente não possam fazer um estrago danado.

Os gráficos que o próprio professor Kalil mostrou durante sua aula em um evento sobre a covid-19 no CAAT —plataforma online de atualização científica para profissionais de saúde, onde ela permanece gravada — deixam claro que as variantes se espalham que nem fogo no palheiro.

Em regiões brasileiras onde antes a maioria das infecções tinha a ver com o vírus original, a chegada de uma das novas cepas rapidamente fez a coisa mudar de figura. As variantes do Sars-CoV-2 passaram então a dominar o pedaço, quase com fúria.

No entanto, pensar que não será assim indefinidamente, se ainda não é ver luz no fim do túnel, ao menos significa que, um dia, esse túnel poderá ter fim. Até lá...

Os anticorpos que interessam

Um vírus livre e solto pelo seu corpo não é coisa alguma. Todo vírus, e o Sars-CoV-2 não é exceção, precisa estar dentro de uma célula. Ali é que se reproduz e assim o seu ciclo nefasto continua.

Do lado de fora, até conseguir essa guarida, ele primeiro pode ser detido por alguns glóbulos brancos que compõem a nossa imunidade inata, como macrófagos e monócitos. Que, no caso, apenas seguram um pouco a onda do invasor. Ganham tempo. O que poderia detê-lo antes de invadir uma nova célula seriam os anticorpos neutralizantes. Guarde este adjetivo — neutralizantes.

Ora, para entrar em uma célula, o causador da covid-19 usa uma proteína, a chamada spike, aquela tal que lhe dá uma aparência espinhuda. Ela seria comparável a uma chave. A fechadura da célula, por sua vez, é o receptor ECA2.

"Mas, olhando de perto, não é essa proteína spike inteira que se liga ao receptor e, sim, um pedaço dela, um pequeno sítio que chamamos de RBD, do inglês receptor-binding domain ou domínio de ligação ao receptor", me explica melhor o professor.

Portanto, os anticorpos que nos importam devem bloquear exatamente esse trechinho — e aí recebem a alcunha de neutralizantes. "Durante a infecção, até produzimos anticorpos que se ligam a outras partes do vírus, mas eles não adiantam porque não vão neutralizar", completa o imunologista. Se fosse batalha naval, seriam um tiro n'água. É o RBD que precisa ser acertado em cheio.

As mutações que preocupam

Da mesma maneira, como me diz o professor Kalil, as variantes que despertam interesse dos cientistas sempre são aquelas que apresentam alterações no tal RBD. "Elas que são perigosas", resume. "Todas as outras, em que o vírus mudou algo aqui e ali fora desse pedaço — e, acredite, já aconteceram centenas ou milhares delas — não preocupam", garante.

Mas no RBD, se o vírus trocar qualquer proteína, isso poderá fazer com que ele se ligue melhor ao receptor, destrancando uma célula mais ligeiro, por exemplo. O que, infelizmente, vem acontecendo.

As três variantes que mais importam

A primeira que surgiu foi a variante britânica, lá pelo final do ano passado. "A gente já tem certeza que ela é mais infecciosa e que é muito mais capaz de causar a doença em crianças", conta o professor Kalil. A variante britânica possui uma alteração em um único aminoácido do RBD, mas só isso já leva a uma maior afinidade com o receptor das células".

As variantes sul-africanas e brasileiras também têm essa alteração que surgiu na britânica. Porém, foram além. Elas apresentam mais duas alterações importantes. Para complicar, a variante sul-africana ainda trouxe para essa molécula alterada uma outra de açúcar — e o açúcar, intrometendo-se nessa história, atrapalha um bocado o reconhecimento dos anticorpos. Tudo piora.

Nossas armas se tornam menos eficientes

Agora imagine — de maneira talvez um tanto simplista, mas válida — que há vários anticorpos neutralizantes, cada um se encaixando em um ponto do RBD, dificultando sua ligação ao receptor na parede das células. "Se há mutação, porém, perdemos um ou dois pontos onde esses anticorpos se encaixariam e talvez o que sobre para eles não seja o suficiente para segurar o vírus", descreve o professor Kalil.

Logo, os anticorpos que alguém produziu ao ser infectado pelo vírus original ou ao tomar uma vacina desenvolvida antes do aparecimento de variantes podem não ser tão eficazes, porque não irão se ligar aos pontos alterados. Daí que, mais do que nunca, é esperado ter gente reinfectada. Ou que pega a covid-19 mesmo tendo sido vacinada.

Da mesma forma, existem muitos anticorpos monoclonais, criados em laboratórios a partir de células de indivíduos infectados — como o que o ex-presidente Donald Trump recebeu quando estava doente — que pararam de funcionar. "Pequenas alterações nos aminoácidos do RBD já fazem com que eles não reconheçam mais esse sítio", informa o professor Kalil.

A eficácia das vacinas

Existe uma correlação entre a presença de anticorpos neutralizantes no sangue e a eficácia de qualquer vacina. O organismo também conta com outra estratégia, a imunidade celular, que não mira o vírus em si, mas destrói as células infectadas por ele. No entanto, essa tal imunidade celular é difícil de ser dosada. Então, os cientistas partem do pressuposto de que, se há anticorpos neutralizantes — algo que eles conseguem testar—, possivelmente há uma boa imunidade celular também.

Só que, a julgar apenas pelos anticorpos, existe uma diminuição de eficácia das vacinas diante das novas variantes. O vírus alterado muitas vezes lhes escapa. Aliás, é assim que os cientistas falam: escape viral.

"Os anticorpos produzidos pelas vacinas conseguiam deter o vírus original", observa o professor Kalil. "Mas, em geral, eles neutralizam as variantes brasileiras até dez vezes menos. E, se olharmos para a variante da África do Sul, chegam a neutralizar 90% menos. A própria eficácia vacina da Pfizer, que em princípio oferecia uma proteção altíssima, caiu bastante com a variante britânica", conta.

Diga-se, ela parece despencar ainda mais com a variante brasileira e terrivelmente mais com a variante sul-africana. Esse parece ser um triste padrão de derrocada de todas as vacinas, sendo que algumas já têm um ponto de partida mais baixo do que o da vacina da Pfizer, citada aqui como exemplo.

Mas o professor Kalil frisa: "Mesmo com a eficiência diminuída e deixando de barrar a doença, as vacinas podem evitar os quadros graves com as novas variantes, o que já é excelente".

O fim das más surpresas

Não seremos surpreendidos por novas variantes para sempre. "Fácil entender: o RBD é finito", diz o professor. Ou seja, esse vírus já mudou em três sítios e não tem muito mais o que mudar no diminuto RBD.

E calma: os cientistas devem criar o que chamam de pontes nas vacinas contra a covid-19, tal qual já fazem todos os anos com a da gripe. É como se a primeira versão do vírus "caminhasse" até a versão alterada. Uma adaptação. Os imunizantes que provaram ser eficazes para o vírus original não voltarão à estaca zero.

Ainda assim, o primordial é gente respeitar o bendito isolamento. Cada pessoa infectada é uma chance de mutação, uma oportunidade para o Sars-CoV-2 usar essas balas que ainda tem no cartucho, quando nem estamos dando conta das variantes já existentes. Estas se transmitem com facilidade, provocam mais quadros graves e matam mais também. Um dia isso termina. Quando? Depende bastante de nós.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL