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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

O coração depois da covid: espere um tempo antes de voltar a se exercitar

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

01/04/2021 04h00

Para quem sempre gostou de exercício, quando a covid-19 vai embora, acompanhando a volta do fôlego bate a vontade de calçar os tênis, correr no parque, dar braçadas na piscina, levantar halteres, pegar na raquete...

Não importa a modalidade, aliás, nem sequer importa se é um jovem atleta acostumado a treinar pesado ou se é uma pessoa que só fazia uma atividade mais recreativa: a ordem, consenso em sociedades de cardiologia do mundo inteiro, é esperar um pouco.

Quanto tempo? "Vai depender de cada caso, mas pode ser algo entre duas ou três semanas até seis meses", me explica a cardiologista Carisi Polanczyk, professora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e chefe do Serviço de Cardiologia do Hospital Moinhos de Ventos, em Porto Alegre. Na última segunda-feira, dia 29, ela deu uma aula sobre as consequências cardiovasculares a longo prazo da infecção pelo novo coronavírus no CAAT Covid 19.

O CAAT é uma plataforma educacional gratuita para médicos, que reúne videoaulas com alguns dos maiores especialistas em saúde cardiovascular do país e grandes nomes de outras áreas da Medicina. Ao longo desta semana, a série de palestras, que ficará disponível a esses profissionais, é sobre o impacto da pandemia no peito.

Lá estou eu de intrusa. E quando, no meio de suas explicações sobre o que acontece com o coração, a professora Carisi alertou seus colegas para o cuidado que se deve ter na retomada da atividade física, resolvi entender essa história. Afinal, por quê?

É compreensível que gente habituada a praticar esportes até faça o contrário. Isto é, que procure voltar a treinar vendo que o Sars-CoV-2 se foi — ufa! — e achando que, ao se exercitar, estará até ajudando na recuperação. Só que pode ser um terrível engano. De fato, é preciso cautela. Não acontece com todos, bom eu deixar claro, mas para alguns indivíduos o reinício do exercício fisico pode ser uma antecipação indesejada, que coloca o coração em risco.

"De dez a 25 pessoas em cada 100 que têm a covid-19 ficam com algum acometimento cardíaco quando a infecção em si já foi embora. E, quanto mais graves foram as manifestações dessa doença, mais frequentes são esses problemas no coração", informa a professora.

Os estudos apresentados em sua aula apontam que entre quatro e cinco sujeitos de cada 100 que tiveram uma covid-19 com sintomas leves ou moderados vão ter problemas. Já entre a turma que experimentou quadros severos, as manifestações cardiovasculares chegam a aparecer em 40%, 50% dos casos.

"Há, inclusive, um trabalho de pesquisadores alemães que realizaram ressonância cardíaca em pacientes pós-covid", menciona ela. "Eles encontraram sequelas em até 70% deles. Na maior parte dos casos, observaram sinais de inflamação, mas acharam até mesmo áreas de fibrose em alguns participantes. Elas podem ser consequência de uma miocardite ou, quem sabe, de um infarto." Atenção: essas fibroses foram notadas em quem teve quadros mais graves.

Como a própria professora justifica, diante de uma infecção pulmonar avassaladora, feito nos casos graves de covid-19, pequenos infartos no coração eventualmente passam despercebidos. "No meio do incêndio, todos ficam de olho nos pulmões e, com o paciente na UTI, nem sempre conseguimos fazer os exames necessários para ver o que se passa pra valer com o músculo cardíaco", justifica a professora.

A médica ainda lembra que trilhamos um caminho desconhecido."Todo dia surge um dado novo sobre o impacto desse coronavírus na saúde cardiovascular. É um aprendizado contínuo", resume.

Tudo indica, porém, que a inflamação persistente no coração seja bem mais comum do que se imaginava no princípio desse caos."É por isso que a pessoa que teve a infecção precisa esperar antes de voltar a se exercitar e, de preferência, deve primeiro ir a um clínico ou cardiologista para saber se está tudo bem", aconselha. Um coração inflamado não quer pista, nem quadra, nem esteira, nem nada. Quer descanso.

O tempo da inflamação

Na maioria dos casos, a inflamação do coração tende a persistir por um período que vai de quatro, cinco semanas até dois meses. Não, ela não deve durar para sempre. "Mas, nesse intervalo, o indivíduo está mais propenso a ter uma arritmia grave, capaz de levar a uma parada cardíaca", alerta a professora Carisi.

Isso explicaria mortes súbitas que, infelizmente, vêm ocorrendo entre praticantes de modalidades mais extenuantes após uma suposta recuperação da covid — provavelmente seu coração ainda não tinha superado o episódio da doença.

Um aviso: quem teve a covid-19 deve esperar entre 15 e 20 dias para cogitar uma sessão de exercícios. Essa largada na cronologia do retorno é igual para todo mundo. Portanto, é para sossegar o corpo — e o coração.

"Claro que não estamos falando de um alongamento, uma caminhada ou algo que também seja mais suave", diz a médica. Muito menos ela se refere aos exercícios indicados pelo fisioterapeuta que acompanha o paciente, quando é o caso. Aqui estamos falando de treinos considerados de moderados a intensos, conforme o condicionamento de cada um — sejam na esteira de casa, na academia do prédio, na pista de um parque, enfim, nos lugares possíveis.

A lógica diz que pacientes que tiveram manifestações mais severas da covid-19 nem se sentirão animados a suar a camisa em um prazo tão curto, de duas ou três semanas. Daí que o recado é mais para aqueles que tiveram sintomas moderados, talvez. A eles, vale avisar: após as tais três semanas, é preciso uma reavaliação antes da retomada paulatina dos treinos.

"Nessa revisão, cruzamos os dados de como foi a infecção para esse paciente com os do eletro e os do ecocardiograma", diz a cardiologista. "Se esses exames acusarem qualquer alteração, devemos pedir outros mais elaborados para dar uma orientação com maior segurança."

No final das contas, se os médicos encontram uma inflamação no coração, a recomendação é estender a fase de descanso para um período que vai de três a seis meses, com novos exames períodos no meio do caminho.

E quem teve sintomas leves?

No caso de quem apresentou sintomas mais leves da covid-19, passadas as semanas iniciais de repouso o certo será também procurar uma avaliação cardiológica se sentir algo estranho, como dor no peito. "Pode não ser coração", explica a professora Carisi. "Às vezes é um desconforto da musculatura torácica por causa da tosse." A dor também pode ser consequência de uma maior pressão pulmonar — e isso deve ser bem cuidado.

Outro sinal que indica a necessita de um exame cardiológico é a fadiga. Ora, algo ser frequente é uma história e algo ser normal é outra. A fadiga se mostra um sintoma relativamente comum depois da covid-19, mas ninguém deve encarar que, então, esse cansaço sem fim é normal. Normal a fadiga não é!

"Ela também deve ser avaliada. Pode ser resultado do estresse provocado pela situação", pondera a médica. "Mas também não podemos minimizar, dando uma falsa sensação de segurança: ela também pode estar entregando a tal inflamação no coração."

O coração em outro ritmo

Em sua aula no CAAT, a professora mostrou estudos afirmando que as taquicardias estão entre as queixas frequentes após a covid-19. "Lógico que, em plena infecção, o coração tenta compensar a falta de oxigenação acelerando seus batimentos", conta a professora. "Aí, estamos falando de uma taquicardia reacional, diferente daquela que chamamos de inapropriada, sem esse motivo porque a infecção já passou."

A taquicardia inapropriada pode ocorrer se a inflamação no músculo cardíaco acabou alterando sua eletrofisiologia, ou seja, seus comandos elétricos para se contrair e relaxar. Também há relatos de casos de bradicardia — quando o ritmo dos batimentos, ao contrário, desaceleram demais —, mas esse parece ser um problema muito mais esperado na fase aguda da doença.

Finalmente, algumas pessoas pós-covid ficam com uma hipotensão, ou seja, sua pressão despenca e elas desmaiam do nada, por exemplo, em lugares abafados. "Para esses pacientes, a recomendação será usar meias elásticas, tomar mais água e talvez consumir uma pitada a mais de sal", diz a professora Carisi.

Ela lembra que a pandemia irá passar um dia, mas que o novo coronavirus veio para ficar — no futuro, tomara, infectando um número bem menor de pessoas e de formas mais brandas em função das vacinas. Portanto, os médicos precisam entender o que ele de fato apronta no coração, até para afinarem orientações para a fase pós-covid, como dizer o momento ideal de retomar os treinos e a rotina agitada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL