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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

A incontinência urinária é bastante comum. Mas, por tabu, ninguém fala dela

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

30/03/2021 04h00

Não foi simples chegar até aqui. Só apreciamos este momento porque ocorreram inúmeras adaptações no processo de evolução das espécies. E nesse sentido, acredite, uma aquisição importante foi a capacidade do organismo de reter a urina, deixando para esvaziar bexiga em uma hora mais apropriada. Prender o xixi fez uma diferença de vida e morte.

Ora, se esse líquido escapasse sem o menor controle, deixaria um rastro que fatalmente serviria de mapa para sermos encontrados por predadores. Segurar a vontade de ir ao banheiro, portanto, tem o seu valor na nossa história natural.

Não à toa, no corpo humano há um sistema de esfíncteres, músculos e nervos só para garantir que o esvaziamento da bexiga acontecerá no instante certo, nem um pinguinho antes do desejado.

O revestimento musculoso dessa víscera oca, capaz de armazenar até uns 600 mililitros de urina, é inervado pela sistema autônomo, que manda e desmanda sozinho nos batimentos do coração, por exemplo. Mas curiosamente, no caso específico, ele aceita comandos voluntários.

"Por isso, quando o músculo detrusor na parede da bexiga se estende, enviando o aviso ao cérebro de que ela está cheia, conseguimos esperar", descreve o médico Alfredo Canalini, secretário geral e próximo presidente da SBU (Sociedade Brasileira de Urologia).

Professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ele é um dos pioneiros em avaliação urodinâmica no Brasil, a qual serve para apontar se esse sistema está funcionando direito. "Apenas quando ordenamos a contração da bexiga, é que a uretra — o canal de saída da urina para fora do corpo — deve se abrir feito um canudinho ou, melhor, um funil, deixando o líquido escorrer", continua.

O problema é se algo falha e a urina fica saindo a conta-gotas. Ou, pior, quando ela molha a roupa do nada em um jato sincronizado com um espirro. Ou, ainda, quando o desejo de aliviar uma bexiga parece imperativo, sem dar tempo para você encontrar um toalete por perto. Aí, estamos falando de incontinência urinária.

Aliás, esse é um assunto sobre o qual muita gente se cala: 45% das mulheres brasileiras e 15% dos homens acima dos 40 anos sabem, por experiência própria, do que se trata. E, no entanto, poucos pedem ajuda — "especialmente as mulheres, se o médico não puxa o assunto na consulta, elas nem comentam nada", nota o urologista.

Uma parte omite a queixa por vergonha. Outra, por ignorar que pequenos escapes já podem significar encrenca. E, finalmente, muita gente se conforma com a ideia errada de que não há o que fazer, quando a incontinência urinária tem tratamento. Pena que, durante a pandemia, a procura por ele diminuiu em cerca de 60%, de acordo com a SBU.

A queda é preocupante, como tudo nestes tempos malparados por esse vírus terrível. Se a incontinência urinária já mereceria cuidados por si só, antes de atrapalhar demais a qualidade de vida ou desencadear uma depressão, não se pode esquecer que ela, às vezes, também é a ponta de um iceberg. Afinal, a roupa molhada pode ser a primeiríssima queixa de doenças neurológicas sérias, como a esclerose múltipla, para citar só uma delas.

"Esses males vão deteriorando funções", justifica o professor Canalini que, ao receber um paciente que passou a perder urina, repara até no seu andar. "Se o indivíduo arrasta mais os pés no chão, já levanto a suspeita de problemas neurológicos e ela precisa ser investigada", conta. Mas casos assim são menos frequentes. A maioria se divide entre a incontinência urinária de esforço e a de urgência. São caminhos diferentes que levam ao mesmo final — o xixi fora de controle.

Quando o esforço faz escapar

Se você tosse, espirra ou levanta um peso maior, a pressão dentro de sua barriga aumenta demais. E tudo bem, porque a musculatura do seu assoalho pélvico imediatamente compensa a situação. "Ela empurra bexiga para cima e, se a gente pensar na uretra, funciona como um pé pisando em uma mangueira, que não deixa o esguicho de água sair", compara o professor Canalini.

Mas, com o tempo, essa estrutura de sustentação muda. "Nem suas células parecem as mesmas. A musculatura se torna mais flácida, levando tudo a desabar", diz. Esse tombo interno é mais comum nas mulheres que foram mães, até pelo trabalho de parto que, um dia, pode ter forçado a região pélvica além da conta.

Na visão do médico, os exercícios para fortalecer esse assoalho, orientados por fisioterapeutas especializados, são opção de tratamento quando a incontinência de esforço aparece em mulheres jovens. Mais tarde, porém, eles nem sempre dão conta sozinhos.

"O tecido vaginal e o da uretra têm a mesma origem embriológica", explica. "A vagina tende a atrofiar pela falta do hormônio estrógeno na menopausa e, com a uretra, acontece a mesma coisa. Ela também deixa de ser tão vascularizada, e de secretar um muco que ajudaria a mantê-la fechada, quase colada." Nessas circunstâncias, imagine, nem é preciso forçar tanto para a urina escapulir."Então a saída é uma operação para refazer as estruturas de sustentação", afirma o urologista.

Os cirurgiões podem lançar mão do que chamam de sling, uma espécie de tipoia feita de tela. Ou tiram do abdomen da própria paciente um pedacinho de fáscia, a capa fibrosa que recobre os músculos, para ancorar tudo o que estava caído. O procedimento, seguido da fisioterapia, resolve muitos casos desse tipo de incontinência. Mas não todos.

"A pressão abdominal interna nas mulheres com obesidade costuma ultrapassar os limites que um assoalho pélvico normal suportaria", alerta o médico. "Não adiantará reforçá-lo. Logo, não há cirurgia que funcione. O que essa paciente precisa é perder peso."

E se os homens fazem força?

Será que os homens não perdem urina quando tossem ou espirram? "Eles não têm prolapso", esclarece o professor. Em outras palavras, não têm a popular bexiga caída, em função do assoalho pélvico que despencou. "No entanto, podem sofrer de incontinência de esforço se, devido a um tratamento de câncer de próstata, tiveram de tirar o esfíncter interno", diz.

Esse anel muscular estrangula a passagem da uretra durante o orgasmo masculino, evitando que o esperma pegue o trajeto errado e suba para a bexiga, em vez de sair pela mesma rota da urina.

"Ficando só com o esfíncter externo, o homem tem de aprender a usar o seu assoalho pélvico, contraindo essa musculatura para segurar o jato sempre que sua bexiga ficar cheia. E o fato é que ele não está acostumado a isso", nota o médico. O aprendizado se dá por meio de muita fisioterapia. Aliás, segundo o professor Canalini, entre aqueles pacientes que são acompanhados por um fisioterapeuta no pós-operatório do câncer de próstata , há bem menos casos de incontinência urinária, bom avisar.

A vontade urgente

A história pode ser outra: uma vontade súbita e tão intensa que a sensação é de que, se não correr até o banheiro, a urina escorrerá pelo caminho. "Na incontinência de urgência, a bexiga mais cheia sofre espasmos, percebidos de forma consciente pelo cérebro", conta o professor Canalini. No caso dos homens, a mesma sensação pode ser despertada se essa bolsa anda pressionada por uma próstata que, com a idade, cresceu em demasia — condição conhecida por hiperplasia benigna e que também pode ser tratada.

Já o tratamento da incontinência de urgência em si vai depender do quanto esse problema está bagunçando o dia a dia — ora, se a urgência se manifesta uma vez por semana é uma coisa. Mas, se acontece várias vezes por dia, é outra.

Em geral, os médicos primeiro orientam mudanças comportamentais, como urinar antes de a bexiga chegar a um volume de urina que serviria de gatillho, a partir do qual as contrações aconteceriam.

"No entanto, quando os episódios são frequentes, entramos com medicação de cara", avisa o urologista. Os remédios podem estimular o sistema nervoso simpático, aquele que manda a bexiga ficar quieta, ou inibir o sistema nervoso parassimpático, por trás das contrações involuntárias. A escolha vai depender até de problemas que possam coexistir. "Quem tem uma cardiopatia não deve engolir um estimulante do sistema simpático", exemplifica o professor.

Se a medicação não está adiantando, o passo seguinte é usar um aparelhinho que estimula o nervo tibial da perna através da pele. Essa eletroestimulação ajuda a inibir as contrações. "Se ainda assim não resolver, partimos para a aplicação de toxina botulínica diretamente na bexiga", diz o urologista. O procedimento dá resultado, mas precisar ser repetido a cada seis. A última alternativa é o implante de um neuromodulador, feito um marca-passo, nas raízes dos nervos sacrais para evitar contrações desnecessárias.

O fato é que a incontinência tem tratamento. Para encontrá-lo, porém, é preciso quebrar o tabu e tocar no assunto com o médico. Pense: isso deve ser bem mais fácil do que viver constrangido com medo de urinar por aí.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL