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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Quando a covid sem sintomas sérios vai embora e os problemas surgem depois

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

11/03/2021 04h00

Não é novidade que, para uns, a covid-19 parece ser uma experiência que não passa nunca: a infecção vai embora e alguns de seus sintomas persistem. Outros sinais, por sua vez, surpreendem porque parecem surgir do nada, quando o episódio com o Sars-CoV 2 já estava quase caindo no esquecimento.

Nesse sentido, um estudo recém-publicado por cientistas de quatro instituições americanas — as universidades da Califórnia, de Indiana, de Miami e, ainda, a Clínica Mayo — parece não contar nada de diferente. Pelo menos, até você fazer sua leitura com um pouco mais de atenção.

Os pesquisadores se debruçaram sobre os dados de 1.407 californianos que receberam resultado positivo no exame de RT-PCR, confirmando que estavam mesmo infectados pelo novo coronavírus.

Pois bem, mais de dois meses depois do dia do teste, 27% desses sujeitos, ou precisamente 382 indivíduos, estavam se lamuriando principalmente de uma ou mais das seguintes queixas: falta de ar, tosse constante, dor no peito, sensação de o corpo viver moído como se um trator tivesse passado por cima, diarreias frequentes, ansiedade e outros transtornos de humor, além de fadiga extrema. Ah, sim, não posso me esquecer: problemas de memória foram frequentes também.

O detalhe que faz a diferença nesse trabalho é ser um dos primeiros e, sem dúvida, o maior já realizado até o momento em que todos os participantes não se mostraram muito doentes quando contraíram o Sars-CoV 2. Eles tiveram no máximo sintomas leves e nenhum deles precisou ficar um único dia em um hospital.

Digo mais: perto de um terço dessa turma que sentia algum mal-estar depois de mais de sessenta dias do teste, ou 32% do total, tinha sido completamente assintomática no começo dessa história. Na verdade, já que não apresentava febre nem nada naquela época, só tinha feito o exame do PCR por questão de consciência, para ver se estava com o Sars-CoV 2 após o contato com alguém infectado. Os cientistas ficaram sabendo disso porque analisaram, primeiro, o que todos os participantes do estudo sentiram nos dez primeiros dias de infecção. E, depois, foram ver se algo tinha mudado a partir do sexagésimo dia.

Pode acontecer com qualquer um

Chama a atenção que, no mundaréu de gente observada no estudo, havia 34 crianças — um número pequeno, é fato, para a gente tirar qualquer conclusão. Mas fica o registro de que elas seguiram esse padrão de aproximadamente um terço continuar amargando ou apresentar repentinamente sintomas associados à covid-19 depois de dois meses.

"Sim, podem acontecer tanto as manifestações persistentes quanto as manifestações tardias com qualquer um que é contaminado", concorda o infectologista Rodrigo Molina, que é professor da Universidade do Triângulo Mineiro, em Minas Gerais, e consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Ele e seus colegas já vinham reparando nesse fenômeno. A tosse chata que não some, segundo o médico, é de fato um dos sintomas persistentes mais comuns entre nós. Ao lado dela, a anosmia, que é aquela incapacidade de sentir cheiros, a qual para algumas pessoas parece ser transitória.

"Também não é raro a gente encontrar paciente que, depois de um tempo da infecção, relata sinais de fadiga, um profundo cansaço que atrapalha bastante porque o indivíduo não sente a menor disposição para as atividades do dia a dia", conta o médico.

E ele acrescenta mais uma manifestação tardia da covid-19: a melancolia. "Ela não chega a ser uma depressão, até porque aparentemente dura um período definido, de cerca de um mês", diz o professor Molina, que sabe bem do que fala. Ele próprio foi um paciente assintomático da covid-19 em outubro do ano passado e, algumas semanas depois de o seu organismo ter se livrado do vírus, a melancolia deu as caras — e, felizmente, desapareceu após uns trinta dias.

As possíveis explicações

A melancolia, o professor Rodrigo Molina reconhece, sempre poderá ser atribuída a uma espécie de estresse pós-traumático provocado pela doença. "Querendo ou não, mesmo sem ter sintomas, a pessoa que está infectada fica apreensiva. Ela costuma ter muito receio de ter passado o vírus para alguém próximo e sente medo de seu estado de saúde piorar de uma hora para outra, deixando de ser uma doença assintomática. Portanto, há quem especule que essa melancolia seria um efeito rebote desses dias de maior ansiedade", justifica. Faz sentido.

Para outras manifestações tardias ou que não somem, a justificativa do infectologista mineiro bate com a dos americanos do estudo: tudo teria a ver com as reações inflamatórias do nosso organismo, disparadas pelo vírus.

Aliás, cá entre nós, o Sars-CoV 2 não tem tanto poder de fogo quanto a gente imagina para causar tamanho mal-estar — os sintomas que experimentamos têm muito mais a ver com as reações do sistema imunológico, as quais desencadeiam uma inflamação sem fim. É a inflamação que não larga do nosso pé. "Inclusive, até mesmo a confusão mental notada em alguns pacientes que tiveram a covid-19 pode ser por causa dela", diz o professor Molina, lembrando que alguns estudos já demonstraram sinais de inflamação no sistema nervoso central.

Desde o início da pandemia, todos já alardeavam a famosa tempestade de citocinas, moléculas inflamatórias que parecem inundar o organismo infectado pelo vírus da covid-19, em uma resposta feroz à sua presença. O vírus podia até ter sido varrido do corpo, mas as citocinas continuavam encharcando os pulmões de líquido, o que é um dos fenômenos de uma inflamação das bravas.

E desde o início da pandemia, também, notou-se que os pulmões às vezes saíam com fibroses dessa confusão armada e que, portanto, não voltavam a ser os mesmos. "Mas isso era visto em quem tinha ficado em estado mais grave, hospitalizado", diz o professor Molina. "A gente, até então, não associava a covid-19 a algumas queixas que apareciam tempos depois de um quadro leve."

Segundo o infectologista, mesmo na pessoa sem sintomas, a inflamação provocada pelo vírus existe. "Ela pode ser baixa, sorrateira, mas ser contínua. E assim, com o tempo, talvez provoque as manifestações que estamos vendo agora", é a sua hipótese.

Não há remédio

Muitos alertam que essas manifestações persistentes ou tardias deverão criar novas demandas para médicos e outros profissionais de saúde, como os fisioterapeutas que trabalham com reabilitação. E que é preciso conhecê-las mais a fundo para organizar estratégias e não deixar o enorme contingente que pegou a covid e que se recuperou — mas nem tanto — na mão.

"O que precisa ficar bem claro é que não temos tratamento para a covid-19", sublinha Rodrigo Molina, reconhecendo que tudo o que é feito, inclusive nas UTIs, é para domar o incêndio no qual o vírus é o fósforo, evitando que o fogo se alastre, queimando a possibilidade de o paciente sair com vida. "E muito menos existe tratamento precoce, assim como tampouco há remédio específico para essas manifestações que perduram ou que surgem depois", reforça o infectologista.

Quem se automedica se estrepa, deixo a dica. No mínimo, não resolve. De quebra, corre o risco de prejudicar o coração e intoxicar o fígado. Se você teve covid-19, o que está ao seu alcance é observar se algo acontece de diferente um ou dois meses depois e, se acontecer, buscar ajuda profissional.