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Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Tecnologia inédita no país faz a diferença para tratar o câncer de pâncreas

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

02/03/2021 04h00

Neste último domingo, 28, no centro cirúrgico do Hospital Vila Nova Star, em São Paulo, o radiologista intervencionista Luiz Tenório Siqueira posicionou cuidadosamente, com precisão milimétrica, quatro agulhas finas ao redor de um tumor de pâncreas, sob o olhar atento de um dos maiores cirurgiões do país, o doutor Antônio Luiz Macedo. Foi a estreia no Brasil de uma tecnologia que, até hoje, só está disponível em poucos centros do mundo. Chama-se Nanoknife.

Graças a ela, o tumor "engaiolado" recebeu ondas de eletrochoque de 3 mil volts. Nesse ponto do procedimento, ninguém precisou esperar muito — "a etapa dos disparos de corrente elétrica, que só atingem o que está na área entre as agulhas, leva apenas de 1 a 5 minutos", descreve o doutor Tenório.

Esse tempo breve, porém, é mais do que o suficiente para a eletricidade dilatar determinados poros na membrana das células tumorais — e isso é tudo o que se quer. Aliás, o procedimento é conhecido por eletroporação irreversível. E realmente não há volta: "Com essa carga, os poros ficam tão dilatados que não se fecham mais", diz o doutor Tenório.

Segundo o intervencionista, a ciência descobriu o fenômeno ainda nos anos 1980. "Mas só recentemente surgiu essa tecnologia e ela pode fazer total diferença em alguns casos de câncer pâncreas que antes a gente não conseguia operar", conta.

Os tais poros funcionam como portas, por onde as células recebem nutrientes e também eliminam aquilo de que não precisam mais. Deixam entrar ou sair sódio, potássio e água, por exemplo, o que mantém sua integridade. Laceados, porém, não controlam mais nada disso, como se permanecessem escancarados deixando tudo passar. E, sem fazer direito suas trocas com o ambiente, a célula não tem saída — morre.

Foi o que aconteceu quando as agulhas cercaram o tumor de pâncreas da primeira paciente submetida ao tratamento há dois dias, uma mulher de 55 anos. A lesão maligna estava encostada em um tronco de artérias das mais importantes. Saiba: não é difícil isso acontecer se o câncer surge nessa glândula.

Quando o cirurgião responsável por esse caso, o doutor Macedo, menciona os vários vasos que passam por esse órgão, fica claro que se trata de uma encruzilhada até para médicos experientes. Aliás, inevitável a gente se lembrar daqueles filmes de ação em que o herói precisa levar embora algo que está em uma sala com feixes de laser saindo por todos os lados e ele, sem poder esbarrar em nenhum deles. No caso, é o bisturi que não pode relar em uma artéria ou em uma veia dessas ao extirpar o tumor.

Só que entenda: sem arrancá-lo fora, por sua vez, o câncer de pâncreas fica sem solução. Então, a quimioterapia, a radioterapia e até mesmo as modernas terapias-alvo só conseguem manter a doença sob certo controle, aumentando a sobrevida e dando mais qualidade ao dia a dia.

A enorme dificuldade que é operar um pâncreas

Mas como tirar o tumor — imagine! — se ele estiver grudado na artéria esplênica com seu trajeto sinuoso irrigando o baço, o próprio pâncreas e seguindo para o estômago? "O risco é sempre alto", nota o doutor Macedo.

Tem ainda a artéria mesentérica e ela também leva sangue para boa parte do intestino. Já a gastroduodenal abastece o piloro, a passagem do estômago para a porção intestinal do aparelho digestivo. "Existem ainda as artérias pancreaticoduodenais, a inferior e a superior", dá outro exemplo o cirurgião e esse nome comprido já entrega o seu percurso. Acredite: esbarrar em qualquer vaso no pâncreas é uma encrenca que pode parar muito além de seus limites.

"Quando o tumor de pâncreas está quase colado a um vaso assim, até a chegada dessa tecnologia só nos restava uma alternativa que nunca foi muito boa: cortar junto uma margem de segurança ao seu redor menor do que 1 milímetro",explica o doutor Macedo.

O problema é que, sem o bisturi levar uma margem maior do que 1 milímetro, costumam sobrar células doentes próximas à parede da veia ou da artéria. O câncer volta e, pior, aquele pâncreas não suporta mais uma cirurgia no mesmo lugar.

É essa ameaça que o Nanoknife afasta com suas agulhas e correntes — se por azar ficar uma célula maligna para trás nessa área de borda que não foi retirada, ela irá morrer por causa dos poros irremediavelmente dilatados. Com isso, os médicos agora podem operar casos para os quais, até então, a cirurgia era descartada. E isso pode mudar a cara da doença.

Talvez você se pergunte por que razão uma artéria na vizinhança da lesão maligna não corre o mesmo perigo, isto é, de também ficar com os poros afrouxados graças à corrente das agulhas espetadas rentes.

"A parte externa da parede de um vaso não tem células cheias de poros. Ela é mais firme, basicamente formada por colágeno", ensina o doutor Macedo. E o doutor Luiz Tenório completa: "Outro detalhe é que essa tecnologia não libera calor, o que protege os vasos também".

Por que a maior parte dos casos é avançada

O médico Paulo Hoff, presidente da Oncologia D'Or, rede à qual pertence o hospital onde o Nanoknife fez sua estreia, conta que apenas dois em cada dez casos de câncer de pâncreas são diagnosticados em estágio inicial, quando ainda são muito pequenos e, portanto, passíveis de cirurgias. "O pâncreas é um órgão localizado muito no fundo do abdômen, então fica difícil para os exames o visualizarem direito e acusarem qualquer alteração, se um tumor está no início", justifica.

A maioria dos flagrantes ou se encaixa no que os oncologistas chamam de tumores localmente avançados — isto é, tumores ainda restritos ao pâncreas, mas que crescerem a ponto de esbarrar nesses vasos importantes, ficando impossível operar — ou então já se espalhou pelo organismo, no triste fenômeno da metástase.

Para piorar, conforme a localização, até mesmo os tumores localmente avançados não dão sinais. Olhe a imagem do pâncreas que acompanha este texto: se o câncer aparece na área que lembra uma cabeça, a pessoa ainda pode sentir uma dor lhe atravessando até as costas e ficar toda amarelada. Isso é bom? "Em parte, porque ela descobre a doença mais cedo para iniciar algum tratamento. Em compensação, essa é uma região especialmente cheia de daqueles vasos que irrigam órgãos vitais e, por isso, a gente simplesmente não pode arrancar a cabeça do pâncreas com um tumor localmente avançado junto", esclarece.

Já no corpo e no que os médicos chamam de cauda do pâncreas, não há pista da doença, que, aí, ganha terreno silenciosamente. Talvez — de novo! — até encostar em algum vaso... Assim, voltamos ao ponto problemático de sempre. Por isso a aposta na eletroporação: ela pode diminuir tumores localmente avançados para que eles possam ser extirpados como os tumores das fases mais iniciais.

Mais comum com o aumento da obesidade

"Tabaco, álcool em excesso — e, muitas vezes, a inflamação do pâncreas provocada por ele, a pancreatite — e pedras na vesícula sempre foram as causas mais comuns do câncer de pâncreas", explica Paulo Hoff.

A genética pesa em alguns casos — naquelas famílias com alterações nos genes BRCA1 e BRCA 2 também envolvidos no câncer de mama e de ovários, por exemplo.

"No entanto, hoje em dia essa lista ganha mais alguns fatores importantes: o sedentarismo, a obesidade e certos poluentes presentes no meio ambiente", alerta o oncologista.

Não à toa, na última década a prevalência de câncer de pâncreas entre os brasileiros vem aumentando cerca de 4% ao ano — é um bocado. De acordo com os dados do INCA (Instituto Nacional do Câncer), esse tumor representa apenas 2% dos casos de câncer no país. No entanto, 4% das mortes por câncer são causadas por ele. Porque, provavelmente, encostou onde não devia. Em parte desses casos, agora, será possível cogitar a cirurgia. Que, no caso, é a verdadeira saída.