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Blog da Lúcia Helena

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Com as variantes do coronavírus, será que é para sair usando duas máscaras?

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Imagem: Getty Images
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

23/02/2021 04h00

O burburinho começou nos Estados Unidos quando, há quase duas semanas, o CDC (Centers for Disease Control and Prevention) sugeriu o uso de duas máscaras ao mesmo tempo — uma cirúrgica por baixo e outra de pano por cima — para aumentar a proteção contra o Sars-CoV 2.

De acordo com um estudo apresentado na ocasião, o uso duplo faria a eficiência para barrar esse e outros vírus ficar em torno de uns 95%, ou seja, se aproximar do uso de uma máscara N95 usada por profissionais de saúde na linha de frente — adianto, há controvérsias.

Em nenhum instante, porém, eles falaram que isso tinha a ver com as novas cepas do coronavírus. Ninguém de lá justificou que essa sugestão era por causa delas. Mas, no telefone sem fio das conversas sobre a covid, a ideia de vestir uma dupla de máscaras se juntou à história das novas variantes, como se agora fosse necessário dobrar o cuidado.

No entanto, bom eu avisar quem anda ainda mais assustado com a pandemia que o vírus não mudou nadica de tamanho — modo de dizer. Aliás, quem me lembra disso é a infectologista Raquel Stucchi, que é professora da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), no interior paulista, e consultora da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia).

O que ela quer explicar: ao sofrer determinadas mutações, o novo coronavírus pode até ter se tornado mais transmissível, mais isso, mais aquilo. E, sim, certamente ele hoje é mais perigoso para quem pretende desafiá-lo com a face desmascarada.

Só imagine que, por ele continuar com as mesmas dimensões para conseguir passar ou ser retido pelas tramas de um tecido, o acessório de proteção continua com a eficiência de sempre, sem precisar ser duplicado, desde que — atenção — seja escolhido com critério e usado do jeito certo.

"Eu ganharia o meu dia se a maior parte das pessoas realmente estivesse preocupada com as variantes e com o jeito certo de sair de máscara. O que mais vejo é gente agindo na contramão disso", lamenta a professora Raquel. Suspiro junto, sentindo-me também desolada.

"Mas os Estados Unidos e até mesmo alguns países da Europa partiram de um extremo a outro", acrescenta a professora. "Primeiro, contra as evidências científicas, eles não recomendavam o uso rotineiro de máscaras. Depois, os europeus passaram a indicar que todo mundo, se possível, usasse a N95 e, agora, os americanos vêm com essa ideia de duas de uma vez...".

A crítica ao uso em dose dupla

Para o infectologista Antonio Bandeira, o CDC está tentando fazer valer o que a ciência já queria — promover a adesão às máscaras. Mas essa sugestão de uso simultâneo de dois acessórios não tem sentido algum, em sua opinião.

"Nenhum método de barreira foi testado amplamente com as pessoas usando duas máscaras, para começo de conversa", diz o médico, que é membro da diretoria da SBI e coordenador do serviço de controle de infecção do Hospital Aeroporto, em Salvador, na Bahia.

De fato, o próprio CDC chama a atenção que a eficácia atestada pelo estudo apresentado — aquela beirando os 75% — só valia para o modelo específico de máscara de tecido que foi testado. Isso porque a capacidade de barrar o novo coronavírus pode variar muito de um pano para outro.

"As máscaras de tecido não têm uma eficácia precisa, garantida por um instituto de acreditação, feito um Inmetro no Brasil, por exemplo", aponta o infectologista, referindo-se ao Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia. "Elas são úteis porque são acessíveis e devem ser feitas de pelo menos duas camadas de tecido mais grosso de algodão ou de tricoline. Assim, ajudam a segurar as secreções que a gente emite e, até por isso, protegem muito mais o outro."

Se a máscara de pano retém as gotículas que saem do seu nariz e da sua boca — que, desse modo, se por acaso estiverem carregadas do vírus da covid, não alcançarão as pessoas ao seu redor —, a recíproca infelizmente não é verdadeira. O acessório de tecido comum, fique esperto, não impede que você aspire as gotículas de alguém que esteja sem máscara ou usando-a de maneira incorreta, deixando as narinas à mostra, se esse sujeito está a menos de 1 de distância.

"É claro que, quando você cria mais camadas de barreira, a proteção sempre aumenta", observa a professora Raquel Stucchi, voltando à recomendação do CDC. "Mas a minha preocupação é se o indivíduo usando duas máscaras vai conseguir respirar direito ou até mesmo ser ouvido em uma conversa. Caso contrário, ele ficará tentado a baixar os dois acessórios o tempo inteiro." Aí mora um grande risco.

"Isso é loucura", concorda o doutor Antonio Bandeira. "As pessoas vão manipular muito mais as máscaras, se usarem duas ao mesmo tempo" Lembre-se: colocar os seus dedinhos no tecido é ameaça de contaminação na certa. "O melhor é usar uma máscara única, escolhida conforme o perfil de situação que você irá viver", aconselha.

Para locais abertos ou com pouca gente

O acessório de tecido serve para você andar pela rua, frequentar espaços abertos ou até mesmo fechados, mas com poucas pessoas — inclusive, porque é fundamental, ao usar a máscara de pano, você se garantir mantendo a distância mínima de 1 metro em relação aos outros, o que fica impossível em lugares cheios.

Geralmente, essa máscara aguenta bem por duas horas, mas talvez não demore tanto tempo até ficar úmida, conforme o clima local ou se você falou muito. Troque-a antes desse prazo, então. Ou a eficiência do pano umedecido despenca.

"Também não acredite em máscaras de tricô. Podem parecer bonitas por fora, mas são bem ordinárias", alerta a professora Raquel. Nelas, cada furinho entre um ponto e outro é uma avenida para o novo coronavírus desfilar. "Uma máscara dessas deve ser encarada como mero adereço, porque seu efeito protetor é zero", diz a médica.

Se quer mesmo usar uma máscara tricotada, aí sim, siga o conselho do CDC e vista duas, com o modelito placebo de tricô por cima, combinando com sua roupa e cobrindo a máscara de pano comum ou a cirúrgica. Como ela é arejada até demais — aliás, esse é o seu defeito —, nesse caso o uso duplo tende a não produzir a sensação de abafamento excessivo.

Para usar em reuniões ou em lugares mais cheios

Nesse tipo de situação e até mesmo no atendimento médico, durante visitas em hospitais e laboratórios de exames para cuidar de qualquer outro problema que não seja a covid, a máscara cirúrgica vai bem. Ela protege o outro e, diferentemente da de pano, protege o próprio usuário também.

O ideal mesmo seria usá-la no transporte público, que anda com mais gente se apertando do que seria aceitável em uma pandemia.

Descartável, essa máscara precisa ser jogada fora depois de quatro ou seis horas. "No entanto, se você usá-la para ficar em um escritório com poucas pessoas e não falar muito, ela pode durar até dois períodos de trabalho, sendo guardada em um saco de papel limpo, se tirá-la para almoçar", explica Raquel Stucchi.

Dois cuidados. Primeiro: essa máscara costuma ficar mais aberta dos lados. Se não for ajustada direito, de nada adiantará seu tecido ser capaz de impedir a passagem do vírus. Ele entrará de boa pelas laterais.

O segundo cuidado mereceria ser escrito em letras garrafais: "Não compre sua máscara cirúrgica em qualquer lugar. Lembre-se do ditado de que o barato sai caro", diz a infectologista. Máscaras cirúrgicas são finas mesmo, mas aquelas quase transparentes podem ser falsificadas. Infelizmente, são muito comuns.

O aviso para comprar o acessório, se possível, em lojas especializadas em equipamentos médicos vale também para a aquisição da famosa N95. "Não faltam modelos N95 fajutos no Brasil, muitas vezes até dentro de hospitais, expondo os profissionais de saúde", lamenta a professora.

Para usar em salas fechadas com muita gente

E também para vestir quando suspeita que, apesar de não ser o certo — nem o legal — em tempos de pandemia, você vai encontrar um número razoável de pessoas sem máscara pela frente.

"A N95 é uma máscara completamente eficaz. Tem um filtro eletrostático que previne a passagem de agentes causadores de várias doenças", diz o doutor Bandeira. Segundo ele, pela experiência brasileira com os profissionais na linha de frente, uma N95 legítima, de qualidade, pode durar até uma semana.

Afinal, com que máscara eu vou?

Antonio Bandeira acha que todo mundo deveria ter guardadas em casa as cirúrgicas ou investir em uma N95 para situações de maior risco. Para Raquel Stucchi, porém, se todos comprarem a N95, ela ainda poderá faltar para os profissionais na linha de frente. "Sem contar que é muito mais desconfortável do que as outras para respirar. Difícil para quem não é da área da saúde se acostumar", afirma.

Qualquer que seja a escolha, não são duas máscaras que resolvem, mas uma única, só que usada da maneira correta. Ou, vá lá, tirada da maneira correta. "Muita gente se contamina quando abaixa o acessório para fazer um lanche ou para tomar um cafezinho com alguém ao seu lado", conta o doutor Bandeira. Se inventar de baixá-la por qualquer razão, já sabe — mantenha a distância. Por você e pelo outro. E saiba: mesmo com a vacina, os cientistas calculam que vamos precisar de máscaras até meados de 2022. É isso mesmo, respire fundo atrás do pano.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL