PUBLICIDADE

Topo

Blog da Lúcia Helena

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Comprovado: comer sempre alimentos com grãos refinados faz você viver menos

iStock
Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

19/02/2021 04h00

O pãozinho nosso de cada dia, quem diria, é capaz de aumentar as taxas de mortalidade em geral em até 27%. E, aliás, não só ele, mas o macarrão, o biscoito, a torrada, o bolo, certos cereais matinais e tudo aquilo que é feito com farinha e grãos refinados, se eles estiverem sempre à mesa ou se você beliscá-los sem parar, comendo umas sete porções entre a hora de acordar e a de dormir.

Parece muito, mas para algumas pessoas é fácil chegar lá. Imagine: um pão no café da manhã e, quem sabe, uma fatia de bolo; uma torta no cardápio do almoço e croutons na salada que estava ali só para acompanhá-la; mais algumas bolachas com o cafezinho da tarde e um prato cheio de macarrão como pedida para o jantar. Feito!

A ameaça aumenta ainda mais se você olhar apenas para a saúde cardiovascular. Quem não consegue maneirar nesses itens e consome em torno de 350 gramas ou mais desses alimentos por dia — o que dá em torno das tais sete porções —corre um risco 33% maior de sofrer um infarto, ter um AVC, apresentar um aumento na pressão sistólica ou desenvolver uma insuficiência cardíaca, em comparação com quem é comedido e não leva para a boca mais do que 50 gramas de alimentos à base de grãos refinados diariamente.

O surpreendente: apesar de não aumentarem as taxas de mortalidade como os refinados, nem a de eventos cardiovasculares em particular, os grãos integrais que sempre levaram uma excelente fama não ofereceram a sua esperada proteção. Ou seja, aparentemente eles recebem aquele rótulo de que não ajudam, mas também mal não fazem.

E mais surpreendente ainda: o arroz branco, embora não tenha mais a sua casca nem o gérmen onde ficava a maior parte de seus nutrientes e fibras, parece se alinhar com os grãos integrais. Sim, ele é uma incrível exceção, porque, apesar de refinado, o seu consumo não está associado ao risco de você ter algum problema e morrer.

De onde vêm essas informações

Esses dados, recém-publicados no British Medical Journal, chamam bastante a atenção porque vêm do PURE (The Prospective Urban Rural Epidemiology). "O PURE é muito mais do que um mero estudo. É uma plataforma de entendimento de por que e como adoecemos, acompanhando em torno de 300 mil pessoas de 21 países há quase 15 anos", define o cardiologista Álvaro Avezum, que é diretor da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) e também do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, que é a base do PURE na América do Sul. Portanto, Avezum lidera a pesquisa por aqui.

A coordenação global da iniciativa fica na Universidade McMaster, no Canadá. "Com ela, esperamos entender como as pessoas reagem à alimentação, à atividade física e a uma série de comportamentos, observando quem fica doente e quem não adoece e quais fatores estão associados a quais problemas de saúde", diz o médico.

Os participantes respondem a um questionário de mais de 120 páginas, esmiuçando tudo o que fazem e o que deixam de fazer. Não à toa, o PURE já rendeu mais de 200 publicações científicas analisando os nossos hábitos e uma de suas principais linhas é a maneira como nos alimentamos. Agora, chegou a vez de os cientistas se debruçarem nos dados a respeito dos grãos refinados.

"Já tínhamos uma ideia de que um alto consumo de carboidratos estava associado a uma maior mortalidade", explica Avezum. "Por isso, entre os carboidratos, resolvemos observar os grãos para entender um pouco melhor essa história."

Faz sentido: no mundo afora, os grãos e os produtos à base dele representam cerca de metade das calorias que as pessoas consomem em um dia. "Em algumas regiões da África e do Sul e da Ásia, porém, eles chegam a ser 70% do consumo calórico", conta o cardiologista.

O que os cientistas compararam

O estudo envolveu 137.130 participantes, depois que os pesquisadores excluíram aquelas pessoas que já tinham algum problema no coração. Toda essa gente saudável foi acompanhada por 9 anos e meio e, claro, alguns indivíduos adoeceram e até morreram no meio desse caminho.

O interessante é que os resultados do PURE sobre o consumo de grãos refinados refletem tanto o que acontece com a população de países ricos, como o Canadá e a Suécia, quanto o que ocorre com os intermediários, feito a Argentina, a Polônia e o próprio Brasil, assim como com países de maior vulnerabilidade econômica, como o Zimbábue.

Os cientistas também fizeram ajustes, comparando sempre pessoas da mesma idade, da mesma faixa etária, fumantes com fumantes, sedentários com sedentários, equiparando o status sócio-econômico e por aí afora. Com isso, a única diferença entre os grupos de participantes comparados era mesmo o quanto comiam de grãos refinados, integrais ou de arroz. Essa quantidade, por sua vez, dividiu os participantes em quatro categorias —desde os que não consumiam nada ou quase nada aos que exageravam nas porções.

Álvaro Avezum justifica por que motivo o arroz mereceu uma categoria à parte: "Ele é a base da alimentação em muitas regiões asiáticas". E, diga-se, seis em cada dez participantes do estudo estavam nesse continente. A América do Sul, vale notar, fica em segundo lugar no pódio do consumo de arroz.

Qual a lição desse resultado?

"A primeira coisa que devemos pedir é cautela em relação ao arroz e até mesmo aos grãos integrais", diz Álvaro Avezum. "Não é porque não estão associados a uma maior mortalidade que liberou geral e podemos abusar", lembra.

É possível que o arroz não aumente o risco de encrencas, apesar de refinado, pelo simples fato de você não encontrá-lo pronto no mercado para consumir em qualquer instante, por exemplo. Isto é, o fato de uma pessoa comer arroz indica que ela talvez cozinhe ou que, vá lá, aprecie uma comida caseira. E talvez esse arroz esteja acompanhado de frutas, legumes, verduras. Isso é uma especulação.

O PURE, fique claro, não entra no mérito de como o alimento foi preparado. Mas dá para dizer que o arroz pode continuar no cardápio do jeito como está —e, para nossa sorte, aqui no Brasil ele costuma ser acompanhado do feijão.

"A outra conclusão que podemos tirar é que, sim, devemos reduzir o consumo de farinhas e dos outros grãos refinados no dia a dia, mantendo os grãos in natura e integrais", ensina Avezum. Melhor, então, a gente rever o cardápio.