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Blog da Lúcia Helena

Por que se envergonhar de ser paciente de quem furou a fila da vacina

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

26/01/2021 04h00

Não demorou muito mais do que 24 horas depois que Mônica Calazans tomou a sua picada de CoronaVac no último dia 17, abrindo a campanha bastante tardia de vacinação a contra a covid-19 no país, para que as denúncias começassem a aparecer. Muita gente teria conseguido um lugar na fila preferencial do imunizante sem ter em seu currículo nem uma única linha sequer parecida com a trajetória da enfermeira de 54 anos do Hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Ela passou os últimos oito meses no bom combate contra o novo coronavírus, atuando na linha de frente.

Eu não quero, aqui, dar colher de chá para os inimigos da população — entre outros, e muitos, certos políticos, representantes da fina flor da sociedade da cidade que morre asfixiada, veterinários empenhados em salvar animais de fazenda que, decididamente, não são vítimas do Sars-CoV 2, um pouco de tudo da nossa paisagem dantesca. Portanto, não irei consumir o seu tempo para esboçar o óbvio, isto é, aquilo que qualquer cidadão bem educado aprende ainda no berço. Ora, furar fila é feio demais e ponto! Indefensável. O que gostaria é de ponderar sobre a situação de quem, a rigor, até poderia estar ali, com todo o direito por ser um profissional de saúde. Mas deveria?

Deixa eu justificar o questionamento: estudos realizados em diversos países apontam que, por baixo, quem está na linha de frente da covid-19 corre um risco cinco vezes maior de contrair a doença todo santo dia. A própria Organização Mundial de Saúde assina embaixo desse risco aumentado.

Ele é bem maior, por exemplo do que o dos professores de ilustres universidades médicas que permaneceram em casa durante todo esse tempo até pela idade, de quem esteve em home-office fazendo tele-atendimento, de quem abre a porta do consultório para atender alguns pacientes sem febre nem qualquer outro sintoma de infecção, de quem realiza cirurgias agendadas em pessoas que necessariamente passam por testes antes, até para terem o direito de ficar nas alas hospitalares livres de indivíduos se tratando da covid-19. Por aí vai.

Não dá para sair acreditando em todas as acusações. Mas foram e são muitas as queixas lançando fumaça, sinal inequívoco de que há fogo. Aliás, me diga: quem aí já não deu um like nas redes sociais ao ver um profissional de saúde conhecido seu tomando a injeção, exibindo o pequeno curativo no braço ou o papelzinho atestando que foi imunizado? Eu mesma dei muitos likes assim, na euforia de finalmente ver a vacina sendo aplicada nos brasileiros. Mas será que todos os que exibiram suas fotos deveriam ter tomado correndo a sua dose? Poderiam, é fato. Mas deveriam?

"Estaria tudo certo se tivéssemos doses suficientes para o grupo estabelecido como prioritário no plano de imunização, do qual médicos e outros profissionais que atuam no setor de saúde fazem parte. Como infelizmente não é o caso, já que estamos sem vacina para todos, precisamos estabelecer subgrupos entre aqueles que estariam na frente, reorganizando essa fila ", pensa o ginecologista César Eduardo Fernandes, que no início deste mês tomou posse como presidente da AMB (Associação Médica Brasileira).

A AMB não tem, bom deixar claro, a missão de fiscalizar a atuação dos médicos — essa seria uma das funções do Conselho Federal de Medicina. Mas soltou um comunicado oficial no domingo, 24, sobre o respeito que os colegas de jaleco deveriam ter à ordem de prioridade no cronograma vacinal contra a covid-19: "Conforme reportagens, entre os transgressores estariam pessoas fora da área de saúde e também profissionais de saúde, incluindo médicos que não atuam diretamente na linha de frente do atendimento de pacientes suspeitos ou com covid-19. A situação é constrangedora e reprovável em todos os aspectos", diz o documento.

O próprio doutor César Eduardo Fernandes, diga-se, poderia se dirigir à instituição em que trabalha quando a vacina começou a ser aplicada por lá e se colocar na fila de imunização. "Estou recebendo poucas pacientes no consultório e fazendo muitos atendimentos a distância. Apesar de ser de uma faixa etária de risco relativamente mais elevado para a covid-19, resolvi agradecer e dizer não", conta. "Nessas horas, precisamos fazer um exercício de consciência." E assim o ginecologista continua aguardando a sua vez quando a fila andar. A dose que, eventualmente, iria para o seu braço na semana passada pode ser dada a alguém na linha de frente.

A fila tem uma lógica

"Todos os países usam critérios para apontar quem deveria se vacinar primeiro e eles nunca são políticos e, sim, baseados em ciência, definidos conforme as respostas da população a uma infecção, observadas pela vigilância em saúde", explica o pediatra intensivista Juarez Cunha, presidente da SBIm (Sociedade Brasileira de Imunizações). Ou seja, vai para a frente da fila quem se encaixa no grupo com um perfil que adoece mais. Aliás, é assim não só com a covid-19, mas com qualquer doença quando se estabelece um plano de vacinação.

Esse perfil que posiciona você e todo mundo na fila, como nota o médico, até pode variar ligeiramente de lugar para lugar. "No Brasil, estão incluídos no grupo prioritário para tomar vacina de covid-19 os indígenas que vivem em aldeias. Afinal, eles habitam locais distantes, têm menos acesso à saúde e, por essas condições e por características até da etnia, são bastante vulneráveis a infecções", exemplifica o presidente da SBIm.

É uma situação parecida com a dos quilombolas, que também são prioridade na fila criada no Brasil. Claro que, na Inglaterra sem índios nem quilombolas, as prioridades podem ser um pouco diferentes. Mas não tanto. Porque volto a frisar: elas sempre são estabelecidas a partir da observação de quem adoece mais ou que morre mais por causa de determinada doença.

Desse modo, quando se pensa nos estragos feitos pelo novo coronavírus, em qualquer canto do planeta atordoado por ele fazem parte do grupo prioritário para vacinação quem tem acima de 60 anos porque costuma ter piores desfechos ao pegar a covid-19. No entanto, entre um sexagenário e um septuagenário, se não dá para aplicar a injeção em todo mundo ao mesmo tempo, quem tem mais de 70 passaria na frente. Por isso, no Brasil, na ponta da fila estão os indivíduos com mais de 75 anos e, em uma segunda etapa, estão os sujeitos na faixa dos 60 até os 74.

Mas na maior parte dos lugares — inclusive no nosso país — pode ocupar um dos primeiros lugares da fila, em vez de ficar para uma segunda etapa, alguém de uns 60 e poucos anos que, por algum motivo, esteja morando em instituições de longa permanência, como os asilos. Dentro da lógica do risco, faz todo sentido não se agarrar simplesmente à idade: "Há vários relatos de surtos com muitos óbitos nessas instituições", justifica Juarez Cunha.

Olhando para os dados de epidemiologia também dá para entender por que os seres humanos privados de liberdade têm seu lugar à frente de pessoas que podem circular livres por aí: "Entre eles, há sempre um número muito maior não apenas de covid-19, mas de tuberculose, infecção por HIV, hepatite C...", explica Juarez Cunha.

Já na comparação entre quem, por sorte, goza de plena saúde na pandemia e quem tem alguma comorbidade, o segundo deve ser privilegiado na fila para se vacinar. Isso porque o Sars-CoV pode ser muito mais cruel com quem apresenta obesidade, é portador de diabetes, enfrenta um câncer, sofre de hipertensão e de algumas outras doenças crônicas.

Do mesmo modo, aqui e em qualquer lugar do mundo, profissionais de saúde devem estar entre os primeiros a serem vacinados contra a covid-19. Sem eles para cuidarem do resto da população, estaremos lascados. Inegável. Mas cabe fazer um exercício semelhante ao dos idosos, naquela comparação entre os de sexagenários e os septuagenários: se não dá para vacinar os 3% dos brasileiros que são profissionais de saúde ao mesmo tempo, aqueles não estão correndo um risco cinco vezes maior, caso dos trabalhadores na linha de frente, deveriam ceder o seu lugar e esperar um pouco, não?

"É um egoísmo imenso passarem à frente", opina Juarez Cunha."Até porque esse universo é muito maior do que expressam os 3%", afirma. Realmente, nem só médicos e enfermeiros circulam entre os pacientes internados com covid-19.

A lista é longa. Nela, você pode incluir o motorista da ambulância, o socorrista que coloca a pessoa passando mal na maca, o recepcionista que faz a ficha de entrada, o pessoal de tecnologia envolvido na manutenção dos equipamentos médicos, os encarregados da higienização das UTIs, os nutricionistas, os fisioterapeutas que garantem o folêgo de muitos doentes, os técnicos de radiologia, enfim, todo mundo nas emergências e UPAs (Unidades de Pronto Atendimento do SUS). Essa gente é que está na pior fogueira por nós neste exato momento, sem desprezar os outros profissionais de saúde — até porque quem em sã consciência (sã consciência, eu disse) não gostaria de vacinas para todos eles? Mas não é o que temos para hoje, perdão.

Sem desculpa: quem é do ramo deveria saber o que é certo

"Claro que existem outras medidas que são importantes, como o distanciamento social e o uso de máscaras", aponta o cardiologista Renato Azevedo, vice-presidente da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) e diretor da APM (Associação Paulista de Medicina). "No entanto, a vacina é a única saída para prevenir pra valer a doença e acabar com a pandemia. E um médico sabe muito bem disso. Sabe que temos um dos melhores sistemas de imunização do mundo e que ele funciona muito bem justamente porque tem regras. Portanto, se fura a fila é de caso pensado, o que acho um crime contra a saúde pública"

Para ele, o papel das sociedades de especialidades é "orientar essa comunidade, não só cientificamente, mas ética e moralmente". A Socesp já divulgou nota reforçando a importância da vacinação e lembrando que nenhum outro tratamento até o momento se mostrou eficaz para prevenir os quadros severos de covid-19. E se posiciona no sentido de que médico por médico, profissional de saúde por profissional de saúde, aqueles nas linhas de frente e nos serviços de emergência devem ser os primeiros a receber o imunizante.

Hospitais costumam ser seguros para quem tem outras doenças

Os critérios de ordem na fila sempre devem ser revistos em função da quantidade de doses da vacina e de grupos específicos que podem despontar entre aqueles com maior ameaça de adoecer. Mas linha de frente sempre será linha de frente. E as alas de covid-19 costumam ser separadas das demais.

Quando um profissional que não está nelas — seja médico, administrativo, o que for — recebe a vacina alegando que circula pelos corredores de determinado hospital, ele rasga o discurso de que esses lugares são seguros para receber pacientes com outras doenças, já estão separando os casos de covid-19. Mas, sinceramente, quem precisa de hospital deve buscar lá o seu tratamento. O hospital pode ser seguro de verdade. A desculpa é que costuma ser esfarrapada.

Cuidado também com a caça às bruxas

É o doutor César Eduardo Fernandes, da AMB, quem lembra: "Cuidado, algumas denúncias apontaram o dedo em riste para residentes de Medicina", exemplifica. De fato, muitas alas dedicadas à covid-19 em instituições como o Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina de São Paulo, alvo de várias reclamações, ficaram repletas de residentes trabalhando arduamente na pandemia. E de internos também, em alguns estados, concluindo sua formação e vestindo o EPI para ajudar. Mas infelizmente houve caso de professor chamando aluno para, digamos, simplesmente aproveitar a oportunidade. Teve de tudo, enfim.

Também não podemos colocar nessa confusão aqueles profissionais de saúde que se ofereceram como voluntários em estudos com imunizantes, receberam placebo na ocasião e que agora, conforme o que é sempre combinado em pesquisas assim, têm o direito de receber o remédio verdadeiro. Eles fizeram a sua parte para que todos nós tivéssemos vacinas testadas e aprovadas.

"A população nos tratou como heróis, valorizando o nosso trabalho na pandemia", observa o doutor César Fernandes. ''É lamentável que uma minoria de profissionais macule essa imagem." E desses, que posaram de vacinados sem nunca terem ficado ao lado de um leito com ventilador ligado, dá para sentir uma dose de vergonha alheia e lançar aquele olhar que diz: eu sei o que você, doutor ou doutora, fez na semana de 17 de janeiro. E não foi lá muito bonito.