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Blog da Lúcia Helena

Sentir raiva e ter atitudes hostis prejudica pra valer a saúde do coração

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

19/01/2021 04h00

Eu também fico desse jeito, à beira de perder as estribeiras. Às vezes, sinto o sangue ferver e amarro a cara querendo mandar o outro ir catar coquinho diante de tudo o que vejo ou escuto por aí, nestes tempos tão tristes e tão desgovernados. Dizem, esse pavio curto pode explodir bem no nosso peito. E daí que essa raiva toda ainda nos matará, sendo um dos principais sintomas de outro mal do momento: lamento, mas sofremos do que os cardiologistas estão definindo como enfermidade moral.

Ao menos, foi o que aprendi ao ler o artigo do médico Álvaro Avezum publicado na revista da SOCESP (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo), em uma edição inteira voltada ao impacto da espiritualidade na saúde do coração. Ali, ele e os quatro co-autores — do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e da Faculdade de Medicina do ABC, ambos em São Paulo, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e da Cardio-Clínica do Vale, em Lajeado, no Rio Grande do Sul — fazem esse diagnóstico. Não perca a paciência, porque já, já lhe explico do que se trata.

Mas adianto o que conta o estudo InterHeart, citado de cara por Avezum e seus colegas. Já considerado um clássico da Medicina, ele foi iniciado há pouco mais de quinze anos e envolve 52 países de diversas regiões do globo. O objetivo: avaliar quais seriam os maiores fatores de risco para um sujeito cair fulminado por um infarto. E esse trabalho avaliou que 33% deles, exato um terço, seriam de ordem psicossocial, como viver deprimido ou estressado. E, nesse contexto, o ódio que parece ser estrategicamente alimentado entre nós tem um valor nas alturas. Cuspir fogo não faz nada bem.

Não é de hoje que outro estudo , o CARDIA (Coronary Artert Risk Devolopment in Young Adults), este até mais antigo, de 1983, depois de avaliar 5.115 jovens adultos entre 18 e 30 anos, concluiu que, naqueles com altos níveis de hostilidade revelados por testes de comportamento, as placas nas artérias surgiam de maneira mais precoce. Só agora, porém, a ciência dedica um olhar mais atento a achados assim.

O conceito de enfermidade moral

Diretor da própria SOCESP e do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, Álvaro Avezum — um dos cientistas brasileiros mais citados em revistas médicas mundo afora — está convicto de que os nossos pensamentos sobre todos e tudo o que acontece ao redor, assim como os sentimentos disparados por eles, podem fazer com que a gente adoeça ou não do coração. E isso teria a ver com o conceito de espiritualidade, sobre o qual a Cardiologia talvez seja a especialidade médica que mais se debruça.

"Não, não há exame para atestar ou medir o grau de espiritualidade de um ser humano. Ou seja, não há confirmação laboratorial para esse tipo de coisa", logo avisa o doutor Avezum. "Mas existem testes muito objetivos, que podem ser levados para a prática clínica, capazes de avaliar determinados comportamentos, como a disposição de alguém para perdoar ou, na contrapartida, a sua capacidade de guardar ressentimentos", diz ele. Um score elevado no primeiro faz o coração bater, digamos, de maneira mais saudável. Já o rancor pode sufocar o peito, não raro literalmente.

Só não confunda, aqui, espiritualidade com religiosidade, porque uma não necessariamente tem a ver com a outra: "Para nós, a espiritualidade é um estado mental ou emocional que norteia os nossos pensamentos, as nossas atitudes, ações e reações diante das circunstâncias da vida e o nosso relacionamento não só com os outros como conosco", diz o médico, reproduzindo a definição da Sociedade Brasileira de Cardiologia, que chegou a criar, inclusive, um Departamento de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular, o qual Avezum também dirige.

E, dentro desse campo, eis que surge a enfermidade moral para ser estudada. "A gente fala em doença quando existe um problema na estrutura ou na função de um órgão qualquer", explica o cardiologista. "Já uma enfermidade é mais subjetiva. É quando o paciente se queixa que não está bem e, no entanto, tanto os exames clínicos quanto os laboratoriais ou de imagem não revelam coisa alguma", continua, apresentando então mais uma definição. "Eu diria que a doença afeta o órgão e a enfermidade, o ser humano."

Segundo Avezum, em casos assim, hoje o recomendado é que os médicos apliquem questionários e escalas já validados pela Medicina para entenderem melhor essa sensação de não estar bem. "Até porque sabemos que, embora os exames possam não revelar nada estranho, ela provoca alterações na bioquímica do organismo que acabam levando a desfechos ruins dali a algum tempo", justifica.

Mas isso desperta outra questão: diante de qualquer seja o resultado desses questionários, o que fazer depois com uma pessoa muito ressentida ou que anda soltando fogo pelas ventas, com um humor do cão, agredindo quem está ao seu lado ou, vá lá, guardando a raiva para si? Aí é que está.

"Quando, lá atrás, a literatura mostrou que a hipertensão e o colesterol alto estavam associados ao infarto e até mesmo ao AVC, não saímos depressa tratando", compara Avezum. "Primeiro fizemos o que, em Medicina, chamamos de estudos de intervenção para sabermos se, usando remédios para baixar a pressão, por exemplo, reduziríamos pra valer as doenças cardiovasculares também. No caso, deu certo. E é o mesmo raciocínio aqui. Estamos nessa etapa".

Portanto, daqui para frente o desafio dos cardiologistas estudiosos da espiritualidade e das tais enfermidades morais —"morais", no sentido de o seu modo de agir impactar nos sentimentos de quem está por perto e, quando a gente fala em ódio, fica bem fácil entender — é investigar que terapias e outras estratégias, incluindo até mesmo a meditação, funcionariam para uma pessoa se tornar mais grata e menos magoada ou ser mais gentil em vez de hostil, assim por diante. "E isso deve ser feito por meio de estudos clínicos randomizados, seguindo todos os protocolos da ciência", afirma Avezum.

Com o ódio no coração

Estudos mais recentes sugerem que terapias direcionadas à redução da hostilidade fazem cair pela metade o risco de quem já infartou de repetir essa experiência que está longe de ser das mais agradáveis. Até porque parece que, quando o indivíduo se torna menos hostil, deixando de ficar fulo da vida por pouca bobagem, há um menor avanço da aterosclerose, o acúmulo de placas de gordura e minerais, endurecendo a parede dos vasos e estreitando a passagem do sangue.

Tudo, de certa maneira, inicia com os pensamentos. "Começa naquele momento em que você avalia uma discussão, raciocina e reflete: vou tolerar o que estou ouvindo ou não?", exemplifica Avezum.

Ocorre que pensamentos nunca estão descolados de emoções e sentimentos que, ideias românticas à parte, são uma enxurrada de substâncias, como neurotransmissores cerebrais e hormônios, somada à atividade do sistema nervoso simpático e do parassimpático, que é autônomo, regulando o funcionamento dos órgãos. E esse conjunto vai interferindo no coração e nos vasos periféricos o tempo inteiro, realizando ajustes na circulação.

"A literatura científica aponta que, quando essas influências são fortes e persistentes, elas provocam danos tanto no músculo cardíaco quanto nas artérias", afirma Avezum. E é bem isso o que faz a hostilidade, em particular: ela hiperativa todo esse sistema de controle da circulação. "Nessa condição, o coração é submetido aos hormônios do estresse constantemente e recebe comandos mais intensos do cérebro", observa o cardiologista. Logo, como está no artigo da revista da SOCESP, notam-se aumentos intermitentes da frequência cardíaca e da pressão arterial. Essa montanha-russa, cheia de picos ao longo do dia, sobrecarrega demais o sistema cardiovascular. Ninguém duvida.

E não é só isso. A liberação ininterrupta de doses elevadas do hormônio cortisol secretado pelas duas glândulas suprarrenais, comum em quem está sempre disposto a comprar uma briga, bagunça todo o metabolismo de proteínas, açúcares e gorduras. Isso, entre outras consequências, aumenta a vulnerabilidade ao diabetes — que, por sua vez, castiga ainda mais o coração. Sendo que o próprio cortisol, despejado todo dia em altas concentrações, lesiona as paredes internas do vasos. Isso não pode terminar bem.

Mas acabou por aí?! Que nada! Toda essa hiperatividade observada em indivíduos mais agressivos aumenta também a produção de substâncias inflamatórias que agridem o próprio músculo cardíaco e disparam uma cascata de reações capazes de levar à formação de trombos. De quebra, a raiva excessiva causa uma liberação extraordinária de substâncias chamadas catecolaminas e elas destrambelham o ritmo cardíaco, provocando em última instância o risco de morte súbita.

Eu poderia preencher linhas e mais linhas declarando ódio ao... ódio. Para você ter ideia, os cientistas compararam dados de 20 estudos — uma metanálise, em seu jargão — e assim concluíram que a raiva e a hostilidade, que seria a expressão da primeira jogando o fel pra cima dos outros, são o combo ideal para aumentar em 25% a probabilidade de você ter uma doença coronariana qualquer.

Será que agora todo dia é dia de sentir raiva?

Com tanta notícia ruim, é tentador pensar que sim. Somos asfixiados por perdas. Acrescentamos toda sorte de medo. Sentimos a dor do descaso — e do escárnio. Confrontamos gente na rua que não está nem aí com a pandemia e muito menos, por fim desmascarados, simbolicamente e de fato, respeitam quem cruza o seu caminho. "Mas sempre existe o livre arbítrio", lembra Avezum. "Por mais complicado que pareça, eu que escolho como vou enfrentar as situações adversas."

Isso passa, de acordo com ele, até pela seleção de que tipo pensamento você quer consumir nessa fase — e nas que virão. Talvez valha até fechar os ouvidos para algumas falas, sem dar ibope aos inimigos do seu bem-estar. "Não significa negar a realidade, mas pinçar o que traz serenidade para enfrentá-la", resume o médico. Até porque a pandemia, diz ele, "não traz nada de novo no aspecto da espiritualidade, só desvela o que já existia na vida da gente" — quem sabe, até mesmo uma antiga vocação para soltar os cachorros, sem a noção de que, depois de um tempo, o próprio coração seria a vítima.

Para essa tendência a ficar fulo da vida não há, infelizmente, vacina. Mas, se a gente olhar novamente para os estudos a respeito de espiritualidade e saúde cardiovascular, o que faz bem ao peito por mecanismos bioquímicos: a esperança, o otimismo e a gratidão. Não está fácil — falo por mim. Sugiro então que, feito remédio, você leia mais sobre a verdadeira ciência, cujos feitos podem fazer brotar esse trio bem em seu coração. E, assim, sobreviveremos à pandemia. E ao pandemônio.