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Blog da Lúcia Helena

Diversidade nos consultórios: a importância de saber tratar quem é LGBTQIA+

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Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

12/01/2021 04h00

O psiquiatra e psicodramatista Saulo Vito Ciasca ainda estava no segundo ano de Medicina na Universidade de São Paulo quando perguntou a um professor: "Por que existem pessoas que, como eu, são gays? Há algum estudo nesse sentido?"

Era 2002 e, na época, em alguns setores da saúde persistia forte aquela velha ideia de que todo mundo era para ser hétero nesta vida e, se isso não acontecia, de alguma maneira era porque a criatura tinha ficado estancada em uma fase homossexual do seu desenvolvimento, algo mais ou menos assim, em uma explicação grosseira. "Você diz que não é doença, mas então por que está me explicando como se fosse uma doença?",continuava questionando o jovem estudante.

Ele próprio também era questionado: "Por que discriminar pessoas?", ouvia de volta. "Por que quer falar de questões de saúde específicas da população gay, se é todo mundo igual?". Na hora, concordava. Mas depois não conseguia parar de pensar no que poderia existir de diferente em pacientes que pertenciam ao grupo que hoje é conhecido pela sigla LGBTQIA+.

São, seguindo a ordem das letras, mulheres lésbicas, homens gays, seres humanos bissexuais, transexuais, pessoas queer que transitam entre as noções de gênero como as drag queens, intersexos que combinam em seu corpo características biológicas tanto masculinas quanto femininas, assexuais que não sentem atração sexual por outras pessoas independentemente do gênero delas e todas as demais variedades da sexualidade humana — daí o símbolo "+". E eles não são poucos, para você perceber que é até questão de olhar para a saúde pública: representam entre 10% e 20% da população brasileira, por baixo.

Muita coisa aconteceu nessas quase duas décadas. Além de coordenar a área de saúde da Aliança Nacional LGBTI+ e ser colaborador voluntário do AMTIGOS (Ambulatório Transdisciplinar de Identidade de Gênero e Orientação Sexual) do Hospital das Clínicas da USP, Ciasca dá aulas da UNINOVE (Universidade Nove de Julho), em São Paulo, onde ajudou a criar, há cinco anos, uma disciplina justamente para abordar a saúde LGBT.

No entanto, fico pensando que, lá no fundo, foi mesmo naqueles tempos de faculdade que nasceu o embrião do livro "Saúde LGBTQIA+, Práticas de Cuidado Transdisciplinar", muito bem-vindo para a formação de profissionais de saúde de todo o país. A obra, que será lançada pela Editora Manole nas próximas semanas, também é assinada pelo médico de família e comunidade Ademir Lopes Junior, coordenador do programa de residência nessa área na Faculdade de Medicina da USP e pela pediatra e hebiatra Andrea Hercowitz, que atua como voluntária no AMTIGOS, além de ser membro da ONG Mães Pela Diversidade.

A ideia de um livro

"Existe uma invisibilidade dessa população nos serviços de saúde", nota Lopes Junior. "Não à toa, ela tem piores indicadores também. Há uma maior prevalência de portadores do HIV entre os gays. Já os tumores de útero são mais frequentes entre lésbicas, simplesmente porque a taxa de rastreamento desses cânceres, com a realização do papanicolaou, é menor entre elas. O motivo? O exame não é tão solicitado nas consultas dessas mulheres. Enquanto a população transgênero, por sua vez, tem uma expectativa menor", exemplifica o médico, que é gay e membro do grupo de trabalho de gênero, sexualidade, diversidade e direitos da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade.

Ou seja, ninguém adoece mais só por ser LGBT. Mas, ao ficar doente, há um maior risco de uma pessoa LGBT ter alguns cuidados importantes com a sua saúde negligenciados. E, às vezes, por mero desconhecimento. "O que nos uniu foi a percepção da carência de profissionais habilitados para falar dessa temática e cuidar dessas pessoas", diz a doutora Andrea, mãe de dois filhos não héteros.

Considerando os três médicos, o livro conta com textos de nada menos do que 140 especialistas de todo o Brasil. "Conseguimos a façanha de juntar 70 homens e 70 mulheres. Claro que existem colaboradores não binários, mas buscamos uma equiparação de gênero", chama a atenção o doutor Saulo Ciasca.

Ele e seus dois colegas zelaram por uma série de detalhes, como correr atrás de psicólogos e psiquiatras transexuais e dedicar um capítulo inteiro aos acessórios e brinquedos sexuais, o qual foi escrito por uma especialista no assunto ao lado de um ginecologista. "Alguns possuem substâncias em seu revestimento que podem ser absorvidas pelo corpo e que são tóxicas", alerta.

Há outro capítulo contextualizando de onde surgiu o conceito na ciência de que o certo seria ser hétero e cis. Mas, talvez, mais inusitado em um livro escrito por médicos para ser consultado por futuros profissionais de saúde é abrigar textos assinados por representantes de lideranças religiosas — um padre, uma pastora, um rabino, um monge budista, todos mostrando como é possível acolher indivíduos LGBT dentro da sua crença. "Assim, se alguém falar que não pode estudar o assunto por ser evangélico ou o que for, será o caso de sugerir que comece a leitura por essas páginas ", justifica o doutor Ciasca.

O maior esforço, porém, foi levantar em cada especialidade médica e até mesmo em outras áreas fora da Medicina, como na fonoaudiologia, aqueles problemas que são associados aos pacientes de cada um dos grupos representados pelas letras LGBTQIA+, com suas especificidades, explicando como devem ser prevenidos ou tratados, sempre de acordo com evidências científicas. Da ciência, ninguém abriu mão.

A começar pela consulta

A pergunta a seguir é um exemplo clássico que a doutora Andrea, como especialista em adolescentes, conhece muito bem: "Você já teve namorado?". Ou então: "Você já teve namorada?". A médica explica que, ao indagar desse jeito, o profissional de saúde já direciona a resposta. E, se ela não for a padrão, só se escutará uma negativa. Aí se perde a oportunidade de deixar que essa pessoa se coloque, para entendê-la de verdade e cuidar da sua saúde", diz.

Quando a própria Andrea passou a fazer perguntas neutras na consulta — "você já ficou com alguém?" ou "você está com alguém?" — viu a porcentagem de LGBTs entre seus pacientes subir. E, óbvio, não é que eles tenham aumentado. Apenas, ela passou a conhecer quem era quem.

Mas muitas vezes ainda há um constrangimento de quem veste o jaleco. O doutor Saulo Ciasca menciona uma pesquisa na qual pediram a médicos que estimassem a porcentagem de seus pacientes que se sentiria mal caso eles perguntassem a respeito de identidade de gênero e orientação sexual na consulta. Eles chutaram alto — acharam que mais de 60% deles acabariam melindrados. Os pesquisadores, no entanto, foram atrás dos pacientes também. E a realidade é que apenas 3% se incomodariam.

Outro erro é consequência justamente dessa falta de diálogo. "É quando, porque a pessoa tem certa aparência, o médico já supõe qual seria a orientação sexual dela e presume que ela faz sexo de determinado jeito", explica Lopes Junior. Ideias pré-concebidas nunca ajudam nos processos de diagnóstico.

Sexo anal e questões do dia a dia

São muitas as dúvidas rotineiras que podem surgir na consulta de alguém LGBTQIA+ e que, talvez, andem ficando sem resposta — os autores, porém, fizeram questão de decifrá-las. Peço que eles me contem apenas uma delas. O doutor Saulo Ciasca, então, se recorda que, em sala de aula na faculdade, lançou mão do psicodrama e fez as vezes de um paciente diante da turma de Medicina: "Quero fazer sexo anal e tenho hemorroida. Posso ou vai piorar?" Os estudantes ficaram tensos. Uns chegaram a falar que o ânus — para ser fina — não era para esse tipo de coisa, o que me faz imaginar se algum hétero falaria o mesmíssimo da boca. Mas vamos lá...

Passado o choque, foram atrás do que estudos sérios tinham revelado a respeito. Adianto o gabarito: não, sexo anal não provoca hemorroida e quem tem o problema pode praticá-lo, a não ser que a tal hemorroida esteja ativa, isto é, sangrando ou, pior, com alguma suspeita de trombose.

Problemas muito específicos, quem já sabe tratá-los?

Aqui, também, não faltam casos para ilustrar. "O contato vulva com vulva nas relações sexuais entre lésbicas pode levar a mudanças na flora vaginal e essas alterações, por sua vez, são capazes de fazer com que essas pacientes, muitas vezes, tenham corrimentos diferentes, que precisam ser conhecidos para serem tratados direito", exemplifica o doutor Ciasca.

Isso, para um ginecologista, pode ser mais simples do que diagnosticar a causa de um corrimento em uma mulher trans — sim, pode acontecer. Nesse caso, o médico precisa conhecer que micro-organismos costumam colonizar a neovagina construída cirurgicamente, até mesmo para saber se são eles que estão por trás do sintoma ou se o tal corrimento seria o prenúncio de uma complicação da cirurgia.

Bem mais delicada é a situação de pessoas intersexo, aquelas que já nascem com um corpo diverso, o qual foge das características padronizadas como masculinas ou femininas. "É comum, na Medicina, que os bebês sejam operados ainda na maternidade, na intenção de levar a criança a sofrer menos no futuro", explica Saulo Ciasca. "Mas, além de ela passar pelo trauma de múltiplas cirurgias, nesse processo há o risco de se arrancar o que lhe daria prazer sexual ou atrapalhar sua função reprodutiva dali a alguns anos. Além disso, nesse momento, não é possível dizer qual será a identidade de gênero dessa pessoa e a cirurgia pode lhe criar inúmeros problemas em relação a isso. Daí que é urgente a gente discutir na área da saúde o que pode ser feito e o que deve ser evitado."

E quais problemas são iguais aos de todo mundo e não estão sendo tratados?

Não faz sentido alguém ter diabetes e, ao chegar diante do especialista nessa doença, ouvir que precisa procurar um serviço de saúde focado em transsexuais — um diabetes é um diabetes e é um diabetes. Ponto. Não importa qual letra seja a sua, incluindo o "H" de hétero.

"Tampouco faz sentido mulheres bissexuais não serem bem orientadas em relação a métodos contraceptivos", afirma a doutora Andrea. As taxas de gestação indesejada são mais altas entre elas e uma possível explicação encontrada na literatura é que ninguém pergunta se estão fazendo algo para evitar filhos. Deduzem que elas sabem se cuidar porque transam com homens e mulheres. Não necessariamente.

Diga-se, bissexuais têm piores indicadores de saúde do que mulheres lésbicas e homens gays. "É um grupo que pode se sentir incompreendido na própria comunidade LGBT, já que todos criam a expectativa de que a pessoa bissexual um dia vai se assumir de um lado ou de outro. Ela é vista como instável, às vezes até como promíscua", observa a doutora Andrea . "Isso, segundo a literatura médica, favorece o aparecimento de depressão, de transtornos alimentares e de problemas físicos mesmo, porque é um paciente que tende a evitar a consulta ao médico."

Prescrever diversidade

Esse é um universo tão vasto que renderia um texto sobre cada área. Aqui, só fiz um leve apanhado. No mínimo, já vale a reflexão sobre as oportunidades perdidas de abordar questões importantes para essa população dentro de uma série de pautas que desfilam na minha coluna. Fato.

"A intenção com uma obra assim é, em um primeiro momento, fortalecer uma rede de profissionais que já estão sensibilizados para o tema", diz Ademir Lopes Junior. "Daí se aproximar e conquistar outros. De repente, fazer um professor pensar na possibilidade de uma disciplina optativa dentro da sua área, em determinado curso. Mas, sabemos, sempre existirão aqueles profissionais de saúde que continuarão resistentes." Pena. Precisamos prescrever a diversidade. O único efeito colateral é a possibilidade de um mundo melhor, mais inclusivo e saudável literalmente para todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL