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Blog da Lúcia Helena

Toda vacina tem uma temperatura certa. Sem cuidar disso, entramos numa fria

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Imagem: iStock
Lúcia Helena

Lúcia Helena de Oliveira é uma jornalista apaixonada por saúde, assunto sobre o qual escreve há mais de três décadas, com cursos de especialização no Brasil e no exterior. Dirigiu por 17 anos a revista Saúde, na Editora Abril, editou 38 livros de autores médicos para o público leigo e, recentemente, criou a Vitamina, uma agência para produzir conteúdo e outras iniciativas nas áreas de medicina, alimentação e atividade física.

Colunista do UOL

22/12/2020 04h00

Enquanto as pessoas se estapeiam em discussões sobre qual seria a melhor, se essa ou se aquela vacina, eu tenho outra questão na cabeça. E ela não é menos acalorada. Aliás, tem a ver com o calor ao pé letra. Afinal, toda molécula de remédio, até a do seu inocente analgésico, precisa ficar em uma faixa muito bem determinada de temperatura para não ir para o beleléu.

Mas, cá entre nós, até o mais atento leitor de bula, aquele sujeito que decora toda desgraça que pode lhe acontecer como adversidade depois de engolir a medicação, ignora solenemente o aviso para manter o vidrinho, a caixa, a cartela ou o que for em um lugarzinho fresco — recanto que jamais seria, por exemplo, o porta-luvas do seu carro, que fácil, fácil passa dos 30ºC do limite máximo.

Quando se trata de um comprimido para aliviar uma enxaqueca, porém, o pior que pode acontecer é o tormento não ir embora. Já quando o assunto é a covid-19 e a sua tão aguardada vacinação, um clima escaldante como o de São Paulo enquanto eu escrevo este texto pode provocar dores de cabeça bem maiores — imagine se a molécula do imunizante for para o brejo! Seria então, em uma comparação grosseira, como receber um placebo, uma vacina de faz-de-conta. Calma, não deverá acontecer (esperamos). Mas a solução não será tão simples.

"Segundo a Organização Mundial de Saúde, praticamente 50% das vacinas já não chegam até as pessoas em plenas condições por problemas no meio do caminho entre a indústria e elas. E muitos desses problemas têm a ver com a temperatura", me conta a farmacêutica Liana Montemor, diretora técnica e estratégica em cadeia fria do Grupo Polar. "Quanto mais distante do fabricante é o local onde elas vão ser aplicadas, maior será o risco de variações indesejáveis e todo o cuidado no transporte e no armazenamento será pouco", avisa Liana que, talvez, seja uma das maiores especialistas no assunto no país.

Além de integrar o comitê executivo de logística da Sindusfarma, é ela quem valida no Brasil o CEIV Pharma, o certificado da IATA (International Air Transport Association) confirmando que, ao menos enquanto está voando, uma vacina está sendo transportada como manda o figurino. Ou melhor, com os termômetros marcando a temperatura exata para manter sua eficiência.

Mas é claro que a história não termina aqui. Como outros remédios, ela ainda pegará estradas, ficará armazenada em algum lugar e, muitas vezes, não sairá da geladeira direto para a seringa e o braço do cidadão, precisando ser levada a algum canto em caixas refrigeradas.

A temperatura ideal

Ainda na fase de desenvolvimento de um imunizante, são feitos diversos testes de estabilidade para descobrir em que faixa de temperatura suas moléculas devem ficar antes de se romperem, por exemplo. "Essa recomendação precisa ser seguida à risca, nenhum grau a mais, nem a menos", avisa Liana. "A gente sempre pensa no estrago que pode fazer o calor, mas frio em excesso é tão ruim o quanto", informa.

Chamou a atenção do mundo que a vacina contra a covid-19 criada Pfizer precisa de -70ºC para ficar conservada, dando a falsa impressão aos leigos de que seria inviável em um país como o nosso e que só no Polo Norte ela poderia ser aplicada em segurança. Bobagem. A vacina criada para o vírus ebola, que foi destinada à África, é até mais exigente em relação ao frio, pedindo -80ºC. E deu certo.

Já a vacina contra a covid-19 da Moderna, que também lança mão de novas tecnologias, capazes de contar ao nosso organismo informações genéticas do novo coronavírus para que ele prepare suas defesas, pede um clima de -20ºC ou menos. "O que precisamos saber é até quanto podemos descer essa temperatura, justamente para não esfriá-la demais", explica a especialista.

Finalmente, a vacina de Oxford, que está sendo testada na nossa Fiocruz, e a CoronaVac, do Butantan, bem como a russa Sputnik, precisam ficar entre 2 e 8ºC, uma faixa de temperatura que facilita a vida quando a gente pensa que equipamentos mais simples de refrigeração podem alcançá-la. Mesmo assim, é preciso ficar de olho.

Para rodar em terra firme

Ao desembarcar de um avião, o ideal seria que as embalagens contassem com o que os profissionais do ramo chamam de dataloggers. Esses dispositivos são feito testemunhas eletrônicas disparando alertas para uma central, caso a temperatura oscile mais do que o desejado no caminhão, por exemplo.

O problema no Brasil é tão sério justamente nessa etapa que, em março do ano que vem, passará a ser cobrado o controle de temperatura de todo e qualquer remédio que pegue a estrada. Hoje, isso ainda não existe para todos, só para os biológicos.

Ah, sim, existem as famosas caixas, dentro das quais muitas vezes as vacinas são levadas para onde a população está, nos locais de aplicação, que podem ser de uma escola na metrópole a um povoado ribeirinho distante. Não sei se você sabe — eu não fazia a mínima ideia —, mas em geral essas caixas transportadoras que a gente olha como quem observa um mero isopor de sorvete levam cerca de um ano e meio para serem desenvolvidas. São criadas sob medida para as necessidades de conservação de cada imunizante. Claro, desta vez não há tempo para tanto esmero.

"Para as vacinas para covid-19, vamos adaptar as que já existem, o que será descomplicado para aqueles imunizantes que precisam de temperaturas entre 2 e 8ºC", diz Liana. Aí, no caso, as caixas muitas vezes podem ser preenchidas com uma espuma para manter o clima fresco, semelhante àquela usada por floristas na hora de fazer arranjos.

Já o gelo seco, cotado para encher essas mesmas caixas de transporte e manter o frio necessário para a vacina da Pfizer, por exemplo — ou até mesmo a da Moderna —, na opinião de Liana Montemor está longe de ser a melhor solução. "O motivo é simples: quando ele sublima, acaba se transformando em dióxido de carbono, um gás que é tóxico para quem o manipula", diz ela. "E tudo bem se fazemos isso de vez em quando. Mas estamos em uma pandemia e, se muita gente pelo mundo for vacinada desse jeito e ao mesmo tempo, a quantidade liberada desse gás será enorme, prejudicando os operadores, inclusive os encarregados pelo transporte aéreo", justifica.

Por isso, cientistas apresentam soluções. Entre elas, por exemplo, há um material chamado PCM (do inglês "phase change material"), que misturado ao gelo seco, diminui a quantidade necessária do mesmo.

A questão do armazenamento

Recentemente, a própria Liana Montemor aplicou para técnicos da Anvisa e para profissionais de algumas secretarias de saúde estaduais treinamentos sobre o controle de temperatura das vacinas de covid-19. "Precisamos ser detalhistas para não botarmos a perder a incrível oportunidade da vacinação", diz.

Ela flagrou, infelizmente, alguns equívocos. Peço um exemplo: "Usar termômetro infra-vermelho para checar a temperatura de um imunizante. Decididamente, ele não serve para isso", me conta. Outro detalhe: o tempo de abertura de porta na hora de tirar a vacina lá de dentro do refrigerador. Esse intervalo pode variar de equipamento para equipamento e, claro, divergir conforme o clima externo, que será bem diferente — logicamente mais quente — em uma cidade do Nordeste, onde essa abertura deverá acontecer na base do vapt-vupt pra valer.

Por falar em equipamento de refrigeração nos postos de saúde, o ideal é que a temperatura dele seja uniforme em seu interior. "Nem sempre é o que acontece na prática, digo, olhando para o Brasil", explica Liana. "Às vezes, podemos notar que, perto da porta, a temperatura termina menos fria do que deveria. E, se isso acontece, precisamos ensinar a equipe que guardará o imunizante que ele deverá ficar sempre bem no fundo", diz. Por aí vai.

Por isso, já nem estou mais no clima do debate sobre qual seria a melhor vacina — ora, entre qualquer uma das aprovadas, será aquela que chegar ao meu braço primeiro. Minha cabeça só esquenta quando penso no planejamento que teremos de encarar para tudo dar certo. E nem estou entrando no mérito de equipes e seringas.

Afinal, uma vacina que não pegou, como se diz por aí, pode ser excelente — e, apenas, ter sido desperdiçada em função de descuidos banais. Mas, sendo justa, o Brasil com o seu plano de imunizações e o SUS é muito bom em vacinação. É só arregaçar as mangas para ajustar os termômetros. Não será simples — ou não está sendo simples. Mas será lindo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL